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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Com o apoio do PT, que elevou a tarifa de ônibus, fascistoides prometem parar de novo São Paulo. Movimento diz que não tem o que negociar. Secretário de Segurança cede sem pedir nada em troca

Espera-se hoje em São Paulo uma grande manifestação. Os protestos contra a elevação da tarifa de ônibus não juntaram mais do que cinco mil pessoas. Até porque a reivindicação do grupo que lidera os eventos é de tal sorte aloprada — tarifa zero — que não anima o usuário comum do serviço. A coisa se […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 17 fev 2017, 13h59 - Publicado em 17 jun 2013, 09h08

Espera-se hoje em São Paulo uma grande manifestação. Os protestos contra a elevação da tarifa de ônibus não juntaram mais do que cinco mil pessoas. Até porque a reivindicação do grupo que lidera os eventos é de tal sorte aloprada — tarifa zero — que não anima o usuário comum do serviço. A coisa se restringia a setores radicalizados da classe média e da elite paulistanas, que aprenderam com seus professores de história hipomarxistas, em escolas particulares com ar condicionado, que é preciso lutar PELO oprimido — se possível, em lugar dele, já que o dito-cujo teria tido a sua consciência sequestrada pelo capitalismo e pelo fetiche da mercadoria. O Brasil deve ser o único país do mundo em que professores de humanas ainda repetem essas porcarias. A elite brasileira deve ser a única a pagar para que seus filhos ouçam esse lixo.

De maneira deliberada, os manifestantes optaram pelo uso sistemático da violência — assim tem sido em várias cidades, é bom que fique claro —, provocaram a reação da PM, e o resto é história miseravelmente distorcida pela imprensa engajada. Os protestos estavam sendo, em parte, levados adiante por profissionais da agitação do PSOL, do PSTU, do PCO, entre outros grupelhos. Nesta segunda, o leque de apoios se ampliou. Os petistas resolveram aderir, agora para valer, não se limitando mais à juventude do partido.

Há uma boa chance de que estejam dando um tiro no pé. Outro protesto, que pode até se casar com o das passagens, mas que tem origem e motivação diversas, ameaça tomar corpo: contra os gastos da Copa do Mundo. As vaias dirigidas a Dilma no Mané Garrincha, no sábado, recomendariam ao PT um pouco mais de prudência. Ocorre que o partido, como o escorpião que ferroa o sapo que o leva nas costas, tem a sua natureza e não pode negá-la. Tentará converter a manifestação de hoje num ato contra a violência policial e em favor da liberdade de expressão — como se esta estivesse sendo ameaçada. Boa parte do jornalismo, insisto, perdeu o norte, o rumo, os valores, o bom senso. Considera-se, como se fosse a coisa mais normal do mundo, que um grupo de pessoas tem o direito de parar a cidade se não cometer violência — como se isso não fosse, por si, um ato violento. De resto, não custa lembrar, o movimento liderado pela turma do Passe Livre se caracterizou, desde o primeiro dia, por ser estupidamente violento. E, curiosamente, não se ouviu alarido nenhum. Um policial quase foi linchado. Não houve uma só entidade de defesa dos direitos humanos, a começar pela OAB, que emitisse um protesto. Parece que, para esses bacanas, linchar policiais é parte do preço que se paga pela democracia. Não é!

Povo na praça nem me encanta nem me assusta. Tampouco me conduz à paralisia do pensamento. A Praça Tahrir que o diga. Olho para o resultado da chamada “Primavera Árabe” e me orgulho não do meu ceticismo ou do meu pessimismo, mas do destemor — o intelectual ao menos — de ter marchado na contramão. Digo o mesmo sobre o governo Obama. Eu não me deixo seduzir por práticas e discursos que, se generalizados e tornados uma medida, resultam em menos liberdade em vez de mais; em mais violência em vez de menos; em menos pluralidade em vez de mais. Assim, também desta vez, não me importo de me alinhar com o que parece ser uma minoria — na imprensa ao menos. O Movimento Passe Livre e aqueles que estão com ele nessa “luta” são autoritários, têm uma tese aloprada, recorrem a métodos fascistoides de ação política e parecem se orgulhar de não transigir jamais.

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Entrevista
Neste domingo, o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, concedeu uma entrevista coletiva. Acuado pela imprensa, como se, de fato, estivéssemos diante de uma luta entre o Bem (os manifestantes) e o Mal (a Polícia Militar), chamou o Passe Livre para conversar — haverá uma reunião com as lideranças (que não representam ninguém) nesta segunda. Mas já anunciou que não haverá tropa de choque na rua, que os policiais não portarão balas de borracha, que a polícia vai se limitar a garantir a segurança da manifestação etc.

Ele só pediu uma coisa, com voz bem branda, suave, quase falando pra dentro: que seja anunciado o roteiro da manifestação para que possa haver um planejamento. Já volto ao secretário, que me parece destinado a ter vida curta do cargo — eu, pessoalmente, torço para que tenha; acho que ele comete equívocos fundamentais; trato do assunto daqui a pouco. Como se vê, a autoridade se mostra disposta ao diálogo. Já recebeu uma resposta. Nina Capello, uma das integrantes do Passe Livre, concedeu uma entrevista à Folha Online. Leiam a pergunta e a resposta. Vejam o que Nina entende por uma sociedade civilizada.

Folha – O secretário de segurança pública, Fernando Grella Vieira, convidou o movimento para conversar hoje às 10h. Vocês vão?
Nina Cappello- Eu não sei exatamente para o que é a reunião, mas a gente esta disposto a conversar com eles para evitar a repressão policial, que foi muito violenta no último ato [de quinta-feira (13)], que teve pessoas presas mesmo antes da manifestação começar. Vamos questionar essa criminalização do movimento. O que nós deixamos claro é que a decisão do caminho da manifestação é uma decisão política nossa, nós não vamos decidir o trajeto do movimento com eles. Mas a gente entendeu que isso não seria um problema porque a polícia tem que garantir a segurança dos manifestantes não importa o trajeto que a gente escolha fazer. Quando a gente tiver o trajeto definido nós vamos informar para eles.

Retomo
Nina estuda direito. Vai a uma negociação em que ela só reivindica, sem ceder nada. Não se pode criminalizar o que já é crime, a saber: jogar coquetéis molotov, depredar ônibus, prédios públicos, espancar policiais. Tudo isso fez o protesto que ela lidera — e a tanto esses patriotas não foram levadas pela violência policial. Os erros eventualmente cometidos pela PM não estão na origem desses escolhas.

Vejam lá. Em qualquer país do mundo em que haja protestos pacíficos, o trajeto de uma passeata é negociado com as autoridades. Sólidas democracias do mundo proíbem manifestações em determinadas áreas da cidade por razões de segurança. Com Nina e o Passe Livre, não tem isso, não! Trata-se, segundo ela, de uma “decisão política”. E ela tem ideias muito claras sobre a função da Polícia: “Garantir a segurança dos manifestantes não importa o trajeto que a gente escolher”. No mundo de Nina, o transporte é gratuito — cai do céu —, e a função da polícia não é garantir a segurança de 11,5 milhões de paulistanos e seu direito constitucional de ir e vir, mas proteger os que, arvorando-se em representantes do povo, decidem levar a cidade ao colapso. No mundo de Nina, a sociedade se divide entre “nós” (os que protestam) e “eles” (o estado, a repressão, sei lá eu…).

Não sei quais são as referências teóricas dessa moça — deve haver alguma. Mas faço votos de que não esteja aprendendo tais noções de democracia na faculdade de direito. Assim pensava o jovem Mussolini quando liderava o seu bando. Assim pensava Hitler quando conduzia a sua tropa de assalto. Isso é fascismo, não democracia. Leiam mais esta.

Como será o protesto de hoje programado para as 17h no largo da Batata, em Pinheiros?
Vai ser o maior protesto contra o aumento da tarifa de ônibus. A gente continua na rua até o prefeito [Fernando Haddad] e o governador [Geraldo Alckmin] decidirem revogar o aumento do ônibus e dos trens caso contrário a gente vai continuar colocando as nossas forças nas ruas, ocupando ruas importantes e parando a cidade.

Está dado. Ou as autoridades, legitimamente eleitas, cedem, ou Nina e seu movimento prometem que a rotina de São Paulo continuará a ser um inferno. Atenção! Já há um outro protesto marcado para amanhã. Tento de novo: Geraldo Alckmin e Fernando Haddad foram eleitos — eu votei no primeiro e jamais votaria no segundo, nem que fosse para animador de festinha infantil — e têm a legitimidade e a competência legal para definir a política de transportes. Isso não implica que todos gostem ou concordem, é evidente. Mas há os caminhos igualmente democráticos para protestar. E PARAR A CIDADE NÃO É UM DELES. Nina acusa aquele “eles” genérico de criminalizar o movimento, mas é ela quem criminaliza o poder público, como se o reajuste da passagem tivesse sido decidido pela má-fé. Ora, cidade e estado fizeram um esforço adicional — usando dinheiro público, é claro! — e reajustaram a tarifa bem abaixo da inflação. Como vai negociar quem não reconhece no outro a legitimidade que lhe é conferida pela própria democracia. No fim das contas, essa moça e seus amigos não admitem é a própria democracia. E ela ainda não deu o seu melhor, que é o seu pior. Leiam.

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Mas grande parcela da sociedade crítica o ato, veem o movimento mais como de “baderneiros” que querem promover o vandalismo?
É a política que eles têm de criminalizar o movimento e que acontece com os movimentos sociais principalmente nas periferias. É o jeito que eles têm para calar a nossa voz. Estamos na rua lutando por um direito, isso não é baderna é simplesmente uma manifestação legítima na luta por transporte público. O movimento não apoia vandalismo, mas a gente entende que a violência é da policia e da tarifa. Retomando o que foram as manifestações fica bem claro que houve violência por parte dos manifestantes porque teve repressão por parte da polícia.

Não, moça! Parar a cidade não é legítimo, qualquer que seja a sua causa. Notem que, na prática, ela justifica a violência, atribuindo toda a responsabilidade à polícia. Bem, foi o que escreveu Elio Gaspari, não é? Foi o que afirmaram o Jornal Nacional na sexta e o Fantástico neste domingo. No programa dominical, o seguinte texto absurdo, especialmente quando acompanhado das imagens, foi levado ao ar:
“A policia se precipitou, se excedeu e usou bombas de gás e balas de borracha sem que tivesse sofrido agressões. Várias pessoas ficaram feridas. Entre elas, jornalistas que estavam trabalhando. Os manifestantes responderam com pedras e fogos.”
Enquanto se ouve a voz, em off, vê-se um dos manifestantes jogando um rojão contra a polícia — dois dias antes, uma estação do metrô havia sido depredada e foram usados coquetéis molotov nos protestos. Releiam o texto: “os manifestantes responderam com fogos”. Não se pergunta o que faziam no ato com esse artefato.

Com a imprensa jogando no seu time, Nina se sente absolutamente à vontade para anunciar que só há um caminho para que a cidade volte à sua já caótica normalidade: o regime democrático tem de ceder à ditadura da minoria; que dois governantes eleitos se verguem à vontade de uma minoria de extremistas que se quer representante de todos os usuários de ônibus; que Haddad e Alckmin abram mão da prerrogativa que têm de ordenar a política de transportes e a transfira para gênios da raça como Nina e Vivian (ver post).

Agora o secretário
Espero que a gestão de Grella tenha vida curta na Secretaria de Segurança Pública. Este senhor é autor de uma portaria desastrada que proíbe os policiais militares de socorrer vítimas — tenham sido elas alvejadas pela Polícia Militar ou não. É um despropósito no mérito e na intenção política. Começo pela segunda: lança uma sombra de suspeição sobre toda a corporação. E, evidentemente, é potencialmente danosa porque mesmo pessoas que tenham sido feridas, sei lá, numa briga de bar, sem qualquer envolvimento com forças de segurança do estado, podem ficar à espera de um socorro que tarda a chegar. Atendeu à pressão de ongueiros que acusavam a PM de matar bandidos a caminho do hospital. Havendo evidências disso, é claro que a prática deveria ter sido coibida, e os eventuais responsáveis, exemplarmente punidos. Mas atenção! Não me parece que Grella age bem ao, na prática, expor a maior risco quem NÃO É bandido para supostamente proteger bandidos que ficariam à mercê de maus policiais. A prática criminosa, se houvesse, poderia ter sido combatida sem prejuízo dos demais cidadãos. Acho a portaria, na melhor das hipóteses, burra; na pior, perigosa e contraproducente, destinada a gerar mais ressentimentos na PM do que soluções. E a força que reprime o crime, na ponta, é a Polícia Militar.

Desta feita, só faltou a Grella prometer que os policiais militares vão levar flores para manifestantes que, como se nota acima, não estão dispostos a transigir em nada. A obrigação de uma Secretaria de Segurança Pública é usar de forma inteligente os recursos necessários. É chato lembrar, mas lá vou eu: tropa de choque, balas de borracha e demais forças e apetrechos também servem à segurança dos policiais. Devem ser usadas com inteligência. COMPROMETER-SE DE SAÍDA A NÃO EMPREGÁ-LOS DELEGA AOS MANIFESTANTES A SEGURANÇA DOS POLICIAIS, QUANDO O NORMAL, NUMA DEMOCRACIA, É O CONTRÁRIO. Se os bravos “anarquistas” do Black Bloc decidirem sair quebrando tudo, policial militar faz o quê? Cruza os braços e olha para o outro lado? Lamento ter de escrever isso, mas as garantias de Grella, dado o conjunto da obra, são absurdas. Tropa de choque e balas de borracha, bem empegados, são elementos de dissuasão. Mal empregados, servem à confusão. Eliminados da equação por princípio, dado o histórico, expõem os policiais ao arbítrio de quem os detesta.

Caminhando para o encerramento
De todo modo, é bem possível que não haja conflito nesta segunda, até porque, desta feita, haverá muitos “profissionais” da mobilização entre os manifestantes. Como anunciei aqui em primeira mão, os petistas decidiram aparelhar o protesto, tentando jogar para segundo plano a reivindicação principal.

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