Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

COMO FUNCIONA A PATRULHA PETRALHA: A PROVA DOS NOVES

Abaixo, vai um exemplo de como funciona a máquina de intimidação. A TV Cultura tem um ombudsman. Chama-se Ernesto Rodrigues, apresentando em sua página eletrônica assim: “É jornalista e professor da PUC-Rio. Trabalhou na Rede Globo, entre 1986 e 1999, onde desempenhou diversas funções, entre elas, chefe de redação da Globo-SP e da sucursal de […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 18h25 - Publicado em 16 dez 2008, 18h47
Abaixo, vai um exemplo de como funciona a máquina de intimidação. A TV Cultura tem um ombudsman. Chama-se Ernesto Rodrigues, apresentando em sua página eletrônica assim: “É jornalista e professor da PUC-Rio. Trabalhou na Rede Globo, entre 1986 e 1999, onde desempenhou diversas funções, entre elas, chefe de redação da Globo-SP e da sucursal de Londres. Foi repórter e editor do Globo, Jornal do Brasil, IstoÉ e Veja.” Um passado de glórias…

Ele fez uma avaliação do programa Roda Viva de ontem. Ou melhor: ele abriu mão de ser ombudsman do programa para ser ombudsman dos entrevistadores, dizendo como cada um se comportou. Vou comentar apenas a parte do seu texto (em vermelho) que diz respeito à minha atuação. Respondo em azul.
(…) Reinaldo Azevedo, da revista Veja, passou todo o programa usando Gilmar Mendes – e às vezes também dispensando a participação do entrevistado – para expor suas “teses” e fazer ataques. Fez, é verdade, algumas perguntas que precisavam ser feitas – como a que levou Mendes a dizer que o juiz De Sanctis confrontou o STF e outra, sobre a declarada admiração de De Sanctis pelo pensamento do jurista pró-nazista Carl Schmidt.
Ou bem eu passei “todo o programa” desenvolvendo as minhas teses ou bem fiz “algumas perguntas que precisavam ser feitas”. Uma coisa e outra, ao mesmo tempo, são impossíveis. Considerando que devo ter feito, sei lá, umas cinco ou seis intervenções, “algumas” perguntas são quantas? Ah, sim: o sobrenome do Carl não é “Schmidt”, mas Schimitt. O ombudsman não deve confundir Carl Schmitt com Oscar Schmidt… É bola fora!

Mas a maior parte do tempo Azevedo usou para fazer da bancada do Roda Viva uma tribuna na qual dispensou Gilmar Mendes da obrigação de apresentar o áudio do grampo
Como se vê, o ombudsman, professor de jornalismo, acredita que cabe a Gilmar Mendes, que foi grampeado, apresentar o áudio — como se fosse essa uma obrigação sua. A VEJA divulgou a transcrição do grampo. As duas vítimas confirmam que aquela conversa aconteceu. É pura delinqüência intelectual dizer que dispensei Gilmar Mendes disso ou daquilo. O que disse é reitero é que só há uma chance de o grampo não ter acontecido: um conluio entre a revista, o presidente do Supremo e um senador da República. Nem o subjornalismo mais vagabundo acredita nisso. O Sr. Ernesto Rodrigues poderia tentar provar por que a transcrição e o testemunho das vítimas não servem de prova. Seria um revoluçao no terreno do direito. Eis a evidência escancarada de sua ignorância.

e para um constrangedor contorcionismo pelo qual transformou a ministra Dilma Rousseff e o ministro Paulo Vanhucci em pessoas que poderiam ser enquadradas atualmente como terroristas pelo fato de terem pertencido, durante a ditadura, ao grupo de esquerda liderado por Carlos Marighela.
O certo é Marighella, não Marighela. Rodrigues não gosta de detalhes (ver texto abaixo). MENTIRA GROTESCA. Contorcionismo é o do ombudsman. A sua ignorância é que é constrangedora. O ministro foi indagado sobre a sua afirmação de que “terrorismo também é crime imprescritível”. E eu afirmei que, na Constituição, o que está explícito é que o terrorismo, mas não a tortura, apesar do horror de ambas as práticas, é crime imprescritível. Alguém perguntou ao ministro se lutar contra a ditadura é terrorismo. E eu perguntei se o Manual de Guerrilha de Marighella era ou não terrorista — fala-se lá até em ataques a hospitais e se defende abertamente a ação terrorista como forma legítima de luta. E lembrei que dois ministros de Estado seguiram aquela cartilha. Se o ombudsman não sabe, eu o tiro das trevas da ignorância: Paulo Vannuchi (e não “Vanhucci”; malditos detalhes!) e Dilma Rousseff já se pronunciaram a favor da revisão da Lei da Anistia em nome da imprescritibilidade do crime de tortura.

Sem pergunta específica, Reinaldo também atacou a decisão do STF sobre a Reserva Raposa Serra do Sol.
MAIS UMA MENTIRA! Expus, sim, o que considero absurdo no julgamento da reserva Raposa Serra do Sol. Mas o centro da minha intervenção foram as 18 exigências feitas pelo ministro Menezes Direito. Perguntei a Gilmar Mendes se o STF não se comportou “como Legislativo, Executivo e ATÉ Judiciário”. E foi a oportunidade para uma de suas melhores intervenções: negou que Supremo usurpe as prerrogativas dos demais Poderes.

Reinaldo Azevedo e Márcio Chaer, na tentativa de instrumentalizar o programa diante de um tema tão delicado e de um personagem tão controvertido, conspiraram contra a qualidade e o equilíbrio jornalístico desta edição do Roda Viva, o que sugere uma cuidadosa reflexão da direção do programa sobre os critérios de seleção dos entrevistadores.
Como se vê, ele propõe um expurgo. Conspiraram contra o “equilíbrio” aqueles que não foram ao programa com o propósito de linchar Gilmar Mendes. O ombudsman quer equilíbrio, mas de um lado só.

No final das contas, no entanto, principalmente quando confrontados à qualidade das intervenções de Lillian Witte Fibe e de Eliane Cantanhêde, eles acabaram desmoralizando setores da sociedade que vêem com simpatia o ativismo e o atual protagonismo político e ideológico de Giilmar Mendes.
Como é o que ombudsman sabe? Ele falou com esses “setores”? E qual é o “protagonismo político e ideológico” de Gilmar Mendes? Desmoraliza é sua crítica energúmena e ideológica.

O Roda Viva, portanto, não perdeu o rumo. Foi um programa interessante, pertinente e, considerada a ressalva à escolha infeliz de parte da bancada, fiel à sua tradição de debater e discutir as questões relevantes para a o cidadão telespectador de São Paulo e do Brasil. E acreditem: sem a participação do Luís Nassif.
Começo pelo fim: todas as perguntas feitas por Lilian Witte Fibe e por uma jornalista que fazia intervenções nos intervalos — com “questões da Internet” — foram formuladas pela personagem citada. A tese de que cabe a Mendes apresentar o “áudio do grampo” é da personagem por ele citada. Assim, vamos ser claros: Lilian e Rodrigues foram pautados, sim, por aquele que ele trata cheio de ironia, mas a quem deveria ser grato. Sou um homem justo: dê-se o mérito a quem tem mérito. Quanto ao mais, dizer o quê? Ele não me quer mais lá. Não ia ao Roda Viva, programa que freqüento desde 1989, havia quase dois anos — 20 meses para ser exato. Por ele, ficarei longe pelos próximos 40. Quer equilíbrio…

Continua após a publicidade
Escandaloso
Mas nada do que ele diga a meu respeito é tão escandaloso quanto este outro trecho do seu artigo: “A âncora Lillian Witte Fibe, cumprindo de forma competente a função de garantir que todos esses assuntos fossem abordados, abriu com duas perguntas que muitos gostariam de fazer: onde está o áudio do suposto grampo da conversa de Gilmar Mendes com o senador Demóstenes Torres e qual a responsabilidade do STF pelo vazamento de um ofício reservado do tribunal à revista Veja?”

Já comentei a questão do áudio. A indagação sobre “responsabilidade do STF pelo vazamento de um ofício reservado do tribunal à revista VEJA” expõe o caráter, lamento dizer, fascistóide dessa gente. Isso que o ombudsman apreciou tanto é matéria constitucional: chama-se sigilo da fonte. Por que só a revista VEJA seria obrigada a revelar os nomes das pessoas que lhe passam informações? Não há democracia no mundo em que o princípio do sigilo seja desrespeitado. E o rapaz é professor de jornalismo.

Em algum momento, esse programa estará disponível na rede. A TV Cultura costuma mandar um DVD para o entrevistado e os entrevistadores. Tão logo eu o receba, vejo se consigo colocá-lo no ar, na íntegra. E então voltarei à avaliação do ombudsman.

O texto de Ernesto Rodrigues sobre a entrevista de Gilmar Mendes é especialmente interessante porque o ombudsman é também uma espécie de juiz. Ele deveria, tanto quanto possível, fazer avaliações desapaixonadas. Rodrigues chega a chamar de “polêmica” a declaração de Mendes de que o “terrorismo também é crime imprescritível”. Não, rapaz! Isso não é polêmico. É constitucional!!!

O texto do ombudsman funciona como uma prova da questão, de natureza mais conceitual, que abordei no artigo anterior.

Em O País dos Petralhas, escrevo que, antigamente, a imprensa investigava o governo. Agora, setores da imprensa querem investigar a VEJA para que a VEJA não investigue o governo.

Continua após a publicidade
Publicidade