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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Dilma Rousseff defende o modelo da tirania virtuosa; Terá a soberana lido a República ou a Carta VII, de Platão?

Ah, um dia ainda fujo pra Pasárgada, onde sou amigo do rei, com a mulher que quiser, na cama que escolherei etc e tal. E chega dessas chatices! Que coisa! A Soberana, Rainha Muda até outro dia, agora bastante buliçosa, anda lendo Platão, estou certo. Na República, aprendeu que seria de todo útil educar o […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 11h35 - Publicado em 17 jun 2011, 21h25

Ah, um dia ainda fujo pra Pasárgada, onde sou amigo do rei, com a mulher que quiser, na cama que escolherei etc e tal. E chega dessas chatices! Que coisa! A Soberana, Rainha Muda até outro dia, agora bastante buliçosa, anda lendo Platão, estou certo. Na República, aprendeu que seria de todo útil educar o filósofo, de sorte que, chegando ao poder, pudesse unir a sabedoria à força. Não deu… Na Carta VII, Platão relata a experiência contrária, que foi a tentativa de educar os poderosos para que a força tivesse sabedoria. Os dois Dionísios de Siracusa acabaram lhe dando um pé no traseiro e, acreditem, Platão se viu envolvido num golpe de estado! A carta é o relato que ele faz da experiência de tentar tornar virtuosa a tirania. Escreve aos parentes de Díon, seu amigo, que acabou derrubando Dionísio II, ficou no poder por quatro anos e acabou assassinado. A Carta VII, em suma, é a história de um insucesso, de um desastre.

A tirania não pode ser sábia — no máximo, o tirano pode ser sabido. E acabará pondo o saber a serviço da força, não a força a serviço do saber. Por que essas reflexões? Para tentar emprestar um pouco de alcance teórico a essa dura tarefa de entender o que essa gente diz. Leiam o que informa a Folha Online. Volto depois.

Dilma diz que sigilo de orçamentos da Copa foi mal interpretado

A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta sexta-feira que houve “má interpretação” de um artigo em medida provisória aprovada na Câmara que prevê manter em sigilo orçamentos. “Eu lamento a má interpretação que deram sobre esse ponto. Eu sugiro que as pessoas, os jornalistas que fizeram a matéria, investiguem direitinho junto ao TCU, que leiam a legislação e vejam do que se trata. Em momento algum se esconde o valor do órgão de controle, tanto interno quanto externo”, disse a presidente, que participou do lançamento do Plano Agrícola e Pecuário, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

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A presidente se referia ao RDC (Regime Diferenciado de Contratações), específico para os eventos, que teve o texto-básico aprovado na última quarta-feira (15). Com a mudança, não será possível afirmar, por exemplo, se a Copa-2014 estourou ou não o orçamento. A proposta ainda pode ser modificada, pois os destaques ficaram para ser apreciados apenas no fim do mês. A decisão foi incluída de última hora no novo texto da medida provisória 527, que cria o RDC. “[As medidas] Foram discutidas amplamente pelo governo e pelo TCU.”

A presidente ainda disse que o sistema de ocultar o orçamento é utilizado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e pela União Européia “para evitar que o licitante, que está fazendo a oferta, utilize a prática de elevação dos preços e de formação de cartel”. Pelo texto atual, só órgãos de controle, como os tribunais de contas, receberão os dados. Ainda assim, apenas quando o governo considerar conveniente repassá-los –e sob a determinação expressa de não divulgá-los.

Comento
A miscelânea de conceitos busca dar algum alcance teórico a uma proposta que só está aí porque os petistas são ruins de serviço. Passaram quase quatro anos olhando para as estrelas, perderam metade do tempo e, na metade que resta, tentam nos convencer de que todos os controles democráticos e todas as regras que asseguram alguma transparência nos gastos públicos dificultam as obras.

Dilma está dizendo, em suma, que, tendo a força — porque o governo a tem —, devemos confiar que tem também a sabedoria. A garantia não está na República, mas na governante que junta a sabedoria e o poder. Os Dionísios, o I e o II,  não chegaram lá, mas ela conseguiu, finalmente, ser bem-sucedida. Platão se precipitou ao relatar os seus desastres. Mal sabia que, uns 2.350 anos depois, nasceria o verdadeiro Dionísio, na forma de mulher. Seu Platão é Ideli Salvatti.

Vou-me embora pra Pasárgada!

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