Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês
Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Dilma, o discurso, as verdades e as mentiras

Em seu ódio dedicado, os petralhas correram para cá para ver o que eu havia escrito sobre a posse de Dilma Rousseff e o discurso feito no Congresso. Como não encontraram o texto, mandaram ver nos comentários: “Aí, hein! Não escreveu por quê? Sem Lula, faltou assunto?” Bobagem! Minha ausência nada tem a ver com […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 13h15 - Publicado em 3 jan 2011, 04h43

Em seu ódio dedicado, os petralhas correram para cá para ver o que eu havia escrito sobre a posse de Dilma Rousseff e o discurso feito no Congresso. Como não encontraram o texto, mandaram ver nos comentários: “Aí, hein! Não escreveu por quê? Sem Lula, faltou assunto?” Bobagem! Minha ausência nada tem a ver com o cadáver adiado da política brasileira e que ainda procria – a imagem é de Fernando Pessoa, é bom saber; trata-se de uma referência douta! Não escrevi foi por falta de conexão mesmo, não de assunto! Não escrevi foi por falta de Anatel. Estou à espera do momento em que a agência cobre das telefônicas que elas entreguem o que prometem quando vendem um serviço 3 G! Qual é melhor? Ora, nenhuma! Adiante.

Mesmo de férias, é claro que não me furtaria a escrever um artigo sobre a posse da presidente Dilma Rousseff, embora a inferência de que isso seja obrigatório traia a adesão a uma mistificação: a suposição de que estamos diante de um momento realmente ímpar da política brasileira, “como nunca antes na história destepaiz“, para lembrar aquele que, com absoluta certeza, não repousa em paz neste momento. E qual seria esse evento espetacular? “A primeira mulher a assumir a Presidência etc e tal.”

Eu não dou a menor pelota para isso. Já tivemos o primeiro presidente que tinha lido Tocqueville no original. Acho mais relevante. Eu sou assim. Não caio nesse papo cretino. Conhecemos as pessoas por suas obras, não por suas características inaugurais. Querer que as mulheres se sintam representadas por Dilma corresponde a dizer que os homens se viam representados por todos os antecessores da atual presidente. Eu nunca! Tenho mais identidade com um chimpanzé do que com Sarney, Collor ou Lula. Nas democracias, não se elegem categorias para comandar países.

O governo Dilma resume-se até agora aos dois discursos: o de posse, no Congresso, e o do parlatório. A gente nunca espera grandes novidades em solenidades dessa natureza, mas parece que a presidente exagerou no oferecimento de “mais do mesmo”. Assistimos ao desfile das promessas e dos signos da campanha eleitoral, e isso significa afirmar que a fala deslizou nos trilhos da obviedade e da mistificação. Todo governo promete ser bom e cuidar dos humildes. É uma obrigação decorosa de que não se furtam nem os déspotas mais ensandecidos – afinal, é impossível dizer o contrário, certo? Vocês já imaginaram um novo presidente que afirmasse: “Prometo manter a exclusão social, aumentar a desigualdade e cassar direitos básicos dos cidadãos”? Digam-me uma só ditadura que não tenha se instalado prometendo um reino de justiça. Logo, essas promessas em discursos de posse são frivolidades retóricas. Vale para Dilma e para qualquer outro.

E o que não foi óbvio – embora, eu reconheço, obrigatório – foi ruim. É claro que se esperava que Dilma fizesse alguma alusão àquele que a antecedeu no cargo, mas o tributo foi excessivo. Discurso não é governo. Se fosse, teria sido um mau começo. Se aponta para uma marca retórica da administração que nasce, então Dilma demonstra a mesma disposição do antecessor  para agredir os fatos. Afirmou, por exemplo:

“Não venho para enaltecer a minha biografia; mas para glorificar a vida de cada mulher brasileira. Meu compromisso supremo é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos!
Venho, antes de tudo, para dar continuidade ao maior processo de afirmação que este país já viveu.
Venho para consolidar a obra transformadora do presidente Luis Inácio Lula da Silva, com quem tive a mais vigorosa experiência política da minha vida e o privilégio de servir ao país, ao seu lado, nestes últimos anos.
De um presidente que mudou a forma de governar e levou o povo brasileiro a confiar ainda mais em si mesmo e no futuro do seu País.
A maior homenagem que posso prestar a ele é ampliar e avançar as conquistas do seu governo. Reconhecer, acreditar e investir na força do povo foi a maior lição que o presidente Lula deixou para todos nós.
Sob sua liderança, o povo brasileiro fez a travessia para uma outra margem da história.”

Ou o texto foi escrito por Gilberto Carvalho (aquele que daria a vida por Lula; escrevo a respeito num post abaixo), ou estamos diante de alguém que preferiu o caminho da ironia. Reparem que Dilma diz não ter vindo para “enaltecer” a sua biografia. Com efeito, na fala acima, ela acaba enaltecendo a de Lula, não sem antes sustentar que vai “glorificar” as mulheres. Indagação à margem: se o governo for ruim, é sinal de que as mulheres não sabem governar? Ora…

A história do Brasil teve muitos “momentos de afirmação”; sustentar que o governo Lula foi “o maior” é uma tolice que nasce da arrogância e da autojustificação. Igualmente tolo é sustentar que Lula liderou a “travessia para uma outra margem da história”. Imagens dessa natureza, diga-se, são típicas do discurso das esquerdas. Na VEJA da semana do Natal, escrevo um longo artigo sobre as oposições. Abro com um discurso do sanguinário Robespierre. Também ele asseverava estar conduzindo a França para a outra “margem”. Esquerdistas estão sempre liderando “processos históricos”, como se essa tal história fosse um ente, um ser vivo, dotado de uma supra-racionalidade, que estivesse acima dos homens reais, devidamente manejada por partidos ou por líderes. É por isso que esses valentes mataram milhares, milhões às vezes, em nome da justiça…

Continua após a publicidade

Essa conversa de “outra margem”, de “travessia”, de “mudança da forma de governar” compõe a mais cara, e vigarista!, mitologia do governo Lula – ou, se quiserem, do governo do PT. Se Dilma está só cumprindo as obrigações de praxe do petismo ou se realmente acredita nisso e pretende manter a fantasia, o tempo dirá. Ela não exibe a mesma habilidade do  antecessor para manipular sentimentos e ganhar a simpatia da opinião pública. É “mulher”, sim – apresentada, pois, como uma minoria sociológica discriminada, que venceu a barreira do preconceito -, mas não terá a inimputabilidade do antecessor. Não poderá dizer certas batatadas e, creio, tentará se comportar com um pouco mais de sobriedade. Mas pertence ao PT, e isso significa que é procuradora de um método e de um modo de governar que não têm compromisso com a verdade.

Essa falta de compromisso é uma questão, digamos, moral? Não exatamente – ou não de moral pessoal ao menos. Trata-se, antes de mais nada, de uma escolha ética. Para o PT, que pretende liderar os tais processos de “travessia para a outra margem”, a política se dá, já apontei aqui tantas vezes, numa espécie de “presente eterno”: a verdade é aquilo que for útil aos interesses do partido e sirva para consolidar a sua força; e a mentira é tudo o que não interesse a essa consolidação. Os fatos, para os petistas, não têm a menor importância. Nesse sentido, é um partido que segue rigorosamente as lições de Gramsci, segundo quem até mesmo o que era e o que não era criminoso se definiam segundo as necessidades do “Moderno Príncipe” (o partido). Assim, ainda que eu não veja em Dilma o mesmo talento de seu mestre para a bufonaria, também não a vejo desgarrada do movimento que a gerou. Ela é parte de uma máquina. E não chegou ao topo por acaso. Não estou entre aqueles que acham que Dilma é uma anta descerebrada. Ao contrário: creio que ela está onde está porque pensa o que pensa, entenderam?

Dilma não foi generosamente imprecisa apenas com a história de Lula. Ao tratar do próprio passado – e fez questão de trazê-lo mais uma vez ao debate -, agrediu os fatos:

“Dediquei toda a minha vida a causa do Brasil. Entreguei minha juventude ao sonho de um país justo e democrático. Suportei as adversidades mais extremas infligidas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor.
Muitos da minha geração, que tombaram pelo caminho, não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles esta conquista, e rendo-lhes minha homenagem.
Esta dura caminhada me fez valorizar e amar muito mais a vida e me deu sobretudo coragem para enfrentar desafios ainda maiores.”

Ninguém mais aponta? Tudo bem, aponto-o eu. Estou aqui para isto mesmo: para que a verdade seja tratada como verdade, e a mentira, como mentira. A presidente faz alusão à sua adesão à luta armada. Nem descarto que os então terroristas acreditassem que aquele era o caminho da “justiça” – de uma bastarda noção de justiça… Mas de democracia, não! Nunca! Nem eles! É uma inverdade histórica e conceitual afirmar que alguém aderiu, alguma vez, a um partido de extrema esquerda para construir um país democrático. Já fui trotskista. Nem eu nem outro esquerdista qualquer queríamos democracia à época. Queríamos socialismo e acreditávamos que a democracia era uma trapaça burguesa. Era no que Dilma acreditava também. Esses são os fatos.

Os que “tombaram” na luta não poderiam compartilhar  a alegria desse momento coisa nenhuma! A menos que tivessem mudado de posição. Pensando o que pensavam à época, tenderiam a considerá-la uma trânsfuga. Dilma dizer que não “se arrepende” toca em franjas delicadas. Os movimentos a que ela pertenceu mataram inocentes. Melhor faria se deixasse o passado no passado. Quanto a não ter “ressentimento ou rancor”, aí vamos ver. Permitirá, como fez Lula, que seus ministros da Justiça e dos Direitos Humanos tentem fazer a história andar para trás para rever a Lei da Anistia, por exemplo? As suas ações dirão mais do que essa retórica tão cheia de imprecisões factuais.

“Que importância tem isso no presente?” Pois é… Em seu último ato, o Babalorixá de Banânia decidiu que o terrorista Cesare Battisti não será extraditado para a Itália. O assassino só está no Brasil porque o então ministro da Justiça, Tarso Genro, resolveu “honrar” a sua (de Battisti) luta, entendendo que ele estava num confronto de caráter político e que foi vítima do estado discricionário italiano. E a Itália que o condenou era uma democracia – a mesma democracia para a qual esquerdistas, em regra, dão de ombros. Viram como essas afinidades acabam fazendo diferença? De Battisti, reitero este ponto, nem se pode dizer que praticasse atos de violência contra uma ditadura. Battisti matou na sua determinada luta contra a… democracia!

Como vêem, amiguinhos, mesmo nessas minhas estranhas férias, assunto não me falta – e não creio que me faltará. Dêem-me uma conexão, e eu movimentarei a Internet, sempre dedicado a atribuir às pessoas não mais do que aquilo que fizeram, chamando a verdade de “verdade” e a mentira de “mentira”.

Continua após a publicidade

Publicidade