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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Kassab reage e diz que “descalabro” é o primeiro ano da gestão Haddad. Ou: História do PT se constrói sobre escombros da reputação alheia

A ficha de Gilberto Kassab (PSD), ex-prefeito de São Paulo, caiu. Percebeu que Fernando Haddad o transformou na Geni da cidade e que o prefeito mobiliza a máquina, inclusive a de investigação, para lançar a versão local da “herança maldita”. Em entrevista a Rogério Pagnan e Jairo Marques, na Folha desta segunda, o presidente do PSD […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 05h01 - Publicado em 11 nov 2013, 03h03

A ficha de Gilberto Kassab (PSD), ex-prefeito de São Paulo, caiu. Percebeu que Fernando Haddad o transformou na Geni da cidade e que o prefeito mobiliza a máquina, inclusive a de investigação, para lançar a versão local da “herança maldita”. Em entrevista a Rogério Pagnan e Jairo Marques, na Folha desta segunda, o presidente do PSD responde às acusações feitas por Haddad e diz que descalabro mesmo é o primeiro ano de gestão do prefeito petista. Seguem alguns trechos. Volto em seguida.

Folha – Como sr. interpretou a afirmação de Haddad de que a situação encontrada na prefeitura era de “descalabro”?
Gilberto Kassab – Na medida em que ele utilizou o termo descalabro, sou obrigado a devolver na mesma moeda. É difícil aceitar essa referência sobre o final da nossa gestão. Se aceitássemos, o final da gestão anterior, que era dele [Haddad participou da administração Marta Suplicy (2001-2004)], estaria duas vezes esse descalabro. Todos sabem como encontramos a cidade. Ela estava quebrada. E, apesar das dificuldades financeiras e da dificuldade para encaminhar nossas reivindicações ao governo federal sobre o problema da dívida, terminamos com finanças em dia, [com] recursos em caixa. Fizemos uma transição impecável, segundo o próprio prefeito em sua posse. Ele só esqueceu de olhar para o próprio umbigo, para sua administração, quando a cidade está espantada com o descalabro desse primeiro ano. Há uma verdadeira situação de falta de controle no transporte público. A prefeitura, pela primeira vez, entra o ano com uma perspectiva de dar um subsídio de aproximadamente R$ 2 bilhões. Se ele tivesse competência, tinha conseguido administrar essa questão com o governo federal para não tirar esses recursos no ano que vem destinados a casas populares, saúde, ensino público. Vale lembrar que pela primeira vez na cidade corremos o risco de entrar num novo ano sem reajuste de IPTU, um reajuste razoável.

O reajuste aprovado é justo?
Não acho razoável. A Justiça acaba de tornar nula essa votação. Foi estranha mesmo. A administração negou à cidade o direito de debater. Foi antecipada a votação na calada da noite. Vale lembrar, ainda no campo do descalabro, como encontramos a saúde, com programas reduzidos, unidades sucateadas. Chegava ao ponto de faltar medicamentos em toda a rede. Superamos isso. E não é que voltamos agora a ter falta de medicamentos?
(…)
Há implicação política? Está ameaçada a aliança PT e PSD?
Não posso apequenar o PSD e vincular essas manifestações incompreensíveis do prefeito com as decisões do partido.
(…)
O Ronilson Bezerra [ex-subsecretário de Finanças, tido como chefe do grupo suspeito de desvios no ISS] ganhou cargo de destaque por sua decisão?
Eu não o conhecia anteriormente e pouco conheço agora. Estive com ele poucas vezes em sete anos, sempre para discutir assuntos técnicos, e geralmente em meu gabinete. Não tenho nenhuma relação pessoal com ele. Conheço menos ainda os outros envolvidos na investigação.

Por que ele foi indicado para formar a equipe de transição?
Há nisso uma má-fé muito grande, uma afirmação maldosa, que não é digna do Fernando Haddad. Havia um secretário indicado para formar o grupo, e os dois lados fizeram isso. Ele levou sua equipe. Ronilson estava na transição porque estavam todos daquele núcleo. Ele era da equipe. Ele e centenas de outros.

Em grampo, Ronilson diz a outra fiscal que o sr. sabia de tudo. Do que o sr. sabia, afinal?
Não sabia de nada.

O que era essa situação de “muito mais descalabro” que o sr. diz que encontrou?
Contas não pagas, bilhões de dívidas, fornecedores sem receber, postos de saúde sem abastecimento, escolas de lata. Aquilo era um descalabro.

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O que tem achado das primeiras medidas do prefeito?
Quero voltar à campanha. Ele fez promessas sobre vagas em creche e elas já foram diminuídas. É preciso lembrar do Arco do Futuro, da redução do plano de metas. Isso tudo com a colher de chá do governo federal [renegociação de dívidas], que não fez o mesmo com a nossa gestão.

Comento
Kassab é interlocutor privilegiado de Lula. Inútil. Kassab é interlocutor privilegiado de Dilma. Inútil. Kassab é interlocutor de vários representantes da cúpula do PT nacional e estadual. Inútil também. Não tem jeito. Em primeiro lugar, o ex-prefeito não é e jamais será um deles. Em segundo lugar, o petismo só se constrói, isso é histórico, sobre os escombros da reputação alheia.

Fernando Haddad vai mal. Muito mal. O reajuste do IPTU — que, com um pouco mais de competência, poderia ter sido uma operação indolor — virou um cabo de guerra também com a Justiça. Com pouco menos de um ano de gestão, já dá para saber que suas mais solenes promessas não serão cumpridas. Fazer o quê? Haddad não teve duvida: resolveu ressuscitar a figura do Supercoxinha, mas agora com a espada justiceira. De quem era a gestão anterior? Do agora aliado Kassab. Não diminuiu a sua fúria.

Petista se solidariza com Kassab
Parece evidente que a investigação era mesmo necessária e que uma gangue atuava dentro da Prefeitura. Haddad não se limitou a tentar capitalizar a operação-limpeza. Dadas as suas palavras, a cidade era um caos administrativo, herança do seu antecessor, e ele é o justiceiro. No próprio PT, há quem diga que o prefeito só pensa em si mesmo.

Neste domingo, sabem quem saiu em defesa de Kassab? Edinho Silva, presidente do PT paulista. Em entrevista concedida ao Broadcast, serviço de tempo real da Agência Estado, afirmou: “Kassab tem sido aliado importantíssimo e de primeira hora do governo Dilma. O PT tem de seguir valorizando Kassab como aliado, uma liderança leal e o PSD como um partido fundamental para o governo Dilma”,

Se o PT trata assim aliados com essa importância, imaginem o que dispensa àqueles que considera inimigos…

Encerro
A dura entrevista de Kassab é uma primeira advertência. Observem que ele não chega a sugerir que o episódio dificulta seu apoio a Dilma em 2014, mas não é bobo: sabe que, caso se torne agora alvo de uma pesada artilharia da cúpula petista, as coisas se complicam bastante. Ao dar essa entrevista, o ex-prefeito convoca os chefões petistas a comparecer ao ringue. Ou enquadram Haddad — e isso pode ser feito sem comprometer a qualidade da investigação — ou investem no confronto por meio de palavras e do silêncio.

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