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Representantes da “Mídia Ninja”, que recebe dinheiro público, se negam a condenar a violência e o vandalismo no Roda Viva; pior: eles os justificaram com a mesma lógica que busca explicar o terrorismo

O Roda Viva entrevistou ontem, já me referi ao fato aqui, dois representantes da tal “Mídia Ninja”: Pablo Capilé e Bruno Torturra. As vinculações dessa gente com o PT e outros grupamentos de esquerda já estão bastante claras. Também não e difícil mapear a existência de dinheiro público em sua atividade. Transcrevo um trecho da […]

O Roda Viva entrevistou ontem, já me referi ao fato aqui, dois representantes da tal “Mídia Ninja”: Pablo Capilé e Bruno Torturra. As vinculações dessa gente com o PT e outros grupamentos de esquerda já estão bastante claras. Também não e difícil mapear a existência de dinheiro público em sua atividade. Transcrevo um trecho da entrevista em que Torturra fala sobre os vândalos do Black Bloc, aquela turma mascarada, que se veste de negro, e que vai às manifestações com o propósito de depredar o patrimônio público e o privado. O trecho de que trato está entre os 51min43s e 55min3s. Seguem o vídeo e a transcrição. Retomo em seguida.

A transcrição

Bruno Torturra – A manifestação, ultimamente, tem encarado a Mídia Ninja quase como um serviço de utilidade púbica, tipo assim: “Filma isso, filma isso”. Porque, de fato, protege manifestante. Mas daí é importante dizer que, antes de ser um manifestante, ele é um cidadão, que está sendo atacado de maneira muito violenta pelo estado por estar exercendo seu direito à manifestação. A gente tá protegendo a democracia quando toma lado numa manifestação porque a gente não tá defendendo o argumento do manifestante necessariamente, mas o direito de ele estar lá fazendo o que ele faz.

Mário Sérgio Conti – Mas aí vocês vão se confrontar com o Black Bloc, que vai lá e vai depredar a concessionária…

Suzana Singer – O que vocês acham dos atos de vandalismo?

Bruno Torturra – Olha, eu estive presente em (sic) vários deles, a gente transmitiu ao vivo, a gente foi muito bem recebido pelo próprio Black Bloc, que não achou nada ruim que a gente transmitisse ao vivo tudo o que eles estavam fazendo…

Wilson Moherdaui – Vocês acham isso bom?

Bruno Torturra – Não é uma questão de achar bom ou de achar ruim. A minha motivação, quando estou na rua, não é a mesma do Black Bloc. Eu não me identifico com a destruição de vidraças…

Suzana Singer – Mas você condena esse tipo de ação?

Bruno Torturra – Eu acho que a discussão é um pouco mais complicada do que isso. Para a gente dizer se dá para condenar ou não uma ação do Black Bloc, a gente tem de discutir, antes, a prioridade, inclusive midiática, e o escândalo que a sociedade sente quando um vidro é quebrado, quando o patrimônio de um banco é quebrado, e a gente não tem a mesma reação, e a gente não encara da maneira escandalizada, quando o cidadão é agredido. A gente tem confundido muito. Tem gente achando que é muita violência…

Suzana Singer – Você tem de discutir a cobertura da mídia antes de discutir se e válido ou não [depredar]?

Bruno Torturra – Não, não é a cobertura da mídia; é a própria visão da sociedade em relação ao que o Black Bloc faz. O que a gente tem de entender é que são jovens que sofrem violência há muito tempo. A maioria deles não confia no estado…

Mário Sérgio Conti – Isso é apuração ou suposição sua…

Burno Torturra – Isso é apuração…

Mário Sérgio Conti – Eu não vi entrevista deles falando isso nas coisas que vocês mostraram.

Bruno Torturra – A gente transmitiu ao vivo várias delas. Por exemplo, tem um jargão do Black Bloc que deixa muito claro… Que eles falam, por exemplo, que “vândalo é o estado”. Não é o que eu necessariamente concordo (sic). Mas eu consigo entender de onde esse pensamento vem. Consigo entender que o jovem que apanha da polícia ou que respira gás lacrimogêneo, que é uma substância altamente tóxica…

Suzana Singer – E o que saqueia loja?

Bruno Torturra – O que saqueia loja, eu acho que é uma outra coisa também… Eu acho que o Black Bloc, mais do que ser um movimento, ele é uma estética, ele é uma tática internacional, que tenta quebra símbolos do capital. Eu, particularmente, não me identifico com isso. Eu vou com a minha cara, eu tenho métodos totalmente pacíficos numa manifestação, mas eu… A gente poderia até discutir o valor, se é justo ou se não é justo. Mas eu acho que se dá muito pouco espaço para a gente discutir o que levou o Black Bloc a fazer isso. E, a partir disso, a gente consegue dizer se é justo ou não. Eu, particularmente, não me identifico com quebrar banco.

Comento
Se vocês assistirem à entrevista, verão que Torturra é, vamos dizer, o lado suave do Mídia Ninja, o que dialoga, o diplomático. O tal Capilé já se apresenta como uma espécie de guardião dos valores ideológicos. É o homem da cara amarrada, que não sorri para a “mídia burguesa” ou tradicional, que, não obstante, o trata com mimos e delicadezas. Torturra, à diferença de seu parceiro, evita enfiar o dedo na cara da imprensa. Sim, o que vai acima, meus caros, é a fala do… moderado!

Notem que, em nenhum momento, ele censura a violência. O máximo que consegue é dizer que essa não é a sua prática. Não é idiota. Sabe que, se confessasse a participação em atos de vandalismo ou mesmo se os defendesse, estaria incorrendo num crime. As palavras, no entanto, fazem sentido. É evidente que o senhor Torturra, embora negue, está justificando a violência dos black blocs, que estariam, segundo a sua consideração, apenas reagindo a uma violência maior, que ele chama de “vandalismo do estado”. Num texto que escrevi ontem, notei ser essa também a justificativa de um acadêmico.

Queiram ou não os tais “ninjas”, o fato é que eles acabam se apresentando como porta-vozes dos vândalos — quando menos, transformam-se em sua agência de notícias, não é? Como ele confessa, são sempre muito bem recebidos pelos bandidos, que, ora vejam, não se importam com o fato se os ninjas documentarem as suas ações. E por que se importariam? Estão mascarados, não serão reconhecidos e ainda têm divulgado o seu, por assim dizer, ideário.

A lógica a que recorre Torturra é a mesma que justifica as ações terroristas. Quando palestinos explodem crianças em ônibus em Israel ou quando o Hamas joga mísseis contra o país, a explicação está na ponta da língua: estamos respondendo à violência. O mesmo fazem os partidários da Al Qaeda, não é? Os atentados do 11 de Setembro de 2001 tinham uma suposta motivação justa: tratava-se de uma resposta à política americana para a Oriente Médio.

Autoritarismo
Torturra diz estar protegendo a democracia. Errado! Ou ele não sabe o que é isso. Que fique claro: ele não é obrigado a ser um democrata. Mas é escandaloso que chame a sua ação de proteção ao regime democrático. Ao contrário: o que ele deseja mesmo é uma ditadura da minoria que seria dotada de uma suposta superioridade moral para impor a sua vontade. Leiam ali o que diz: ele tem noção de que a “sociedade” rejeita o vandalismo. Ocorre que ele considera que essa sociedade está errada porque ignoraria as agressões ao corpo dos manifestantes. Huuummm… Vocês já viram manifestação realmente pacífica ser reprimida? Mais: as ações dos black blocs dependem, por acaso, do comportamento da Polícia Militar? Ainda que ela não reprima ninguém, como vem acontecendo Brasil afora, eles deixarão de praticar depredação?

Torturra vem com essa conversa mole de que o Black Bloc é formado por jovens que sofreram violência. Faço a ele o mesmo desafio que já fiz ao tal acadêmico: prove! Ele não vai porque se trata de uma mentira grotesca. Os pobres estão trabalhando, não depredando bancos. A gente até pode achar que isso é um absurdo, mas não muda o fato.

Chamar o que essa gente faz de jornalismo é uma estupidez. Mas a “mídia tradicional”, que eles desprezam, lhes é reverente. Capilé acusou ontem a Folha de ser parcial, de fazer mau jornalismo. O jornal, nesta terça, publica um texto sobre a entrevista que beira o puxa-saquismo. Preferiu dar destaque, contra todas as evidências, à negativa da dupla de que tenha vinculações partidárias. Ignora, por exemplo, a clara e óbvia justificação da violência. Com se vê, no momento em que Torturra se nega a condenar o vandalismo, quem participa do diálogo é Suzana Singer, ombudsman do jornal.

Mas a coisa pode ser pior. Um dos entrevistadores do Roda Viva flertou abertamente com a justificação da violência. Fica para a próximo post.

Começo a encerrar este aqui afirmando que essa gente só não é perigosa — ou, vá lá, mais perigosa — porque, à diferença do que afirma o texto da Folha sobre a entrevista, é mentira que o Mídia Ninja seja “uma febre”. Febre, deixem-me ver, talvez seja o portal “Porta dos Fundos”, a Anita, o Félix… O Mídia Ninja está em debate é na imprensa e nos setores mais engajados do leitorado, incluindo os leitores deste blog. O grande público não tem a menor noção de quem é essa gente. Se tivesse, certamente o condenaria severamente.

Se, no entanto, essas concepções delinquentes de democracia ganhassem realmente corpo, aí a coisa seria perigosa. Esses caras odeiam o regime de liberdades públicas em que vivemos. Querem outra coisa. Torturra e Capilé nunca leram um só teórico do regime democrático — se leram, não concordaram. Torturra e Capilé não têm a menor noção do que é estado de direito. Mas sabem, sim, estou absolutamente certo disto, o que pensa, por exemplo, o teórico neocomunista Slavoj Zizeck, um defensor escancarado das ações terroristas.

O que lamento, já disse aqui, é que essa irrelevância delinquente esteja, de algum modo, contaminando o que esses caras chamam de “mídia tradicional”, que se acovarda diante de formulações boçais como as que se leem acima e, infelizmente, se deixa contaminar por sua estética e até por sua (a)ética.

Esses dois só podem sair por aí a dizer essas barbaridades porque sabem que o regime que eles afrontam com sua apologia da delinquência lhes assegura, ora vejam, até mesmo o direito de atentar contra os fundamentos dessa mesma ordem. Imaginem, agora, o mundo organizado segundo os valores do sr. Torturra e do sr. Capilé. Quanto tempo demoraria para que uma guerra de facções resultasse em cabeças cortadas?

De resto, ou esses “alternativos” renunciam a qualquer financiamento público ou, como diria Millôr, seguirão tão independentes quanto um táxi.

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