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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Mundo árabe: sou velho demais para acreditar em movimentos espontâneos

Há coisas nas quais, aos 49 anos, estou velho demais pra acreditar — e, para ser franco, não acreditava nem quando jovem, mas por motivos diferentes: eu era de esquerda… Bem, eu não acredito em “movimentos espontâneos das massas”. Não que o povo não tenha, especialmente os pobres, em qualquer país, motivos para protestar. Sempre […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 21 fev 2017, 07h26 - Publicado em 29 jan 2011, 11h05

Há coisas nas quais, aos 49 anos, estou velho demais pra acreditar — e, para ser franco, não acreditava nem quando jovem, mas por motivos diferentes: eu era de esquerda… Bem, eu não acredito em “movimentos espontâneos das massas”. Não que o povo não tenha, especialmente os pobres, em qualquer país, motivos para protestar. Sempre tem. Mas as pessoas não saem por aí se cutucando e se esbarrando: “Vamos tomar um chá e depois derrubar o governo?”. As redes sociais da Internet podem até ajudar, mas atribuir a elas a base material do suposto “espontaneísmo” dos protestos nos países árabes me parece besteira.

Há um raciocínio um tanto curioso: a prova da não-organização estaria no fato de os movimentos ocorrem em vários países e ao mesmo tempo. Bem, cá com os meus botões, digo que isso está mais para a existência de um centro irradiador do que o contrário. Seria muito bom que uma aurora democrática se desse no mundo árabe, mas também estou maduro o suficiente para constatar que a democracia exige certas circunstâncias que não estão dadas em nenhum desses países.

Em todos eles, a existência do radicalismo religioso é uma verdade inquestionável. No Egito, por enquanto, ele não aparece, embora a Irmandade Muçulmana tenha passado a apoiar oficialmente o movimento. Seria muito bom ver, por exemplo, palestinos de Gaza protestando contra a violência do Hamas. Mas não veremos. Ou os da Cisjordânia insatisfeitos com os evidência de corrupção do Fatah, de Mahmoud Abbas. Nada também.

Todo apoio à democracia, sim! Mas ela não cai do céu nem existe como movimento natural. Essa e uma ilusão que nos alimenta e consola, mas é o que é: ilusão. À parte o governo e as Forças Armadas, o grupo organizado do Egito é a Irmandade Muçulmana. Democracia é uma construção consciente, uma opção, uma escolha. Eu diria até que ela está na mão oposta do “espontaneísmo”. Deixados por nós mesmos, espontaneamente, somos feras.

Vamos ver. O radicalismo islâmico não nasce, ao contrário do que parece, do repúdio dos sectários ao mundo ocidental. Ao contrário até: ele é produto de uma admiração mascarada pelo ódio àquilo que não se compreende direito. Se os povos árabes experimentarem a liberdade, vão gostar dela, como todo homem. Tudo vai depender da força dos radicais no momento em que ditaduras que os mantêm sob controle estão fragilizadas.

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No melhor dos mundos, os democratas vencem as ditaduras e isolam os radicais. É uma possibilidade generosa, mas também uma aposta arriscada.

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