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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

‘Há cinco anos’ ou ‘a cinco anos’?

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 04h01 - Publicado em 17 abr 2014, 12h44

“Professor, li um importante documento que o autor iniciava com a seguinte frase: ‘A cerca de cinco anos…’. Afinal, nesse caso é ‘a’ ou ‘há’? Obrigado.” (Luis Mário Moura)

Luis Mário deveria ter citado um trecho mais longo da frase que abre o documento. Com o que nos conta, é impossível saber se o período de cinco anos referido pelo autor se situa no passado (o que o obrigaria a escrever “há”) ou no futuro (e nesse caso a frase estaria correta).

Convém explicar melhor. Quando nos referimos a um tempo passado, cinco anos atrás, empregamos o verbo “haver”, que indica tempo decorrido e, sendo impessoal, não é flexionado: tanto faz que se trate de uma hora ou de quinhentos anos, fica sempre no singular.

Tais casos são facilmente reconhecíveis por permitirem a substituição do verbo haver por fazer, que nesta acepção também é impessoal: “Faz cinco anos que…”. Portanto, para dar ao fragmento citado por Luis Mário dois complementos hipotéticos:

Há cerca de cinco anos, ingressei no mercado de trabalho.

Ou ainda:

Há cerca de cinco anos, trabalho mais de dez horas por dia.

Se a frase se referir a um momento futuro, porém, o verbo haver não cabe (e fazer também não, para quem quiser tirar a dúvida). Vamos supor que a intenção do autor fosse dizer algo assim:

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A cerca de cinco anos de me aposentar, confesso que já estou contando os dias.

Este “a” não é um verbo, claro, mas uma preposição que indica a posição do falante em relação a algo – neste caso, distância no tempo.

É justamente essa “distância no tempo” que confunde muita gente. Afinal, quando falamos do passado também indicamos uma distância no tempo, não?

Sim, mas com uma diferença importante. “Há” leva a ação para o momento referido tanto nos casos em que ela se esgota nele – “ingressei no mercado de trabalho” – quanto naqueles em que, continuando até hoje, nele teve início: “trabalho mais de dez horas por dia”.

Enquanto isso, a preposição “a”, mesmo criando uma baliza temporal futura, deixa a ação no presente mesmo: “já estou contando as horas”. (Para projetar a ação no futuro, seria preciso dizer algo como “daqui a cinco anos” ou “dentro de cinco anos”, mas esta é outra história.)

De qualquer forma, basta ter em mente que, assim como o verbo “haver” chama o passado, o uso da preposição “a” em frases desse tipo vai sempre apontar para o futuro.

*

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