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Cardozo tenta jogar todos os gatos no saco para ver se ficam pardos. Ou: Advogados, não sirvam de inocentes úteis!

Então vamos combinar o seguinte: o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, enrola, e eu desenrolo. Ele, como homem público, faz o que não deve, e eu, como jornalista, o que devo. Cardozo está tentando jogar todos os gatos no mesmo saco porque lhe interessa que sejam pardos. Mais: está tentando provocar uma reação corporativa […]

Então vamos combinar o seguinte: o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, enrola, e eu desenrolo. Ele, como homem público, faz o que não deve, e eu, como jornalista, o que devo. Cardozo está tentando jogar todos os gatos no mesmo saco porque lhe interessa que sejam pardos. Mais: está tentando provocar uma reação corporativa de advogados. Espero que os doutores não caiam na cilada e não se tornem coadjuvantes de uma pantomima.

Questão fundamental já abordada aqui: qualquer que seja a reclamação ou o descontentamento dos clientes dos advogados que recorreram a Cardozo, há uma confusão de fórum. Se a PF erra, exorbita ou transgride a lei, sendo ela Polícia Judiciária, deve-se apelar ao… Judiciário! No caso, ao Tribunal Regional Federal e, eventualmente, ao Conselho Nacional de Justiça. Posto isso, sigamos.

O ministro tenta confundir, de forma deliberada, a reunião que fez com advogados da Odebrecht — decorrente, de fato, de uma representação formal — com outra, esta com Sérgio Renault, defensor da UTC, e com o advogado petista Sigmaringa Seixas.

Na sua entrevista, ora vejam!, Cardozo admite o encontro com os advogados da Odebrecht — que tinha objeto definido —, mas não o havido com Renault e Seixas. Epa! Aí não! Aí fica com cheiro de truque.

Se algo de impróprio foi conversado com os advogados da Odebrecht, não se sabe — não que eu tenha lido ao menos. A outra reunião, no entanto, percorreu sinuosidades cabeludas. Tratou-se ali de oposicionistas que seriam tragados pela Lava-Jato e da entrada de Lula na parada. E, como se sabe, essa reunião não estava na agenda, não nasceu de uma representação, não está assentada em nenhuma formalidade.

O ministro pode até achar que é papel dele apostar na confusão. O nosso é destrinchar.

Com a sua retórica sempre meio balofa e pobremente condoreira, Cardozo mandou brasa: “Advogados que advogam para clientes que estão sendo investigados, pouco importa se são culpados ou não, não são membros de quadrilha por serem advogados. É repugnante”.

Quem disse que são? A quem interessa jogar advogados contra juízes? Afirmou mais: “Não aceito a criminalização de advogado. As autoridades têm sim que receber advogados, e se um advogado fizer uma proposta indevida, que tomem as medidas judiciais cabíveis”.

Criminalização uma ova! Há um jogo interessante em curso, para o qual o leitor tem de estar atento. Os empreiteiros perceberam que estavam se transformando na Geni do petrolão, assim como Marcos Valério e Kátia Rabello se tornaram os cobres de plantão do mensalão.

Alguns ameaçaram botar a boca no trombone, notadamente Ricardo Pessoa, dono da UTC, amigo — ou ex-amigo? — de Lula. Chegou o recado de que não iria silencioso para o cadafalso. Aí, então, o Planalto resolveu entrar em ação, com o concurso de Lula, para acalmar a tigrada. Foi essa a natureza da “conversa informal” de Cardozo com o advogado da UTC.

O ministro sabe muito bem que o busílis, nesse particular, não está no seu encontro com os advogados da Odebrecht, mas no “encontro informal” com os “amigos” Renault e Seixas.

Ele enrola. A gente desenrola.

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