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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

FHC: subir ou não subir a rampa?

A petralhada tem torrado a minha paciência: “Viu? Seu queridinho Fernando Henrique (para usar expressão de um deles) vai falar com a Dilma. Vai fazer o que Ulysses não fez: dar uma de rampeiro”. Ele se refere ao convite que a presidente Dilma fez aos ex-presidente FHC, na solenidade dos 90 anos da Folha. para […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 12h43 - Publicado em 25 fev 2011, 19h13

A petralhada tem torrado a minha paciência: “Viu? Seu queridinho Fernando Henrique (para usar expressão de um deles) vai falar com a Dilma. Vai fazer o que Ulysses não fez: dar uma de rampeiro”. Ele se refere ao convite que a presidente Dilma fez aos ex-presidente FHC, na solenidade dos 90 anos da Folha. para visitá-la no Palácio.

Deve ser jornalista, com a minha idade pelo menos — 49, antes que especulem, mas torque de 18, hehe… Lembra uma frase do lendário e legendário líder do PMDB quando indagado se subiria a rampa do Palácio do Planalto para falar com o presidente Figueiredo: “Não sou rampeiro”. Ulysses acreditava que lugar de oposição falar com governo era o Parlamento.

Bem, eram outros tempos, não? Havia uma ditadura, ainda que em decadência, a ser vencida. Nas democracias, deve-se supor que as conversas enfrentam menos percalços. Ainda assim, há rituais que, entendo, são necessários.

Dilma quer falar sobre o quê? Qual é a agenda? Segundo a Folha reportou, teria sido FHC a propor à presidente um encontro com o grupo denominado “The Elders”, que reúne ex-líderes mundiais em defesa da paz — Jimmy Carter e Kofi Annan estão entre eles. Ela não só teria concordado como feito o convite para que o presidente de honra do PSDB a visitasse sozinho, num encontro pessoal.

O Brasil é apaixonado pela idéia de conciliação. E não é de hoje. Como virtude, pode nos livrar de diabólicos azares. Como vício, é uma de suas causas. FHC se encontre com quem quiser, não tenho nada com isso. Há certa leitura influente em áreas do pensamento, da oposição e até da imprensa segundo a qual é preciso romper o paradigma lulista da política, marcado pelo permanente confronto. Lula jamais se encontrou com FHC quando líder da oposição e jamais convidou o antecessor para visitá-lo — não de verdade. Uma reunião entre Dilma e FHC, no Palácio do Planalto, marcaria esse novo momento. Há quem se encante com a possibilidade. Os mais finórios entendem que o PT, por meio de Dilma, finalmente reconheceria o legado do líder tucano, desarmando o discurso lulista do “nós” contra “eles”.

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Acho excesso de otimismo. Sem uma pauta — e seria o caso de saber qual —, acho que o eventual encontro só concorreria para combalir ainda mais uma oposição já combalida. O PT ganhou três eleições presidenciais em cima da “herança maldita” de FHC, falsa como nota de R$ 3. O discurso de Dilma candidata — e pouco importa se era coisa de marqueteiro ou não — foi de uma impressionante virulência contra o antecessor de Lula. Peguem qualquer vídeo no Youtube sobre a campanha. Está tudo lá. Em recente mensagem ao Congresso, a presidente desmereceu ainda outra vez a obra de FHC.

Encontrar-se, então, para quê? Com que propósito? O país não atravessa nenhuma crise institucional, a pedir a união das forças vivas da nação. Vão falar sobre o quê? Valor do mínimo? Agressão à Constituição? Reforma política? A loucura do trem-bala? O quê? Se a oposição mal consegue existir no Congresso, a única frente de luta que lhe resta é o debate político, que tem de ser, porque é uma exigência da democracia, de confrontação com as verdades do governo. A conciliação agora atende só ao vício da conciliação, sem nenhuma virtude.

A agenda do indivíduo FHC é livre; a do presidente de honra do partido de oposição que obteve 44 milhões de votos não é. Vou caminhando para o encerramento com a história que não aconteceu. Tivesse Serra sido eleito presidente e fosse Lula subir a rampa, qual seria a sua agenda? Indago , numa pilhéria: tentaria convencer o tucano de que o salário mínimo de R$ 600 seria inflacionário, exigindo R$ 545? Para Ulysses, lugar de oposição e governo conversarem era o Parlamento. Estava certíssimo.

No Congresso, diga-se, na votação do mínimo, os homens de Dilma voltaram a bater sem dó em FHC, mentindo com a desenvoltura habitual.  Chegaram a dizer que a valorização do mínimo, com ganhos reais acima da inflação, só começou em 2003. Bem, desde 1997, este é primeiro ano que o mínimo não terá aumento real. Esse mesmo Congresso, que é o lugar da conversa, votou uma lei que cassa uma prerrogativa do… Congresso. Sem conversa!

Pergunto de novo: qual é a agenda. Ou ainda: existe uma agenda?

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