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Ricardo Rangel

Lula, candidato, aposta na polarização

Se o que é bom para Lula é ruim para a democracia, pior para a democracia

Por Ricardo Rangel - 8 set 2020, 21h04

Lula, como Bolsonaro, aproveitou o dia da Independência para fazer discurso.

Como Bolsonaro, contou muitas lorotas. Insistiu na narrativa do golpe. Demonizou o teto de gastos — como se fosse possível aumentar gastos no cenário atual. Demonizou o pagamento de juros — como se o governo do PT não tivesse aumentado violentamente a dívida, como se não tivesse pagado juros, e como se fosse possível, ou mesmo defensável, dar o calote nos credores (que, aliás, são, em grande parte, brasileiros comuns).

Acusou o governo de desamparar os pobres durante a pandemia — o que, num momento em que o governo gasta 50 bilhões por mês com auxílio emergencial, é, no mínimo, esquisito. Criticou o “furor privatista” — quando um dos maiores defeitos do governo no plano econômico é justamente não ter programa de privatização algum.

Declarou que “bancos públicos não foram criados para enriquecer famílias” — mas foi nos governos petistas que o BNDES foi usado para enriquecer (ainda mais) famílias como as de Joesley Batista, Eike Batista, Marcelo Odebrecht. E, convenientemente, não mencionou a Petrobras, loteada e saqueada pelos governos petistas.

Lula defendeu a liberdade de imprensa — mas há anos leva a cabo uma campanha de descredibilização da imprensa (que os petistas chamam de “mídia golpista”), e, afirmou, recentemente, que seu único arrependimento é não ter feito o “controle social da mídia”, eufemismo para censura à imprensa.

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Enfim, mentiu muito, bem mais do que Bolsonaro — o que não chega a espantar , dado que seu discurso foi sete vezes mais longo do que o pronunciamento do presidente.

Mas, diferentemente de Bolsonaro, Lula também também disse verdades. Afirmou que estamos “despencando em uma crise sanitária, social, econômica e ambiental”,  e que o governo Bolsonaro “banaliza a morte” e não é democrático.

Mas, se Lula é, como diz, um democrata, por que se recusa a sequer assinar um manifesto em defesa da democracia junto com outros democratas? Porque, claro, Lula não é genuinamente democrata. Quem bota o Legislativo na folha de pagamento do Executivo, num atentado à independência dos Poderes, e faz campanha contra a imprensa livre e advoga o “controle social da mídia”, não é democrata.

Certo de que as sentenças que recebeu de Moro serão revogadas, Lula lançou-se candidato a presidente. Em seu primeiro discurso como candidato, dois anos antes da eleição, deixou claro que não espera aliados, mas adesões: seu projeto é hegemônico.

Como ocorreu em 2018, Lula aposta na polarização e fará o possível para que Bolsonaro esteja no segundo turno. Afinal, ele é o candidato mais fácil de derrotar.

E se ter Bolsonaro no segundo turno representar uma ameaça à democracia, pior para a democracia.

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