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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Como a reportagem da Folha procurou ridicularizar os que se opõem à invasão da Reitoria

A repórter Laura Capriglione, da Folha, ex-invasora de reitoria, como eu, é autora da tese que acabou emprestando um espírito aos neo-invasores da USP: eles seriam seres apolíticos, quase um produto da terra, como o Jeca Tatu do Monteiro Lobato, só que com algumas idéias vagas na cabeça e muitos sonhos à mão. Vinte e […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 22h24 - Publicado em 8 jun 2007, 08h18
A repórter Laura Capriglione, da Folha, ex-invasora de reitoria, como eu, é autora da tese que acabou emprestando um espírito aos neo-invasores da USP: eles seriam seres apolíticos, quase um produto da terra, como o Jeca Tatu do Monteiro Lobato, só que com algumas idéias vagas na cabeça e muitos sonhos à mão. Vinte e cinco anos depois daquela bobagem, ela busca, a todo custo, num outro país, fazer renascer um troço chamado “Movimento Estudantil”. A exemplo de qualquer outro, este que aí está também tem comando. Falarei disso em outro post. Quero agora comentar a reportagem que ela assina na Folha de ontem, sobre o protesto havido anteontem contra a invasão.

Como vocês se lembram, antecipei aqui que atos a favor da ordem tendem a ser discretos. E não é por acaso. Os ordeiros costumam trabalhar, estudar, ter uma existência útil. Não são profissionais da causa ou remelentos do toddynho, sustentados pelos pais. Por isso, embora tenha aqui expressado a minha simpatia pelo movimento, antecipei o que seria visto como um fracasso. A principal tarefa de um esquerdista na mídia é ridicularizar tudo aquilo que considera “conservador”, “de direita”, “reacionário”. Foi o que fez Laura. Tratou como idiotas os alunos, professores e funcionários da USP. Sua reportagem, que reproduzo abaixo, em vermelho, com comentários em azul, exala desonestidade intelectual a cada linha.

Na prática, o militante socialista Magno Carvalho, do Sintusp, é quem comanda a invasão. Na esfera simbólica, sua parceira é Laura Capriglione. Vinte e cinco anos depois, ela se esforça para fazer dar certo a invasão de 1982. Ao texto e aos comentários.

Um grupinho de professores, funcionários e estudantes (poucos) começou a se reunir ontem logo cedo em frente ao portão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, dentro da Cidade Universitária (zona oeste da capital). Às 10h, o professor Sylvio Sawaia, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, subiu no carro de som. Meio confuso, dirigiu-se à massa lá embaixo: “Companheiros… Ou eu devia dizer camaradas?” Depois de se decidir por “colegas”, Sawaia convocou os presentes: “Vamos caminhar de braços dados, à la francesa, formando fileiras de dez [pessoas] -que é para parecer mais gente do que somos.”
A palavra “grupinho” não está aí por acaso. Ele contrasta com o termo “massa”, empregado logo depois, em tom evidentemente irônico. Notem que o professor Sylvio Sawaia já é qualificado, de saída, como “confuso”. Os protestos da esquerda na USP têm uma figura já folclórica, que pode ser encontrada no YouTube: uma certa “Neli”, a chamada “Tia da Greve”. Aliás, os métodos dos valentes — pesquisem lá — também estão disponíveis. Jamais houve uma só reportagem na Folha tratando dessa gente. Laura também capricha ao escolher as aspas: parece que Sawaia está tentando enganar alguém.

E, assim, com 173 integrantes (em um total de mais de 90.000 uspianos), saiu pela avenida Luciano Gualberto, que corta o campus da Universidade de São Paulo, a primeira passeata reacionária a ser vista por ali.
A palavra “reacionária”, claro, não é gratuita. Na seqüência, a repórter tenta dar um truque e faz de conta que emprega o vocábulo como “algo relativo, pertencente ou favorável à reação”. Pois bem. Sigam com o Houaiss. “Reacionário” também quer dizer “contrário, hostil à democracia; antidemocrático”; “que se opõe às idéias voltadas para a transformação da sociedade”; “que ou aquele que defende princípios ultraconservadores, contrários à evolução política ou social”. Assim, por óbvio, os que estão do outro lado da contenda são, vejam só, os amantes da democracia.É isto, leitor: no texto “medíocre” (uso essa palavra em sua primeira acepção, com a mesma inocência com que Laura escreve “reacionária”) de Laura, quem depreda o patrimônio público, desrespeita ordem judicial e até agride professor é, entendo, “progressista”.

Impressionante a precisão: 173! Ela tem livre acesso à Reitoria invadida. Quantos são os invasores hoje? Em regime de rodízio, não dormem lá dentro mais de 30 por noite. A invasão foi feita por 200 pessoas. Os uspianos matriculados são 80.589 — e não “mais de 90 mil”. Para quem gosta de precisão, 10 mil alunos fazem alguma diferença. Se ela considerar também “uspianos” os professores e funcionários, então são 101.706.
A sua habilidade de contadora de passeata vem responder ao que seria uma guerra de números. Tenho chamado a atenção, neste blog, para o que denomino “extrema minoria” de invasores e grevistas, em contraste com a maioria silenciosa que quer aula. E mantenho a leitura. Quem está em greve na USP? Quantos são os alunos? Quantos são os professores? Na contabilidade de Laura, os baderneiros são maioria. São mesmo? E então chegamos ao ponto: a exemplo dos invasores, talvez também dissesse: “Quem não quiser greve que vá à assembléia”. Ocorre que a esmagadora maioria da USP — alunos, funcionários e servidores — não reconhecem a legitimidade dessas assembléias; não aceitam o critério das esquerdas.

A reação, no caso, foi à invasão da reitoria por estudantes, professores e funcionários, que há 35 dias desalojaram toda a burocracia central da USP.
Segundo os invasores, a ocupação da reitoria é -entre outras coisas- para forçar a derrubada de decretos assinados pelo governador José Serra, considerados atentatórios à autonomia universitária.
Ops! Ah, a nostalgia!!! “Burocracia”, em politiquês, tem dois sentidos básicos: um deles é o weberiano: a parte profissional do estado e de seus entes subordinados. Nunca percebi nem mesmo eflúvios weberianos no que Laura escreve. Na verdade, eu duvido que ela tenha lido Weber. O outro, claro, é o marxista e adjacências, inclusive as adjacências anarquistas, os primeiros que costumam ser esmagados pelos marxistas. Mas pouco importa: contra a “direita”, eles se unem. Vejam só: se alguém diz que 200 truculentos botaram pra fora os funcionários da USP, a violência fica caracterizada. Quando se escreve que a “burocracia foi desalojada”, o texto remete a um ato político que aspira à correção. Notem que a versão dos Remelentos e Mafaldinhas para justificar a invasão é relembrada. Sobre o decreto declaratório, nem uma linha.

Segundo o pessoal antiinvasão, “a ocupação da reitoria é um ato que caminha no sentido do desentendimento e da desunião, não devendo ser aceito como forma de luta”. Entre os manifestantes na passeata de ontem, estavam pesquisadores como Etelvino Bechara, titular do Instituto de Química e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Química, que reclamava do que considera “irresponsabilidade” do governador José Serra e da reitora Suely Vilela. “Eles não estão exercendo a autoridade de que foram investidos. Eu cobro do governador e da reitora uma atitude mais consistente em defesa da USP.”
Seria o texto de Laura exemplo da “isenção” e “apartidarismo” da Folha, pilares declarados de seu projeto editorial? Quando ela vai cobrir o ato dos invasores, o governador José Serra apanha. Quando, vai cobrir o ato contra a invasão, o governador José Serra apanha. Laura é mesmo um exemplo de isenção: não importa o lado a que ela dê voz, é o governador que sempre leva porrada.

O professor Marcelo Alves, doutor da Escola Politécnica, gritava: “A USP não pode ser transformada em um gueto ou numa favela carioca, em que o poder público não entra. Já houve ordem judicial pela reintegração de posse [do prédio da reitoria]. Tem de ser cumprida. E logo”. Com tropa de choque, professor? “Inclusive com tropa de choque”, defendeu.
Marcelo Alves, professor da Poli, é caracterizado como truculento. Se você não for de esquerda, amigo, cuidado ao falar com jornalistas. O melhor será fechar o bico. Quase sempre é uma armadilha. Alves não pediu nada além do cumprimento da lei. Se um grupo se impõe pela força e não aceita negociar, é claro que terá de ser contido pela força. Ocorre que Laura santifica a brutalidade de quem está contra a lei e demoniza a imposição da legalidade. “Com tropa de choque, professor?” Qual é o estranhamento da moça? Se eles toparem um papinho, é claro que pode ser…

A idéia da manifestação contra a invasão da reitoria surgiu em uma reunião realizada no fim da semana entre os diretores e a reitora sem teto Suely Vilela. Às 10h20 de terça-feira, estudantes, professores e funcionários do Instituto de Matemática e Estatística, por exemplo, receberam e-mail do diretor da escola, Paulo Domingos Cordaro, convidando-os para o chamado “Ato de Defesa da Universidade Pública”. Para facilitar a presença dos funcionários, Cordaro fez questão de colocar o aviso: “Os funcionários interessados em participar da caminhada estão dispensados de suas atividades”. O diretor da matemática admite que foi “muito criticado” pela atitude de dispensar os funcionários. Mas defende-se: “Eu fiz essa pequena concessão por causa da gravidade da situação da universidade”.
Acima, vai a tentativa de desqualificar o ato e transformá-lo em mera manifestação oficialista — até parece que 95% da USP não estão em pleno funcionamento. Até parece que os que reivindicam a normalidade são a minoria. Uma reivindicação que se faz dando as aulas, assistindo às aulas. Não li na Folha a informação de que foi o Sintusp quem fechou a FFLCH. Não li na Folha que são esses mesmos truculentos a impedir que os que querem dar e ter aula na ECA o façam. É evidente que, além de ridicularizar o protesto antiinvasão, ela também tenta torná-lo ilegítimo. Ilegitimidade que ela não enxerga nos muitos corpos estranhos à USP que passaram a freqüentar a Reitoria, que nada têm a ver com a universidade.

Até anteontem, estava previsto que o protesto contra a invasão terminaria na reitoria. Mas o pessoal na invasão espalhou a notícia de que 12 ônibus estavam viajando do interior do Estado para a USP, a fim de reforçar a ocupação. Às 11h, os invasores já eram mais de 800 em frente à reitoria. Diante da inferioridade numérica, os organizadores do protesto antiinvasão mudaram de idéia. Resolveram dar um “abraço” no relógio da universidade, espécie de marco zero do campus. “Tomara que tenhamos gente suficiente para fazer o círculo em volta do relógio”, disse o diretor da Arquitetura ao microfone do carro de som, na saída da passeata.
Os mais de 800 foram contados com a mesma precisão com ela contou os 173?

O diretor da Faculdade de Economia e Administração, Carlos Azzoni, tentou explicar o baixo quórum na passeata. “Nós temos essa coisa de dar aulas”, disse, irônico.
É o trecho sensato da reportagem (?). Mérito de Azzoni.

O motorista do carro de som da Mega Som Propagandas e Eventos não se conformava com o fato de a manifestação transcorrer silenciosa, sem gritos de palavras de ordem, sem bumbos, sem oradores: “Eu já disse para eles falarem durante o trajeto, que do jeito que está fica parecendo enterro, mas eles não querem”. Na chegada ao relógio, os militantes antiinvasão conseguiram fechar a roda. Às 10h55, eles cantaram o Hino Nacional e encerraram o protesto.
Laura nunca chamou a atenção para os carros do Sintusp — que, claro, tem a sua parafernália para “a construção do socialismo” financiada pelo leite de pata do imposto sindical obrigatório. Quando alguém não faz o que o sindicato quer, eles ligam o som a todo volume e impedem o funcionamento normal da escola. Informo a Laura e aos leitores: a empresa que presta serviço ao Sintusp é a DI Santana Promoções e Eventos (telefone 6453 4053, site da empresa aqui). Um dos veículos, muito apropriadamente, chama-se “Caribão” — deveria ser “Cubanão”.

Como a praça está a menos de cem metros da reitoria, vários invasores foram provocar a turma. Duas garotas com máscara do governador José Serra portavam faixas com os dizeres: “Quer bolsa de iniciação? Vá ao ato contra a ocupação” e “Quer abonar seu dia de trabalho? Vá ao ato contra a ocupação”. Eram respostas ao e-mail do diretor da matemática.
Há, ao menos, o bom senso de deixar claro quem provocou quem. Ainda bem que isso não depende de juízo de valor, né? Afinal, as TVs estavam lá também, há a imagem. Mas Laura sempre pode emprestar seu olhar e seus ouvidos à causa. Ela informa o que teria sido uma modalidade de incentivo oficial ao protesto, mas não teve tempo de apurar que ele foi boicotado por “tia” Suely Vilela. A reitora fez saber a todos os departamentos que considerava a manifestação inoportuna. E, segundo apurei, se mandou para Ribeirão Preto na quarta-feira mesmo, para se recuperar do estresse, o que denota, entendo, a sua devoção à causa.

Vejam ali: as Mafaldinhas que foram fazer fusquinha levavam questões políticas. Já os “reacionários”… Leiam:

A coisa chegou a ficar tensa quando um professor da passeata começou a gritar para os invasores: “Vagabundo, vagabundo, vai escovar os dentes”. Mas durou pouco. Logo, os invasores voltaram para o prédio da reitoria, que também abraçaram, enquanto o pessoal da passeata foi almoçar. Na entrada da USP, pelo menos cem policiais em carros e 30 em motocicletas, que estiveram de prontidão, dispersaram-se.
Viram só? “Reacionários” são assim: quando vão se manifestar, logo pensam em higiene e limpeza. A esquerda é diferente. Seu negócio é fazer poesia com a sujeira.

A crise continua.
Que é isso, Laura? Esqueceu? A palavra de ordem é “A luta continua”. Desde 1982…

Para ver o Sintusp e o movimento “apolítico” de Laura, clique aqui. O vídeo fica mais interessante a partir do sétimo minuto.

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