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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

A presidente pode ser chamada de incumbente?

Dilma: uma “presidenta incumbenta”? “Prezado Sérgio, nestes tempos de pesquisas eleitorais, a palavra ‘incumbente’ parece ter chegado de vez nas análises de nossos cronistas. Certamente, vem do termo ‘incumbent’, tão comum na literatura de economia política americana. Mandatário não seria uma boa designação para o político no cargo, em oposição a seu desafiante? E, aliás, […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 02h54 - Publicado em 9 out 2014, 16h41

Dilma: uma "presidenta incumbenta"?

Dilma: uma “presidenta incumbenta”?

“Prezado Sérgio, nestes tempos de pesquisas eleitorais, a palavra ‘incumbente’ parece ter chegado de vez nas análises de nossos cronistas. Certamente, vem do termo ‘incumbent’, tão comum na literatura de economia política americana. Mandatário não seria uma boa designação para o político no cargo, em oposição a seu desafiante? E, aliás, o que há de errado com o bom e velho situacionista? Obrigado.” (Francisco Pinheiro)

Francisco acerta ao identificar no inglês incumbent a origem do termo “incumbente” quando empregado no sentido de mandatário que concorre à reeleição – oposto, portanto, a desafiante. Estamos diante de um estrangeirismo semântico, isto é, uma ampliação de sentido provocada em vocábulo castiço por influência estrangeira.

Convém explicar. A palavra “incumbente”, derivada do latim incumbens, incumbentis, particípio presente do verbo incumbere, é dicionarizada em português desde princípios do século XX. Suas acepções vernaculares na linguagem comum são basicamente três: “que incumbe ou dá incumbência; que compete a; inclinado para baixo” (dicionário Priberam).

Os lexicógrafos não registram (ainda?) a acepção que se tornou usual no jargão político e que a atual campanha eleitoral deixa mais uma vez em evidência. Esta foi tomada do inglês incumbent, que surgiu no século XVI e que, embora tenha vindo da mesma fonte latina citada acima, ganhou desde o início um sentido diferente, o de “pessoa que detém um cargo eclesiástico”, mais tarde estendido para “detentor de qualquer cargo público”.

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Como se vê, ocorre uma inversão. Em português o incumbente sempre foi compreendido como aquele ou aquilo que a alguém uma incumbência, uma obrigação ou um dever, enquanto em inglês o incumbent é aquele que recebe tal responsabilidade sobre os ombros.

Reconhecer que o incumbente-mandatário é um anglicismo semântico não significa negar sua existência. Faz alguns anos que a literatura política o tem abraçado, o que nos permite supor ser questão de tempo sua adoção pelos dicionários. Num artigo de oito parágrafos publicado na “Folha de S.Paulo” em janeiro de 2006, Delfim Netto empregou a palavra quatro vezes, em frases como esta: “Nos países sem controle social, como o Brasil, ele [o processo de reeleição sem desincompatibilização] desequilibra o processo eleitoral a favor do incumbente”.

Se falta pedigree à palavra, sua funcionalidade é defensável. “Situacionista”, sugestão de Francisco, não é um sinônimo adequado nesse contexto, por se referir a qualquer candidato do partido do governo e não apenas àqueles que concorrem à reeleição. Candidato-mandatário seria uma alternativa, com a desvantagem de acavalar dois substantivos, enquanto “incumbente”, sendo adjetivo, permite construções mais elegantes. De resto, a xenofobia nunca foi boa conselheira linguística.

Mas que incumbente é um estrangeirismo semântico não dicionarizado, é. E ainda corremos o risco de ver Dilma Rousseff dizendo por aí que é uma “presidenta incumbenta”.

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