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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Marta manda Haddad gastar sola de sapato. E eu mando os analistas políticos gastarem um pouco de vergonha e senso de ridículo. Ou: Marta dá um pito na imprensa petista!

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) mandou Fernando Haddad, pré-candidato petista à Prefeitura de São Paulo, “gastar sola de sapato, conhecer os problemas da cidade e ganhar a militância”. Perdeu a paciência com a pressão que vem sofrendo para que entre na campanha. Haddad deve ficar um tantinho envergonhado. Mais do que ele, quem deveria estar corada é […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 09h13 - Publicado em 29 mar 2012, 08h21

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) mandou Fernando Haddad, pré-candidato petista à Prefeitura de São Paulo, “gastar sola de sapato, conhecer os problemas da cidade e ganhar a militância”. Perdeu a paciência com a pressão que vem sofrendo para que entre na campanha. Haddad deve ficar um tantinho envergonhado. Mais do que ele, quem deveria estar corada é boa parte da imprensa paulistana. Por quê? Então vamos ver.

Minhas caras, meus caros,

No texto abaixo, tratarei, aparentemente, das pré-candidaturas de Haddaad e do tucano José Serra. Na essência, o meu tema é outro. O que me interessa é demonstrar como a imprensa pode cair vítima — na hipótese virtuosa (!) — ou ser esbirro, na hipótese viciosa, dos interesses de um partido político. No primeiro caso, misturam-se doses de ingenuidade e de fiel militância. No segundo, estamos falando da infiltração de funcionários “do partido” nas redações — ainda que na forma de “especialistas”, que emprestam a seu trabalho de lobby o ar de ciência.

No primeiro caso, refiro-me àquele esquerdismo preguiçoso a que aderiu boa parte dos jornalistas ainda na faculdade. Quase nunca foi o excesso de leitura que os levou a fazer aquela escolha, mas a falta. Um profissional de imprensa que tem a coragem de repetir, por exemplo, que 200 mil mulheres morrem por ano no Brasil vítimas de aborto não consultou o IBGE para saber o total de mortes por ano no país, não buscou os dados do Ministério da Saúde e não sabe o mínimo de aritmética e lógica. Mas certamente tem um bom coração… A ignorância judiciosa e caridosa, muito típica de certo onguismo, produz o obscurantismo do bem e é um dos males destes dias.  No segundo caso, refiro-me mesmo a vigaristas, muitos deles disfarçados de professores.

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Então vamos ao caso em particular. Os dois maiores partidos de São Paulo já escolheram seus pré-candidatos à Prefeitura. O do PSDB é José Serra, e o do PT, Fernando Haddad. Os petistas saíram na frente. A senadora Marta Suplicy era a franca favorita no partido. Ainda que houvesse outros postulantes e que se falasse em prévias, é bem possível que nem acontecessem tal a vantagem que ela tinha. Mas havia um Luiz Inácio Lula da Silva no meio do caminho. Como a rejeição a Marta girava em torno de 30%, talvez um pouco mais — e eu entendo que esse é o percentual de eleitores que não vota no PT nem debaixo de chicote — e como certas alas do partido temem o que consideram seu lado “antipático e esquentado”, o coronel Lula bateu o martelo: queria Haddad! Mais: ela vinha de duas derrotas na disputa pelo cargo: para Serra (2004) e para Gilberto Kassab (2008). Nota: Lula perdeu a eleição para o governo de São Paulo em 1982 e para a Presidência em 1989, 1994 e 1998.

Quando o PT passou a ser uma fonte anti-Marta
Prévias? Não! O Apedeuta se encarregou de enterrá-las e decidiu que o nome sairia do “entendimento”. Marta passou por um processo de esmagamento dentro e fora do partido. Aos poucos, seus fiéis aliados — ou que ela imaginava fiéis — foram sendo cooptados. Ela pode, até por vaidade, negar o fato, mas sabe que foi miseravelmente traída. Pior do que isso: os petistas ligados a Lula e à pré-candidatura de Haddad passaram a alimentar colunas de fofocas, que iam dando conta de que sua postulação estava indo para o brejo. O próprio Haddad resolveu lhe bater a carteira política: plantou por aí que foi ele um dos responsáveis pela criação dos CEUs, uma das bandeiras da ex-prefeita.

Lula deixava claro, enfim, que não aceitava ser desafiado e que pouco lhe importava o que queria a militância petista — isso num partido que, para todos os efeitos (e é, de fato, mentira!) se orgulha de dar voz às bases, à militância. Se Marta insistisse em levar adiante a sua pretensão, sob pena de criar uma crise, seria esmagada de forma ainda mais vexaminosa. Numa eventual prévia, corria o risco de sair sem nada. Lula lhe tomou os vereadores, os deputados estaduais, os líderes regionais do partido, tudo… Quando desistiu, Marta só tinha uma boa fatia do eleitorado, mas as lideranças partidárias tinham desertado.

Como isso foi tratado na imprensa?
Como esse processo foi tratado na imprensa? Por incrível que pareça, falou-se em “renovação”. Especialistas em vigarice intelectual foram convocados para reafirmar a genialidade de Lula, que decidiu virar a mesa em São Paulo, buscando uma cara nova, mais alinhada com a classe média paulistana, boa parte dela ainda refratária ao PT. Haddad seria inteligente, articulado, bom moço, até — pasmem! — bom ministro! Lula estaria enxergando, como sempre, com mais aguda vista do que qualquer ser humano da Terra a natureza da disputa. E olhem que Serra ainda não estava na parada — só Marta, a bem da verdade, afirmava que seria ele o candidato.

O mal do aparelhamento e do lobby
Vejam o mal que o aparelhamento das redações e a influência do lobby disfarçado de ciência social fazem ao jornalismo! O que foi um processo notavelmente autoritário, cesarista, a evidenciar que o PT tem não exatamente um líder, mas um dono, foi lido como RENOVAÇÃO! Este escriba indagava à época, como sabem: “Mas o que há de novo em dar murro na mesa e mostrar quem manda?” Ninguém sabia dizer.

Ontem, no Twitter, diante da gigantesca pressão para que vá a campo em favor de Haddad, Marta se irritou e disparou: “Não se turbina uma candidatura com desespero, pressões e constrangimento”. Não ficou nisso: “A tese de que qualquer candidato do PT tem assgurados 30% do eleitorado não é totalmente verdadeira”. Eu até acho que é. Ocorre que Haddad não é qualquer candidato… Ainda não tinha dito tudo. Ao Estadão, acrescentou a ex-prefeita: “Haddad tem de gastar sola de sapato. Além disso, as alianças farão diferença. O restante é conhecer os problemas da cidade e conquistar a militância. Ninguém pode substituir nem fazer isso pelo candidato”. Ou dito de outra maneira:
– Haddad é incapaz de se mover sozinho;
– Haddad não consegue costurar alianças;
– Haddad não conhece os problemas da cidade;
– Haddad não conquistou a militância.

Mas, segundo aqueles “políticólogos”, ele significa uma brutal “renovação”. Nem esses analistas nem a imprensa haviam se dado conta de que, de fato, havia uma crise. Ela poder ser contornada? Sim. Acho, inclusive, que Marta acabará entrando na campanha, depois de devidamente paparicada. Estou chamando a atenção para o fato de que as falas da senadora expõem o autoritarismo de Lula. Trata o PT como o seu quintal e os petistas como seus servos. Não se esqueçam de que o “renovador” Lula mandou intervir no diretório do PT do Maranhão para assegurar o apoio do partido à moderníssima… Roseana Sarney!

Agora o PSDB
Quando Serra decidiu entrar na corrida pela Prefeitura, deu-se, então, um fato fabuloso. Os mesmos — os mesmíssimos! — analistas que apontaram a “renovação” do PT acusaram o PSDB (e isso rendeu matérias em penca) de não se renovar. Atenção! Um dos mais importantes líderes da história do partido mostrava-se disposto a disputar prévias, submetendo-se ao crivo da militância. Ah, não! Isso pareceu aos setores da imprensa aos quais me refiro e àquela, como direi?, “carteira de analistas” insuportavelmente velho! Se o governador Geraldo Alckmin tivesse imitado o comportamento de Lula, é bem provável que Serra tivesse se sagrado candidato sem prévias. Mas não há espaço para isso no PSDB.

Muito bem! O resultado das prévias — Serra obteve 52,1% dos votos — evidencia que se assistiu a uma disputa de fato, não a uma mera pantomima. Se alguma novidade, nos procedimentos, houve nesta eleição até agora, covenham, ela atende pelo nome de “prévias do PSDB”. As outras pré-candidaturas não poderiam seguir molde mais tradicional. Mas quê…  Conhecidos os resultados da disputa tucana, começou o desdém: “Só 52,1%? Deveria ser muito mais! Os serristas esperavam mais!” O fato é que a militância preguiçosamente esquerdista e os analistas “livres como um táxi” — para citar o grande Millôr Fernandes — têm reservada para Serra apenas a agenda negativa. Vocês sabem que falo a verdade: fosse ele a propor o fim da cobrança da inspeção veicular, como fez Haddad, seria acusado de privilegiar os donos de carros — o que seria verdade, diga-se. Fosse ele a propor o fim da inspeção propriamente dita, como fez Gabriel Chalita (a medida seria ilegal!), a turma do meio ambiente iria chiar — e por bons motivos. Mas quê… A dupla vira notícia, em tom de exultação, até quando anuncia o pacto no segundo turno caso um dos dois chegue lá.

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Caminhando para o encerramento
Eu lhes disse que as pré-candidaturas de Serra e Haddad seriam o tema apenas aparente deste texto. E são mesmo! Este é um artigo sobre imprensa e jornalismo. Vai se mostrando a cada dia mais difícil encontrar uma análise ou mesmo o (suposto) registro de um fato que não tenham uma deformação já na sua origem, que não estejam contaminados pela lógica partidária — no caso, petista.

A forma como o autoritarismo de Lula e do PT foi chamado de renovação e a efetiva renovação de procedimento do PSDB foi tachada de repetição evidencia um juízo perturbado pela ideologia e pelo partidarismo – na melhor das hipóteses; na pior, trata-se apenas do trabalho bem-sucedido de vigaristas disfarçados de cientistas políticos isentos.

Marta, uma petista graúda, disse aos “companheiros” das redações: “Pô, trabalhem um pouco melhor e sejam mais fiéis aos fatos!”

É um bom conselho.

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