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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Não desisti da verdade: fatos e números sobre o Rio. Ou: Querem matar o sentido das palavras, mas sou teimoso!

No tempo em que o sentido das palavras já dava sinais de fraqueza, escrevi muitos textos neste blog (e antes, ao longo de anos) defendendo que as Forças Armadas ajudassem a recuperar o território tomado pelo narcotráfico. Há três dias, escrevi um artigo aqui com links para aqueles posts antigos (Violência no Rio: dois a […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 13h30 - Publicado em 28 nov 2010, 08h47

No tempo em que o sentido das palavras já dava sinais de fraqueza, escrevi muitos textos neste blog (e antes, ao longo de anos) defendendo que as Forças Armadas ajudassem a recuperar o território tomado pelo narcotráfico. Há três dias, escrevi um artigo aqui com links para aqueles posts antigos (Violência no Rio: dois a zero para o óbvio). Minha argumentação era simples: a intervenção está prevista no Artigo 142 da Constituição, explicitada depois pela Lei Complementar 97. Por alguma razão, muitos dos que agora aplaudem a ação das Forças Armadas achavam, então, que aquelas eram idéias autoritárias, coisa, como eles gostam de dizer sobre seus inimigos, de “fascistas”. Hoje, quando o sentido das palavras agoniza, leio alguns bobalhões me acusando, imaginem só!, de ser contra a ação das Forças Armadas ou o cerco ao Morro do Alemão! Eu? Indiquem-me um só texto em que isso tenha sido, ainda que lateral ou obliquamente, sugerido. Não existem! Até porque não sou. Sou contra a mistificação e os mistificadores.

E também não sou contra as Unidades da Polícia Pacificadora (UPPs). Desde que elas sejam isso mesmo, não uma acomodação das forças de segurança ao narcotráfico, numa espécie de regulamentação branca da atividade, desde que obedecido certo decoro. E, infelizmente, isso está em curso. Qualquer pessoa razoável sabe que é assim — já volto a esse particular para responder à indagação: “Então a UPP é um mal?”. Respondo com um enigmático “depende”. A explicação mais detalhada vem daqui a pouco.

Não! Não vão conseguir me atribuir o que não escrevi nem me tirar o que já escrevi, que está em arquivo e reproduzido em milhares de páginas por aí. Eu sou efetivamente favorável a um plano organizado, pensado, planejado no detalhe, de recuperação dos territórios brasileiros perdidos para o narcotráfico — sempre considerando, como já fiz outras vezes, que a cocaína e as armas dos morros não foram produzidas no Brasil; passaram por nossas fronteiras, e vigiá-las é responsabilidade do governo Federal. Antes de alguns bobalhões se entusiasmarem com os soldados, eu já entedia que as áreas tomadas pelo narcotráfico de várias cidades do Brasil são uma questão, sim, que dizem respeito à segurança do país. É um “presente” que nos dão os consumidores de drogas ilícitas! É inaceitável que o narcotráfico ou as milícias imponham a sua própria “Constituição” a milhares, provavelmente milhões, de brasileiros. Não tentem os subitamente convertidos me convencer daquilo de que eu tentava convencê-los! Qual é???  Plano de recuperação do território e de asfixia do narcotráfico, no entanto, não se confunde com: “Ih, deu merda! Chamem as Forças Armadas!”

A minha pinima com o midiático Sérgio Cabral é outra. As UPPs vêm sendo implantadas há dois anos. Estima-se em 200 mil o número de moradores sob a influência dessas unidades. A Polícia foi avançando sem prender ninguém. Em dezembro de 2009, são dados oficiais, a população carcerária no país era de 474.626 pessoas. Do total, 34.6% estavam em São Paulo (399,79 por 100 mil habitantes), que tem apenas 22% da população. O Rio —  apenas 166,56 por 100 mil — vinha em quinto, com menos presos do que Minas, Paraná e Rio Grande do Sul. Querem um número que se casa bem com esse? Segundo o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, em 2009, a taxa de homicídios esclarecidos no Rio foi de, ATENÇÃO!, 2,8%!!! A média nacional, que já é escandalosa, é de 25%. Em São Paulo e no Rio Grande do Sul, por exemplo, chega a 60%.

E, agora, o dado não é de ninguém, mas uma conclusão de um ser lógico: quem prende pouco acaba resolvendo pouco, não é mesmo? Bandidagem solta e impunidade se alimentam. Mais uns numerozinhos? Pois não! No ano passado, a taxa de homicídios dolosos em São Paulo foi de 10,95 por 100 mil habitantes — hoje está em 9, a mais baixa do Brasil; no Rio, chegou a 34,36 — e olhem que é difícil saber quantos morrem onde a polícia não entra. Mas atenção! Está longe de ser a maior.

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Muito bem: dada essa realidade, a política de segurança pública do Rio — aplaudida em jornalismo, prosa e verso —, era qual? Ora, instalar as UPPs, orgulhar-se de não enfrentar resistência, não prender ninguém, não apreender droga e acomodar o narcotráfico, numa espécie de legalização oficiosa da prática, desde, é claro, que seu comportamento seja mais discreto e que não tente impor às “comunidades” a sua própria lei.

Nem vem que não tem!
Acho positivo que as Forças Armadas tenham entrado para auxiliar a Polícia — escrevo a favor dessa colaboração há pelo menos 15 anos! Mais: todos aqueles bandidos que se acoitaram no Complexo do Alemão têm de ser presos. Não só isso: o arsenal tem de ser apreendido. Se as armas não aparecerem às centenas, será um péssimo sinal. Mas atenção! Como se diz por aí, “nem vem que não tem!” Não chamarei as escolhas de agora de Sérgio Cabral e José Mariano Beltrame de continuidade ou desdobramento da política que vinha sendo executada. Uma ova! O cerco que se arma no Rio, curiosamente, foi uma escolha estúpida (do ponto de vista deles) dos próprios traficantes. E, como já apontei aqui há quase dois meses, se as comunidades eram libertadas sem prisões, um dos riscos possíveis, então, era o Rio exportar bandidos.

População
Compreendo o ânimo de boa parte da população do Rio. Tem mais é de aplaudir mesmo a polícia e as Forças Armadas. É gente que já cansou de viver sitiada; que não agüenta mais tiroteios, arrastões, violência; que não compreende por que o estado brasileiro permite que áreas do território nacional sejam dominadas por marginais. Vislumbra a possibilidade de se livrar de um jugo.

Ora, esse sempre foi o sentimento dominante! Quem estava acomodado era o poder público. A maioria dos cariocas e dos brasileiros sempre achou que lugar de bandido é mesmo na cadeia. Não aplaudiu à toa o primeiro Capitão Nascimento, o que socava bandido. Não aplaudiu à toa o segundo Capitão Nascimento, o que soca político corrupto. Mas a vida não é filme, e o roteiro da realidade é um pouco mais complexo. Vamos ver quantos serão os bandidos presos e como vai se estruturar a libertação das outras áreas do Rio dominadas, sim, pelo narcotráfico e pelas milícias.

As palavras fazem sentido, ainda que agonizem. Eu sempre defendi o enfrentamento. O que eu criticava era a “liberação de território” sem “prisioneiros”. Eu torço para que Cabral transforme o seu fracasso de antes num sucesso. Se acontecer, beneficiada será a população do Rio. Mas continuarei a chamar as coisas pelo nome que elas têm. Como sempre fiz — desde que defendia quase isolado, tadinho de mim!!!, que as Forças Armadas fizessem valer o Artigo 142 da Constituição. Aplaudo as medidas de agora (e por enquanto), não o governante que transformou em ação de emergência o que deveria ser  fruto da escolha política correta e do planejamento: enfrentar o crime e prender os criminosos, submetendo-os ao devido processo legal.

Sem isso, a polícia não pacifica, mas mistifica.

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