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Bratton, o homem que venceu o crime em Nova York e Los Angeles

Responsável pela segurança pública das duas cidades na década passada, ex-policial usou estatísticas e planejamento para superar os bandidos e a corrupção

Com a intervenção federal na área de segurança pública no Estado do Rio de Janeiro, o governo do presidente Michel Temer direcionou os holofotes para o tema combate à criminalidade. Não é a primeira (nem a oitava nem a nona) tentativa de pôr fim ou minimizar a atuação do crime organizado no estado fluminense — e no Brasil todo. No fim de 2009, para contribuir com o debate e colocar o dedo em algumas feridas nacionais, VEJA ouviu uma das maiores autoridades mundiais da área, William Bratton, responsável pela drástica redução dos índices de violência e tráfico em Los Angeles e Nova York na década passada.

Ao texto da edição 2.141 da revista, de 2 de dezembro de 2009, soma-se a entrevista publicada dias antes, em 30 de novembro, em TVEJA. Ambos de autoria do jornalista Ronaldo França, direto dos Estados Unidos.

Ao lado do prefeito de Nova York, Bratton, a partir de 2002, foi o responsável por combater e reduzir a criminalidade no programa que ficou conhecido como Política de Tolerância Zero. O grande mérito do chefe das polícias da cidade foi apostar nos números e no planejamento, implantando um sistema de gerenciamento baseado em  estatísticas de ocorrências, no mapa do crime e na responsabilização de agentes infratores.

“Quando fui chamado, em 2002, o prefeito apontou três prioridades: reduzir a criminalidade, proteger a cidade contra ataques terroristas e colaborar com o governo federal nas investigações de abuso de força por parte de nossos policiais”, explicou em TVEJA há nove anos.

“Eu trouxe para Los Angeles o sistema CompStat, que já tinha utilizado em Nova York. É um sistema de análise que nos ajuda, de forma muito ágil, a identificar os padrões e as tendências de atos criminosos. Dessa forma, podemos responder mais rapidamente às ocorrências.”

No vídeo, o ex-policial e na ocasião (2009) chefe do departamento de segurança de Los Angeles mostrou-se um expert na situação não só de seu país, mas também do nosso. Confira alguns trechos do duro diagnóstico que ele fez da realidade brasileira.

“A dificuldade [do Brasil] é que o Judiciário é muito complexo e, sendo sincero, bastante ineficiente”, afirmou. “Vocês têm, como a maioria dos países latino-americanos, uma força policial extremamente mal remunerada. Isso acaba induzindo à corrupção. Vocês também têm um sistema tão desorganizado que acaba comprometendo a sua habilidade de combater a criminalidade”, completou Bratton.

Em sua análise, a forma como as polícias brasileiras preenchem seus quadros também é um erro. “Vocês têm um sistema de classes no qual o policial militar vem de uma classe social diferente dos policiais civis. Nesse sistema, policiais militares não conseguem chegar a postos superiores. E os delegados da Polícia Civil também vêm de outra camada social, eles são todos advogados. Eu comecei minha carreira como um policial. No seu país eu nunca teria conseguido chegar a um posto mais elevado. Eu só conseguiria me tornar um investigador se conseguisse frequentar uma faculdade de direito.”

Assista ao vídeo na íntegra clicando aqui.

A trajetória de sucesso de William Bratton foi contada com mais detalhes pela revista. Leia um trecho:

“Quando se constatou que a força policial da segunda maior cidade americana [Los Angeles] estava apodrecida, duas providências foram tomadas. A primeira, pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, foi uma intervenção, na forma de um acordo voluntário de cumprimento de metas. A segunda foi a contratação de William Bratton, o homem que já havia dado jeito na polícia de Nova York. Em pouco menos de sete anos ele mudou a face da instituição. ‘Bratton mostrou que era possível, e o fez através de um mecanismo de cobrança de resultados’, afirma Christopher Stone, da Harvard Kennedy School, encarregado pelo Departamento de Justiça de acompanhar a evolução da reforma. Suas armas foram investir na cooperação com outras polícias e agências de segurança, como o FBI, a polícia federal americana; prender bandidos em escala industrial (foram 750 000 presos em sete anos). E, o mais importante de tudo, iniciar uma gestão baseada em resultados, no modelo do Compstat, o método gerencial que já havia dado certo em Nova York. Deu certo novamente.

Bratton se aposentou no mês passado e voltou a morar em Nova York. A revista The Economist escreveu sobre sua aposentadoria há três semanas: ‘Sete anos depois, ele deixa Los Angeles com uma reputação ainda mais estelar’. A redução da criminalidade, de 1 000 homicídios em 1998 para 351 em 2008, é a segunda mais acentuada entre as dez principais cidades americanas a vencer o crime. Perde apenas para a de Nova York, onde ele mesmo começou o serviço.”

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