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Jovens de abrigos para menores conquistam bolsas para universidade

Acordo entre MP e MPT viabilizou dois milhões de reais em auxílio para adolescentes egressos de casas de acolhimento; porém, apenas apenas 2% fizeram o Enem

De madrugada, a mãe deixou os cinco filhos dizendo que voltaria logo. Consumidora de drogas, retornou ao lar rapidamente, como prometido às crianças. Porém, foi executada por traficantes. “Não deu meia hora depois que ela chegou e os caras a chamaram. Deram um tiro. Ela foi morta na frente de casa. Vi ela sentada no chão, no morro da favela”, relembra Vitória da Silva Guimarães, de 18 anos.

Vitória é uma jovem negra de longos cabelos trançados até a cintura. Ela cresceu com os irmãos em um abrigo de Porto Alegre que acolhe menores de idade sem pais ou vítimas de negligência. A garota sempre estudou em escola pública e agora está mais perto do sonho de ser uma juíza. Vitória é aluna do curso de direito de uma das melhores faculdades jurídicas do Brasil, a Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP).

“No começo me senti um pouco rejeitada por ser a única negra, mas os colegas já estão falando comigo. O que mais gostei até o momento é aprender sobre a história do direito, desde antiguidade. Me interessa muito descobrir como eram as coisas no passado”, contou a VEJA sobre as impressões das primeiras aulas.

Vitória da Silva Guimarães, de 18 anos, ganhou uma bolsa integral para estudar Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP)

Vitória da Silva Guimarães, de 18 anos, ganhou uma bolsa integral para estudar Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP) (Roberta Salinet, MP/Divulgação)

No total, já são sete jovens saídos do acolhimento institucional que conquistaram bolsas integrais para cursar a faculdade desejada no primeiro semestre de 2018. Enquanto Vitória estuda na FMP, os demais estão matriculados na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra).

Se as bolsas são sinônimo de esperança de um futuro promissor, elas remetem a uma lamentável realidade: apenas 2% dos jovens acolhidos em Porto Alegre entre 14 e 18 anos chegaram ao final do ensino médio, fizeram o Enem e, por isso, podem pleitear o auxílio. A cidade tem 1.033 crianças e adolescentes acolhidos em 93 abrigos. Destes, 400 têm entre 14 e 18 anos, idade média para prestar o Enem ou estar em vias de fazer a prova exigida para ingressar na faculdade. Porém, 98% deles são repetentes. A maioria está no 6º ano do ensino fundamental, quando deveria estar terminando o ensino médio. Apenas 20 dos 400 concluíram o ensino médio, e sete deles, os 2%, fizeram o Enem.

“Pelo histórico de vida deles, por já terem sido abandonados, negligenciados, por já terem situação de violência física, psicológica, sexual, eles têm dificuldades escolares, têm um déficit. Eles perdem muito por toda situação de vida”, explica a promotora da Infância e Juventude, Cinara Vianna Dutra Braga.

Promotora há 21 anos, ela fiscaliza os 93 abrigos da cidade desde 2014. Alguns locais eram “tenebrosos”, nas suas palavras. “Depois de conhecer, voltei para minha casa. Coloquei as minhas filhas na cama. Mas não conseguia pensar naquelas crianças que não têm ninguém para botar para dormir, para olhar os cadernos, para dizer o quanto é especial e importante, para dizer o quanto tudo vai dar certo. As casas eram um lixo. Para tirar foto, eu trancava a respiração [por causa do cheiro]. Aquilo me revoltava. Era o caos”, contou à reportagem.

Por isso, depois das melhorias nos abrigos, a promotora passou a buscar soluções para os futuros egressos, que precisam deixar os lares aos 18 anos. Assim, conseguiu a bolsa de Vitória, por meio de uma parceria direta com o FMP. Já as bolsas da Ulbra, Cinara conquistou por meio de uma cooperação interinstitucional entre MP e o Ministério Público do Trabalho (MPT) do estado. São dois milhões de reais em bolsas na Ulbra à disposição dos jovens dos acolhidos. A Ulbra descumpriu sua condenação por atraso de salários e férias. Por isso, a multa foi revertida pelo MPT para o auxílio aos jovens acolhidos.

“É uma oportunidade para os jovens mostrarem seu valor e se inserirem na sociedade através do estudo. O exemplo vai incentivar o engajamento de outras entidades”, espera Fabiano Dallazen, procurador-geral do MP-RS.

“Ele abusava da gente, batia. Um dia minha irmã mais velha se acidentou e quebrou a perna. Ele queria bater nela para ela limpar a casa. Foi nesse dia que ela ligou para a polícia”

Uma das novas universitárias da Ulbra é Iracema Maria Araújo Goulart, de 18 anos, que estuda Psicologia no campus de Gravataí, na região metropolitana da capital gaúcha. Ela chegou a morar em uma Kombi com os irmãos, viveu em um barraco à beira de uma rodovia, sem banheiro e sem luz elétrica por mais de um ano. Iracema foi levada a um abrigo aos treze anos depois que a irmã mais velha denunciou os abusos sexuais do padrasto. “Ele abusava da gente, batia. Um dia minha irmã mais velha se acidentou e quebrou a perna. Ele queria bater nela para ela limpar a casa. Foi nesse dia que ela ligou para a polícia”, relembra.

Agora, ela planeja ser psicóloga para prestar atendimento a outras crianças como ela. Antes de entrar na faculdade, estudava pela manhã, trabalhava como recepcionista à tarde e fazia as tarefas da escola à noite. A menina ainda ajudava nas rotinas do abrigo, cuidando das crianças menores.

“Foi sensacional. Os outros adolescentes da casa ficaram felizes por mim porque sabem que se esforçarem podem conseguir também. É uma fase complicada porque quando se aproxima da data de completar 18 anos, a preocupação é ter onde morar fora do abrigo e o estudo fica em segundo plano”, relata Iracema.

Brígida Maria Rui Basciki agora estuda Psicologia

Brígida Maria Rui Basciki agora estuda Psicologia (Roberta Salinet, MP/Divulgação)

Outra nova universitária é Francine da Silva Fonseca, de 20 anos, que estuda Enfermagem na Ulbra. Ela e os três irmãos, chegaram a ser adotados por um casal, mas foram devolvidos posteriormente. Um dos seus irmãos deles ficou doente recentemente e ela “descobriu o que as enfermeiras fazem pelas pessoas” e por isso escolheu o curso.

“Eu decidi que nunca iria abandonar os estudos. A bolsa  é um sonho. Meu chefe está me ajudando com o material escolar, tem muita gente boa no mundo”, disse Daniele Silva de Souza, de 19 anos, também beneficiada, em depoimento ao MP. Daniele decidiu estudar Direito. Ela foi acolhida ao sete anos em um abrigo juntamente com os seis irmãos.

Outra bolsista é Brígida Maria Rui Basciki, de 18 anos, que agora vive com a família que a adotou e também comemora a chance de cursar Psicologia. “Eu me senti alguém”, falou ao MP no momento da assinatura.

Porém, os jovens dos abrigos não precisam apenas de uma nota mínima de 450 pontos no Enem para conquistar as bolsas. Para mantê-las, eles precisam ser aprovados nas disciplinas, ter pelo menos 75% de frequência e completar o curso no tempo previsto. Além disso, eles precisam arcar com transporte para ir e voltar das aulas e alimentação. Por causa dessas responsabilidades, todos são chamados à sede da promotoria da Infância e Juventude. Lá, eles assinam um termo de ciência e responsabilidade.

“Quero ser o espelho para o meu irmão. Não tivemos isso dos nossos pais, então quero ser o exemplo para ele”

Cássio Steinbach, de 20 anos, agora estuda Administração: “quero ser um espelho”

Cássio Steinbach, de 20 anos, agora estuda Administração: “quero ser um espelho” (Paula Sperb/Divulgação)

VEJA acompanhou a assinatura de um desses termos. Sorridente e articulado, Cássio Steinbach, de 20 anos, comemorava o ingresso no curso de Administração, no campus de Porto Alegre, da Ulbra. “Quero ser o espelho para o meu irmão. Não tivemos isso dos nossos pais, então quero ser o exemplo para ele”, contou. “Os pais e mães sociais dos abrigos elogiavam meu comportamento, cada um tinha um jeito e filosofia, mas acabava motivando”, conta.

O garoto, porém, não gosta de relembrar sobre a infância antes de entrar para o abrigo. Naquela época, passava a maior parte do tempo na rua, no chamado “Buraco Quente”, região dominada pelo tráfico e uma das áreas mais violentas de Porto Alegre. Cássio deixou o serviço militar obrigatório há pouco tempo. Orgulha-se em dizer que foi “destaque em aptidão física”.

“Muita gente daria tudo para ter essa oportunidade que você está tendo, oportunidade que você conquistou porque tens maturidade, foi graças ao teu empenho”, disse a promotora a Cássio, enquanto o jovem assinava seu termo. “Que você seja muito feliz”, disse ela ao se despedir do futuro administrador de empresas.

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