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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

VINTE ANOS DEPOIS, MAIS UMA AULA DE JORNALISMO PARA NELSON BREVE, O CHEFÃO DA EBC, QUE DIFAMOU A POLÍCIA DE SÃO PAULO

Queridos, o texto, mais uma vez, vai ficar um pouco longo. Mas vale a pena ler porque estou destrinchando um método. Relatei aqui dia desses uma conversa que tive há uns 20 anos com Nelson Breve, atual chefão da EBC. Ele começou a carreira jornalística no Diário do Grande ABC, onde também comecei. Quando nos […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 09h40 - Publicado em 26 jan 2012, 06h39

Queridos, o texto, mais uma vez, vai ficar um pouco longo. Mas vale a pena ler porque estou destrinchando um método.

Relatei aqui dia desses uma conversa que tive há uns 20 anos com Nelson Breve, atual chefão da EBC. Ele começou a carreira jornalística no Diário do Grande ABC, onde também comecei. Quando nos falamos, eu era redator-chefe do jornal, e ele, repórter iniciante. Embora já maduro (não sei sua idade, mas deve ser mais velho do que eu;  estou com 50), não tinha experiência na área porque havia feito carreira no setor bancário. Era um rapaz cordato, de temperamento amigável. Eu não menos — ainda que alguns bobalhões suponham o contrário —, embora jamais abra mão de dizer que o penso. Concordar com aquilo de que se discorda por elegância é burrice ou covardia. Sim, ele era petista, o que, para mim, era irrelevante. Não fazia peneira ideológica para contratar repórteres. Já escrevi aqui a síntese de minha conversa com ele — e sempre a levei a sério onde quer que tenha trabalhado: “Eu me interesso pela notícia, não por aquilo que grupos de pressão dizem ser notícia”. Saí do jornal em 1992, Breve ficou. Deu seqüência à sua carreira jornalística e política, no que, vê-se, foi muito bem-sucedido.  Talvez tenham faltado algumas conversas, a julgar por, como vou chamar?, um verdadeiro crime jornalístico cometido pela Agência Brasil, que pertence à EBC, que ele preside.

Relatei aqui o caso na manhã de ontem. Na segunda-feira, a Agência Brasil veiculou para o país e o mundo uma “denúncia” feita por um advogado, evocando a sua condição de membro da OAB de São José dos Campos, segundo a qual haveria mortos na operação de desocupação do Pinheirinho. Os corpos estariam sendo escondidos pela Polícia Militar. Descobriu-se depois que o dito-cujo, Aristeu César Pinto Neto, é advogado do Movimento dos Sem-Teto, uma das forças que comandam a luta política do Pinheirinho. A suposta notícia foi parar nos grandes portais, como Terra e UOL. Os petralhas deram um jeito de espalhar a mentira mundo afora. No Guardian, por exemplo, estava escrito:
“Throughout Sunday, social media sites filled with apocalyptic reports of a supposed ‘massacre’, taking place within the community. One email, sent to international media, claimed there were reports that people had been killed. Brazil’s biggest TV network, Globo, described the eviction as ‘an operation of war’.”
“Durante todo o domingo, sites das redes sociais foram tomados por relatos apocalípticos sobre um suposto massacre. Um e-mail enviado à imprensa internacional sustentava que havia relatos de que pessoas tinham sido assassinadas. A maior rede de Tv do Brasil,  a Globo, descreveu a desocupação como ‘uma operação de guerra’”.

Não sei se a Globo realmente recorreu à expressão. Mas essa foi a fala, como se sabe, de Gilberto Carvalho. Muito bem, meus caros! A mentira veiculada pela empresa oficial de jornalismo, vê-se, ganhou o mundo, ainda que na forma de “relatos”. Os petralhas e a extrema esquerda, está cada vez mais claro, estão articulados para fazer circular suas mentiras mundo afora. Voltemos a Nelson Breve.

Ele tentou consertar a barbaridade feita no dia 23 e conseguiu incorrer em mais uma penca de, serei delicado, delitos jornalísticos. Reproduzo em vermelho a nova reportagem, assinada agora por Alex Rodrigues, publicada ontem. Comento em azul. O desastre já começa no título.

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Autoridades negam que tenha havido morte durante desocupação em São José dos Campos
Não, Nelson Breve! Isso é delinqüência jornalística financiada com dinheiro público. Você deveria ter pedido desculpas e informado que NÃO HAVIA MORTOS COISA NENHUMA e que a empresa que você dirige errou ao publicar uma denúncia de um militante, sem qualquer evidência ou apuração. ONDE VOCÊ APRENDEU A FAZER JORNALISMO ASSIM, NELSON BREVE? Comigo, com absoluta certeza, não foi! Enquanto eu comandei a redação do Diário do Grande ABC, de meados dos anos 80 até o comecinho dos 90, isso não aconteceria de jeito nenhum! Se alguém cometesse barbaridade semelhante contra qualquer partido, inclusive o PT, seria demitido num piscar de olhos. ASSIM, NELSON BREVE, OU VOCÊ DEMITE OU SE DEMITE! Não fazer nem uma coisa nem outra será evidência de que acha bom o procedimento criminoso.

Ao menos 23 pessoas ficaram feridas durante os conflitos entre moradores de um terreno ocupado em São José dos Campos, no interior paulista, e policiais militares que cumprem decisão judicial de reintegração de posse. Segundo a prefeitura, a maioria sofreu ferimentos leves e foi socorrida nas unidades de Pronto-Atendimento. Um das vítimas, contudo, continua internada. Trata-se de um homem atingido por um tiro. Hoje (24), autoridades negaram à Agência Brasil a informação divulgada ontem (23) de que houve morte durante a retirada das cerca de 9 mil pessoas que vivem há sete anos e 11 meses na área conhecida como Pinheirinho, na periferia da cidade. A prefeitura informa que, em agosto de 2011, cerca de 5.500 pessoas viviam no local. De acordo com a Polícia Militar, “é improcedente a afirmação de que teria ocorrido alguma morte durante as ações”. Toda a ação foi documentada e acompanhada por autoridades do Poder Judiciário, diz a corporação.
Deixem-me ver se entendi o método Nelson Breve de fazer jornalismo com dinheiro público. Um militante da “causa” denuncia a existência de mortos numa operação comandada pela PM, SOB DETERMINAÇÃO JUDICIAL. Em qualquer empresa jornalística decente do mundo, antes que isso seja jogado ao vento, faz-se uma apuração. Afinal, não se trata de uma divergência de opinião, certo? Esse é um procedimento da Agência Brasil? Qualquer denúncia rende reportagem, mesmo sem nenhuma evidência, e basta ouvir os acusados no dia seguinte? É assim, Breve? Venha a público para defender o procedimento!

Por meio de sua assessoria, a prefeitura de São José dos Campos garantiu que, desde o início da operação da PM, na manhã do último domingo (22), nenhuma morte, de criança ou adulto, foi registrada. Segundo o coordenador de Comunicação da prefeitura, Eustáquio de Freitas, declarações de que uma pessoa teria sido morta são “fantasiosas”.
Ah, Nelson Breve!!! Eu vou lhe ensinar como se apura e como se derruba uma reportagem. Isso tudo que seus repórteres fizeram no dia seguinte deveria ter sido feito no dia mesmo em que a denúncia foi feita. E sem publicar uma linha a respeito. Como se constata, não há uma só evidência, nada! Essa matéria é uma delinqüência jornalística derivada da delinqüência original. Diga-me aqui, Breve: seria correto eu publicar aqui no meu blog que há quem diga que você trapaceou na EBC para assumir o lugar da Tereza Cruvinel? Se eu não conseguir provas, no dia seguinte faço outro post dizendo: “Breve nega, e não há evidências de que tenha trapaceado”. Isso é jornalismo? Foi o que você fez.

“O mesmo tipo de boato já vinha sendo divulgado pela internet, por meio de redes sociais. Não houve nenhum caso de morte”, afirmou Freitas, hoje, à Agência Brasil. Freitas se refere às declarações do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São José dos Campos, Aristeu César Pinto Neto. Ontem, Neto disse, em entrevista à TV Brasil (que não chegou a ser veiculada pela emissora), que houve morte na operação de reintegração de posse e que crianças estariam entre as vítimas.
Vejam que método, digamos, transparente de confessar a picaretagem feita no dia anterior, não é? Como se atuasse em sua defesa, o texto informa: “a notícia não chegou a ser veiculada na TV Brasil”. Pô, que gente cuidadosa, não é mesmo? MAS ATENÇÃO PARA O MOMENTO MAIS ESTÚPIDO E BRUTAL NA REPORTAGEM.

Procurada, em um primeiro momento,a prefeitura não quis se manifestar. Mais tarde, no entanto, depois de a Agência Brasil divulgar matéria com a informação de que teria havido morte durante a operação, o prefeito Eduardo Cury fez questão de desmentir as declarações do representante da OAB no município Aristeu César Pinto Neto.
Ah, a culpa é das vítimas, que foram acusadas de praticar homicídios e de ocultar cadáveres. Viram? Quem mandou o prefeito não falar? Sei… Alguém acusa Breve, mesmo sem provas, de usar a EBC e sua posição no PT para beneficiar a própria família. Mesmo sem a prova. Eu o procuro para saber o que ele tem a dizer. Caso não fale, publico o boato e ainda o acuso de não ter querido “dar o outro lado”. Pô, Breve, dá o outro lado aí, ou ponho você na boca do sapo! É um absurdo! É uma prática fascistóide! “Ou o acusado fala ou será o responsável pela difamação que o atinge”.

De acordo com Freitas, o caso mais grave registrado até o momento é o de um homem de cerca de 30 anos, atingido por um tiro no domingo (22) de manhã, durante tumulto que ocorreu no centro de triagem, fora, portanto, do terreno ocupado. O homem foi operado e está internado no Hospital Municipal. A Polícia Civil abriu inquérito para investigar o caso e ainda não se sabe de onde partiu o tiro. Por telefone, uma atendente do Instituto Médico-Legal (IML) de São José dos Campos informou à reportagem, hoje de manhã, que nenhum corpo identificado como sendo de morador do Pinheirinho deu entrada no instituto desde o início dos conflitos.
Certo! Todo o trabalho que deveria ter sido feito no dia e que derrubaria a reportagem foi feito só no dia seguinte, gerando uma nova matéria absurda!

O presidente da OAB local, Júlio Aparecido Costa Rocha, desautorizou o presidente da Comissão de Direitos Humanos a falar sobre o assunto em nome da instituição. “[Até o momento] não foi apresentada à OAB nenhuma informação concreta [a respeito de uma possível morte]. Estamos aguardando dados objetivos para iniciar uma investigação. O doutor Aristeu [Neto] não pode fazer declarações em nome da OAB porque, além de exercer o cargo de presidente da comissão, é também advogado das famílias, o que o coloca em uma posição de duplo interesse.”
Um dia depois de ficar claro que Aristeu não tinha prova de nada e estava comprometido com o movimento, como aqui se evidenciou, a Agência Brasil foi ouvir a OAB. Mas notem como a EBC se preocupa com o outro lado! Aristeu, coitadinho, o que MENTIU SOBRE AS MORTES, é citado acima. Ora, vamos ouvi-lo de novo, a título de outro lado.

Procurado, Aristeu Neto voltou a criticar o que classifica de “violência excessiva” dos policiais militares durante a operação. Ele revelou, contudo, não ter provas concretas que sustentem sua afirmação de que teria havido morte ou que moradores estejam desaparecidos. “As imagens demonstram excessiva violência e, independentemente de ter ocorrido morte ou não, a postura da polícia e do governo [estadual] está incorreta”, disse Neto à Agência Brasil, explicando que sua afirmação anterior foi baseada nas cenas que presenciou durante um conflito no Ginásio Poliesportivo, de onde, segundo o advogado, uma criança teria sido retirada em “estado grave”.
Ah, agora o Aristeu diz não ter “provas concretas”. Grande advogado! Vai ver ele tinha as provas abstratas.

De acordo com o último balanço divulgado pela prefeitura, 925 famílias residentes no Pinheirinho já foram cadastradas por funcionários da prefeitura. Dessas, 250 estão abrigadas em três dos oito espaços preparados pela prefeitura. A PM deteve 30 pessoas por resistência, desordem ou danos ao patrimônio público. Oito pessoas foram presas, sendo três procuradas pela Justiça e as demais acusadas de tráfico de drogas ou outras práticas delituosas. A PM também diz ter apreendido duas armas, uma delas uma espingarda calibre 12, além de três bombas incendiárias, maconha e cocaína. Oito veículos foram incendiados.
*Colaborou: Alice Marcondes//Edição: Graça Adjuto
Pois é… Eu me envergonho um tantinho por Nelson Breve. Não sei o que o petismo fez com a sua moral e a sua ética nos últimos 20 anos, mas ele tinha ao menos discernimento para reconhecer o trabalho porco feito na ida e na volta.

Sim, eu faço jornalismo de opinião ou chamem lá como lhes der na telha os que não gostam de mim. Mas não lido com dinheiro público nem sou financiado pelo estado. Opino muito, às vezes com dureza. Fatos considerados muitas vezes verdadeiras poesias pelas esquerdas são tratados aqui como manifestação do horror e do terror político. MAS A MENTIRA ESTÁ FORA DA JOGADA. Aí não dá! Não houvesse mais nenhuma distinção entre mim e eles (e há um monte!!!), haveria esta, essencial e definitiva: eu só lido com fatos.

A notícia veiculada pela Agência Brasil é uma forma de terrorismo político. Se os repórteres escreveram, se os editores trabalharam o texto e o puseram no ar, isso significa que há uma cultura política que autoriza prática tão nefasta. EU TENHO A ABSOLUTA CERTEZA DE QUE ALGO PARECIDO NÃO ACONTECERIA SE OS ALVOS FOSSEM PETISTAS. Aliás, tenho bem mais do que a certeza: tenho a prova. Cadê o destaque, na Agência Brasil, ao estudante que ficou cego de um olho num confronto com a Polícia do Piauí, governado pelo PSB e pelo PT?

Os goebbels do petismo já podem se dar por satisfeitos. A mentira veiculada na Agência Brasil já ganhou o mundo. É mentira! E daí? Para que o episódio lhes causasse algum constragimento, forçoso seria que a verdade lhes fosse um imperativo moral.

Texto publicado originalmente às 22h36 desta quarta
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