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Ricardo Rangel

Cumprindo a cartilha à risca

A sina de um presidente fora da realidade

Por Ricardo Rangel - Atualizado em 10 maio 2020, 13h18 - Publicado em 10 maio 2020, 13h07

Político inexpressivo e desconhecido do grande público, surgiu como um meteoro no horizonte político. Apesar de ter sido integrante de vários partidos políticos diferentes e de fazer parte do establishment político, com todos os seus vícios, tinha por discurso o combate à corrupção, aos políticos tradicionais e a favor da moralidade pública. Fez uma campanha eleitoral cuja essência era antagonizar a esquerda, o PT e seu líder, Lula.

Teve o apoio de empresários, do mercado financeiro e do setor agrário, em particular do principal líder dos ruralistas, Ronaldo Caiado. Teve contra si a quase totalidade da intelectualidade e da classe artística, com raras, mas notáveis, exceções, como Regina Duarte. Proposta concreta de governo, não tinha nenhuma.

Em uma eleição marcada pela polarização, se elegeu com pequena margem. Apesar de ter tido os votos de cerca de apenas um terço da população — e de ter contra si a ojeriza de outro terço — comportou-se como se tivesse carta branca e um salvo conduto para fazer o que bem entendesse. Agressivo, arrogante e autossuficiente, não aceitava crítica e atacava qualquer um que dele discordasse. Enquanto o povo sofria e o país passava pela maior crise de sua história, passeava de moto ou de jet-ski. Parecia tão desconectado da realidade à sua volta que se especulava se teria algum transtorno mental.

À medida que a situação do país se agravava, e que ficava claro que era péssimo governante e que sua bandeira contra a corrupção era de araque, sua popularidade se deteriorava. Só quando o impeachment se tornou uma hipótese concreta, foi procurar no Congresso uma base que lhe garantisse ficar no cargo e governar, mas, a essa altura, só os corruptos de sempre estavam dispostos a apoiá-lo. Loteou seu governo e montou uma tropa de choque com nomes como Roberto Jefferson. Os escândalos de corrupção se multiplicaram e sua popularidade continuou a cair.

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Quando o centrão enfim o abandonou, como era inevitável, caiu em menos de um mês. Chamava-se Fernando Collor de Mello.

Jair Messias Bolsonaro, deputado de primeira viagem, estava lá e votou a favor do impeachment. Mas, pelo jeito, não se lembra de como foi — e cumpre a cartilha de Collor à risca.

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