Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Quando uma capa de jornal expõe o espírito fascistoide dos supostamente bem-pensantes

Capa do jornal “Extra”, sobre a eleição no Rio, combina vários equívocos;  e todos eles estão contra o povo

A reação das esquerdas cariocas, de Marcelo Freixo (o psolista derrotado) em particular, e de setores consideráveis da imprensa à vitória de Marcelo Crivella (PRB) para a Prefeitura do Rio é das coisas mais vergonhosas que vi em muitos anos. Raramente a gente pode identificar preconceitos tão diversos juntos, amarrados, compondo um eixo de valores. Raramente, em suma, os fascistas que se querem do bem foram tão explícitos.

Dito de outro modo: os esquerdistas endinheirados da Zona Sul estão revoltados com o povo das zonas Norte e Oeste. O melhor desempenho do socialista branco, de olhos azuis (é um “critério Lula” de análise política), se deu em Cosme Velho e Laranjeiras: 67,09% dos votos válidos. Crivella, o candidato que, segundo as esquerdas, seria contra os pobres, triunfou pra valer em Cosmos, Paciência e Santa Cruz: 77,82% dos votos válidos. Acabou a paciência dos ricos distributivistas com os pretos de tão pobres e pobres de tão pretos. Eles não sabem votar!

Um emblema do inconformismo com o resultado das urnas foi a capa do jornal “Extra” desta segunda, uma das manifestações mais agudas de mau jornalismo em muitos anos. Ali estava o retrato do inconformismo com o povo, da leitura xucra da política, do fel antipopular transformado em gracinha supostamente criativa, do trocadilho infeliz alçado à condição de análise política. Vejam.

Jornal extra

O que se tem aí? Em letras garrafais, lê-se: “O RIO É UNIVERSAL”. É evidente que se faz uma alusão direta à denominação pentecostal à qual pertence o prefeito eleito. Ao mesmo tempo, tenta-se emprestar a essa palavra o sentido denotativo: universal é aquilo que diz respeito a todos; é o contrário do particular, do isolado. Nota à margem para quem não sabe: universal, em grego, é “katholikós”. Daí deriva a “Igreja Católica”, aquela que seria de todos, não apenas de um povo eleito. Sigamos com a capa do Extra.

Abaixo do título principal, vêm, então, os grupos que comporiam a universalidade do Rio, que seria o oposto da Igreja Universal: “É dos gays, do Carnaval, das mulheres, da diversidade, da umbanda, dos negros, do Cristo, da tolerância”. Na sequência, em letras maiúsculas: “AGORA É CONTIGO, CRIVELLA”.

É evidente que uma capa como essa não será analisada pelos professores de esquerda das faculdades de jornalismo. Trata-se de uma das maiores imposturas de todos os tempos. Analisemos as suas implicações:
1: é evidente que se está a sugerir que o Rio dos “gays, do Carnaval, das mulheres, dos negros etc.” não votou em Crivella, mas em Freixo. Ocorre que o mapa eleitoral evidencia justamente o contrário;

2: o Rio que votou em Freixo é, ele sim, o menos universal de todos: é majoritariamente branco, endinheirado e de esquerda;

3: se gays, admiradores do Carnaval e do Cristo, mulheres e negros tivessem votado em Freixo, o prefeito eleito do Rio seria… Freixo!;

4: noto uma sutileza eloquente na capa, referendada pela imagem: o “Extra” diz que o Rio é “da umbanda”, mas não diz que a cidade é “do cristianismo”, e sim “do Cristo”, referindo-se à estátua;

5: na diversidade imaginada pelo formulador da capa, cabe a umbanda, mas não o cristianismo, embora, como se sabe, os católicos, protestantes tradicionais e evangélicos componham a esmagadora maioria da população do Rio e de qualquer cidade;

6: a capa infere o óbvio: ser “Universal” (da igreja) corresponderia a ser um antiuniversalista — e essa universalidade estaria representada pelo candidato do PSOL, com o seu ódio ao modelo que permite a diversidade humana: o capitalismo.

7: o editor do “Extra” foi modesto no apoio de Freixo à universalidade. Deveria ter dito que o Rio é também dos black blocs, não? Afinal, foram eles que infernizaram por meses a vida dos cariocas, sem que Freixo jamais tenha se prontificado a censurar a desordem que promovem.

Para encerrar
O “Extra” pertence ao grupo Globo. Crivella é sobrinho de Edir Macedo, chefão da Universal e dono da Record. Nesse caso, o exercício de preconceito e mau jornalismo só serve para alimentar a suspeita, que me parece falsa, de que estamos apenas diante de uma briga de dois grupos de comunicação. O menor se meteria em política para tentar agredir o maior; e o maior reagiria em nome da diversidade, mas com o propósito de também responder a uma questão originalmente comercial.

É tudo ruim, não é mesmo? No fim das contas, estamos falando é de desrespeito à vontade do eleitor. A maioria quis um Marcelo, não o outro.

Suponho que tal maioria também faça parte da universalidade do Rio, não? Ou universal, na concepção do pessoal que imaginou aquela capa infeliz, exclui os vencedores?

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    A desambiguação do RioII(Rioexit- uma caricatura literária,nada mais).

    No domingo 30 de outubro escrevi o seguinte texto antes do início da apuração no RIO,na segunda,31…a capa do extra.
    “Rioexit: “o retorno está garantido”(não havia saída).
    Pouco importando o resultado do pleito no Rio,algumas certezas já estão dadas:
    a) Sob as bênçãos de júpiter,”um Marcelo” será “o guerreiro”à frente da prefeitura, nos próximos quatro anos.Que maldição!
    b) O Rio de Janeiro sairá do estado atual. Nesse caso,”sair”nunca significou tanto…”retornar”.Por duas nem tão simples,muito menos boas, razões.
    Por um lado,o fantasma da “maldita trindade Garotinho”,isto é,pai,mãe e filho(a).Valei-me Deus!
    Por outro,a volta do protagonismo(pouco importando o “bico, o “programa” seria de mau gosto e muita sacanagem”) de um ex BBB. Santo Deus!
    As duas saídas são tremendamente ruins.Ruins por que “extremas”:a primeira propõe um Rio “não laico” e a outra,um Rio “monoteísta” onde o único deus a ser servido seria o mais autoritário dos pseudo-deuses baianos.”Com mil demônios”!
    Tudo indica que,caso estejam certas as pesquisas, o Rio estará num “Estado Universal” com muito banho de descarrego e fogueira santa!Deus me livre!
    No entanto, os Fluminenses não tínhamos mesmo saída: o menu era muito ruim e duvidoso.Alguns amigos me achavam dividido:sangue baiano e nome ligado à Igreja.Pensei reclamar…comigo mesmo.Quanta heresia…Santo Deus!
    Que o futuro chegue rápido e o povo do Rio,com ajuda de Sebastião e Jorge, possa,“ daqui quatro anos, encontrar a verdadeira saída, com fé em Deus!
    Amém!

    Curtir

  2. Comentado por:

    João Santana

    Como sempre: uma análise excelente. Cabe apenas dizer uma coisa: a Igreja Universal do Reino de Deus é Neopentecostal, que difere do Pentecostalismo em vários aspectos de doutrina, principalmente naqueles que dizem respeito à Mordomia Cristã: para o neopentecostal como o iurdista, a Mordomia Cristã não está limitada ao uso consciencioso dos dons e talentos dados pelo Senhor a seus servos para a ampliação de seu Reino sobre a terra, mas a apropriação de tais dons e talentos para o fim único de prosperidade econômica do servo, visto que ‘do Senhor é a terra e sua plenitude’ (Salmo 24).

    Curtir

  3. Comentado por:

    Heloisa Helena Guimaraes Silveira

    Nao sou de esquerda ou direita. Nao tenho partido. Acho que a governança deve ser feita com o que a população clama. Clareza na ordem de despesas. Escolas, Segurança, Saude. Mão da para espera mais. Essa gastança que houve no Rio, Nao deverá o povo agora ter que pagar via impostos. Todos os políticos deveriam abrir mao de suas regalias para o aperto do cinto. Todos . Nao so o povo . Com esse pacotão formulado para a populaçao.

    Curtir