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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Delinqüência política: Lula diz que fechamento da RCTV é democrático

Por Clóvis Rossi, na Folha desta sexta. Volto depois: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o fato de seu colega venezuelano Hugo Chávez não renovar a concessão da emissora RCTV foi tão democrático quanto teria sido a eventual renovação. “Eu acho que não dá para ideologizar essa questão da televisão. O […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 22h24 - Publicado em 8 jun 2007, 08h47
Por Clóvis Rossi, na Folha desta sexta. Volto depois:

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o fato de seu colega venezuelano Hugo Chávez não renovar a concessão da emissora RCTV foi tão democrático quanto teria sido a eventual renovação.

“Eu acho que não dá para ideologizar essa questão da televisão. O mesmo Estado que dá uma concessão é o Estado que pode não dar a concessão.

O Chávez teria praticado uma violência se tivesse, após o fracasso do golpe [contra o venezuelano em 2002], feito a intervenção na televisão”, disse.
Apesar de defender Chávez, Lula afirmou que seu colega será prejudicado pelas críticas ao Senado brasileiro. “Quando você erra na política, quem é que perde? É quem erra. Por quê?

Porque o acordo para a entrada da Venezuela no Mercosul vai ter que passar pelo Senado, e quero crer que o Chávez deve perceber que vai ficar muito mais difícil agora. Vai exigir muito mais esforço nosso para convencer que um mal-entendido ou uma agressão verbal não pode colocar em risco um projeto para a região.”
Em entrevista concedida à Folha, na embaixada brasileira em Berlim, Lula falou só sobre política externa. (…)

FOLHA – O sr. disse a Chávez que o Senado brasileiro o defendeu quando houve o golpe contra ele?
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA –
Não conversei com o Chávez depois. Certamente devemos nos encontrar no Paraguai, no dia 27 ou 28. Nesses quatro anos de mandato, já vi muitas brigas entre países latino-americanos. E eu tenho comentado com eles que precisamos tomar cuidado com o discurso porque às vezes a radicalização verbal atrapalha muita coisa. Você dá uma declaração num lugar e, dependendo do interesse local, a imprensa dá uma manchete e cria-se uma animosidade nacional numa coisa que não precisaria. A nota que o Senado brasileiro fez em relação à televisão do Chávez é uma nota branda. É um apelo, não tem nenhuma agressão. Agora como é que chegou a ele, eu não sei.
(…)
FOLHA – Inclusive a questão da TV o sr. falaria para ele [Chávez]?
LULA –
Eu falo o que faria no Brasil. Eu acho que não dá para ideologizar essa questão da televisão. O mesmo Estado que dá uma concessão é o Estado que pode não dar a concessão. O Chávez teria praticado uma violência se tivesse, após o fracasso do golpe, feito a intervenção na televisão. Não fez. Esperou vencer a concessão. No Brasil vencem concessões sempre e que passam pelo Senado para que haja renovação. Nos Estados Unidos, há concessões. Algumas são renovadas. Vai da visão que cada presidente tem da situação.

FOLHA – Quando o sr. diz que no Brasil a relação é democrática e consolidada, a inferência possível é que, na Venezuela, apesar de tecnicamente estar tudo nos conformes, não é democrático…
LULA –
O fato de ele não renovar a concessão é tão democrático quanto dar [a concessão]. Não sei por que a diferença entre dois atos democráticos. A diferença com o Brasil é que conseguimos colocar na Constituição que isso passa pelo Congresso. Não é uma decisão unilateral do presidente. Lá é. Faz parte da democracia deles. Agora o que acho engraçado é que você pega um cara como o [Gustavo] Cisneros [dono de um dos mais importantes grupos de mídia da Venezuela e da América Latina], que era tido como o maior inimigo do Chávez, está de acordo.

FOLHA – Mas aí é que está o problema: venceram ambas as concessões, mas a do Cisneros foi renovada, o que torna claro que foi uma resposta política, embora os argumentos formais possam ser corretos.
LULA –
Não sei qual foi o critério que ele adotou para dar as concessões. O dado concreto é que ele utilizou a legislação que vigora no país e tomou essa decisão. Por que eu, presidente do Brasil, vou ficar dizendo se ele fez certo ou errado. Quem tem que julgar isso é o povo da Venezuela, não sou eu.
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Lutem, covardes!

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Tomo emprestado o meu lema predileto, inspirado no Cavaleiro Negro, personagem do filme Em Busca do Cálice Sagrado, do Monty Python. Sempre que alguém fala nas convicções democráticas de Lula, acho que é o caso de você ter a certeza de que seu passaporte está em dia. Os jornais chegaram até a manchetar a suposta reação de desagrado do Apedeuta com Chávez quando o ditador atacou o Congresso brasileiro. Este escrevinhador, vocês se lembram, observou: “besteira; jogo de cena; conversa pra boi dormir”. Eis aí.

Milhares de pessoas estão nas ruas hoje na Venezuela, e o mundo volta os olhos pra lá porque a cassação da RCTV é a evidência escancarada de que o país se tornou uma ditadura. E Lula diz que cassar ou não cassar, tanto faz, tudo é democracia. As coisas no PT são assim mesmo. José Genoino, nas pegadas de Schopenhauer, chegou a filosofar certa feita: “Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”. Lula é mais complexo: “Uma coisa é uma coisa, e o seu inverso, a mesma coisa”. Entenderam?

Lula é ignorante, mas jamais foi inocente. Sua desculpa para justificar a cassação da concessão é que tudo está dentro da lei daquele país. Ele tem razão. Chávez usou a democracia para violar a democracia. É o que o PT vem fazendo permanentemente no país, só que com mais inteligência e mais sangue frio do que o coronel da Venezuela, aquele índio de araque da Bolívia ou aquele maluquete do Equador.

Como aqueles três chegaram ao poder de seus respectivos países com as instituições em frangalhos, então puderam partir logo para a virada de mesa. No Brasil, a corrosão do caráter democrático é uma tarefa mais lenta, mais minimalista, de mais fôlego e, acreditem, de maior alcance. No que respeita às liberdades políticas, Lula será pior para o Brasil no longo prazo do que Chávez para a Venezuela. Antevejo aquele vagabundo pendurado, de cabeça para baixo, em praça pública. Já Lula é muito mais insidioso. Vamos demorar muito mais para nos livrar do lulismo enquanto uma cultura política do que a Venezuela para varrer o chavismo.

O lulismo está em todo canto. Está, como sabem, num dos principais programas jornalísticos da principal emissora de rádio voltada para a notícia (vejam o caso CBN); está, como se verá abaixo, na cobertura que o maior jornal do país faz dos comuno-fascistas da USP; está na reportagem sobre a ação da polícia reprimindo vândalos do movimento punk. Leiam a Folha de hoje: a população, diz o jornal, ficou com medo, sim, mas da Polícia, cacacterizada como truculenta. Será a Dinamarca uma ditadura? Bandido militante que invade prédio público lá toma borrachada. Nem a esquerda nem a direita saem em defesa do vandalismo. Aqui, os setores formadores de opinião amam os bandoleiros primitivos.

É a craca lulo-petista que grudou na intelligentsia brasileira, somada com certo internacionalismo contestador mal digerido. Dá nessa porcaria. Querem o quê? Lula está (re)criando a censura prévia no país e investindo R$ 350 milhões por ano na TV pública com base nos mesmos princípios gerais da Venezuela. Ora, também por aqui as concessões podem ser renovadas ou não. O Congresso dá pitaco, claro. Qual Congresso? Este que aí está, enxovalhado? É o governo da chantagem: como agente ou como paciente (não é, PF?)

O lema
Ah, claro! Há um sujeito oculto naquele verbo no imperativo que abre este comentário, não é? “Vocês”. Quem são este “vocês”? Os que, detendo instrumentos para pôr freio às tentativas mitigadas do governo de subverter a ordem, não o fazem. Ao contrário: são lenientes com os flertes autoritários de Lula; entregam à turma do Apedeuta suas emissoras de rádio, suas emissoras de TV, seus jornais, suas revistas. Por cálculo burro, interesse ou mesquinharia.

Saddam Hussein também usava a legislação que vigorava em seu país para implementar o seu governo terrorista, como o fazem as ditaduras mundo afora. Em Lula, soberania pode ser sinônimo de selvageria.

A pergunta
Ah, sim: o Babalorixá deu um pito nos jornalistas que o indagaram sobre a operação que atingiu o seu irmão. Sobre isso, disse, ele tratava no Brasil. Parece ter considerado uma mesquinharia. Afinal, na sua cabeça torta, é só um problema nativo. Ele vai chegar a passar um mel no beiço das instituições. E elas vão lamber.

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