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Roberto Pompeu de Toledo Por Roberto Pompeu de Toledo

“Não é para mim”

Por que não conferimos à educação a prioridade indisputada que lhe cabe?

Por Roberto Pompeu de Toledo Atualizado em 31 jan 2020, 10h43 - Publicado em 31 jan 2020, 06h00

Quando jovem estudante, na década de 90, Priscila Cruz costumava dedicar suas manhãs de sábado ao trabalho voluntário numa escola da periferia de São Paulo. A escola era no bairro de Jardim Varginha — mais um a carregar o nome de “jardim”, copiado do Jardim América e do Jardim Europa, para designar, num arroubo de otimismo, ou de desencantada ironia, um lugar de escassas árvores. Priscila dava aulas de reforço de matemática a alunos muito pobres, cuja trajetória escolar era, de ano para ano, um acúmulo de defasagens. Ela não sabe o nome do menino que um dia se aproximou para anunciar uma resolução. Mas nunca se esqueceu do que ele lhe disse:

— Tia, eu vou embora. Educação não é para mim.

Priscila Cruz, formada em administração pela Fundação Getulio Vargas e em direito pela USP, com especializações nos Estados Unidos, é hoje a presidente executiva do Todos pela Educação, movimento voltado para a mobilização da sociedade civil pela melhoria do ensino. Ela contou a história do menino sem nome numa recente palestra TED — curtas apresentações sobre diferentes assuntos, patrocinadas pela fundação americana Sapling, que podem ser vistas no YouTube. Na ampla gama de sentidos que a palavra “inclusão”, tão insistente nestes dias, nos oferece, a frase do menino merece lugar de honra. É ao mesmo tempo uma resignação, um lamento e um protesto, o cúmulo da autoexclusão e uma pungente denúncia das iniquidades sociais. Para Priscila, tal qual revelou na palestra, foi uma epifania.

O menino da frase foi mesmo embora. A conclusão de que educação não era para ele definiu seu caminho. A Priscila, hoje uma das maiores autoridades em educação do país, ele legou o sacolejão que, diz ela, tirou-a de sua “bolha”. Na palestra, Priscila desfia, como numa sucessão de silogismos, verdades tão simples que chocam. Começa com a exibição, na tela ao fundo, de três manchetes que os brasileiros anseiam por ver um dia. A primeira: “Brasil acelera o crescimento com forte redução da desigualdade”. A segunda: “Queda vertiginosa dos índices de violência coloca o Brasil entre os países mais seguros”. A terceira: “Brasil lidera produção científica de ponta e muda sua matriz econômica”. A cada enunciado ela faz pausas e comenta: “Já imaginou?”, “Não é o sonho de todos nós?”. Na conclusão, adverte que, para a realização de cada uma dessas manchetes, tem de vir primeiro outra: “Brasil é o país que mais cresce no Pisa na última década e encosta na elite da educação mundial”.

Sem educação pública de qualidade continuaremos a patinar na desigualdade

Tudo grita, de tão óbvio. É óbvio que sem educação pública de qualidade continuaremos a patinar na desigualdade, e é óbvio que sem avançar na redução da desigualdade continuaremos travados no subdesenvolvimento. Por que então não conferimos à educação a prioridade indisputada que lhe cabe? “Não existe a menor possibilidade de o Brasil crescer, se desenvolver, distribuir renda, gerar oportunidades para todos, se tornar um país seguro, se não resolver a educação pública”, diz a palestrante. E ainda: “Se os brasileiros se tornaram intolerantes com relação à inflação, à corrupção, ao desemprego, por que a gente aceita tão facilmente a baixa qualidade da educação pública?”.

A resposta está em outra demonstração, de lógica elementar, contida na palestra de Priscila, e que tem origem em seu encontro com o menino sem nome. Ao sair da bolha na qual só se preocupava “com a própria educação, com ter um bom emprego”, e acreditava que assim “as coisas iam se resolver”, ela se deu conta de que a educação do menino não interessava só a ele. Interessava a ela, Priscila. Por extensão, interessava-lhe a educação de todos os outros meninos e meninas. Só com educação para todos teremos um país próspero, igualitário e seguro. Só com educação de qualidade superaremos essa “situação que nos está travando, que está travando a vida do país”.

O menino sem nome acreditou naquilo que “muitos de nós, de forma consciente ou inconsciente”, diz Priscila, “também acreditam e aceitam: que educação de qualidade é para uns, e que outros não vão tê-la, e tudo bem”; não nasceram para isso. “A ideia poderosa que vai nos fazer sair desse lugar de complacência”, segundo Priscila, é a “solidariedade”, é nos mobilizarmos “todos pela educação de todos”, jogando pressão sobre os governantes, e conscientes de que tão importante quanto nossa educação e a de nossos filhos é a dos jovens “que nunca veremos na vida”. A força de Priscila Cruz está em combinar o fogo da paixão com a água fria da lógica. Dessa química ela extrai o rumo para nossa salvação, como indivíduos e como nação.

Os textos dos colunistas não refletem necessariamente as opiniões de VEJA

Publicado em VEJA de 5 de fevereiro de 2020, edição nº 2672

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