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AINDA A CENSURA: Ou: Para que servem os artistas? Ou ainda: Há coisas que não são nem de direita nem de esquerda. São apenas erradas e inúteis

Escrevi ontem um post sobre a defesa que artistas estão fazendo da censura, ainda que tentem emprestar à sua tese roupagem mais nobre. Mas fui adiante. Critiquei a mania que há no Brasil de considerar o artista um pensador, seja ele cantor, escritor, pintor… Sou, já disse, um defensor radical das garantias dos Artigos 5º e 220 […]

Caetano black bloc

Escrevi ontem um post sobre a defesa que artistas estão fazendo da censura, ainda que tentem emprestar à sua tese roupagem mais nobre. Mas fui adiante. Critiquei a mania que há no Brasil de considerar o artista um pensador, seja ele cantor, escritor, pintor… Sou, já disse, um defensor radical das garantias dos Artigos 5º e 220 da Constituição. Cada um diga e escreva o que quiser e responda por isso. Precisamos, isto sim, é de uma Justiça mais célere para desagravar quem for eventualmente agravado. Não dá é para flertar com a censura. Muita gente reclamou, acusando-me, o que é estúpido e absurdo, de querer impedir a manifestação dos artistas. Quem sabe ler entendeu direito o que escrevi: disse apenas, neste particular, que um artista vale por sua arte, não por suas opiniões. O que há de tão exótico ou de errado  nisso?

Temos outra mania ainda: chamar compositor de MPB de “poeta”. Muitas vezes, o bardo em questão rima de modo obsessivo verbos no infinitivo, não lhe ocorrendo nenhum outro recurso mais, como direi?, complexo. Vira “poeta” por causa de sua “mensagem” libertadora… Literatura, prosa ou poesia, é língua cultivada. Demanda labor. É produto, sim, da cultura mais lapidada, como qualquer outro domínio da estética. Ainda que o artista saiba esconder, com diria Olavo Bilac (lá vou eu citar alguém injustamente demonizado pelos modernistas), os “andaimes do edifício”, quem se dedica a interpretar o que ele faz dá-se a uma fruição que não é mero exercício do gosto ou da satisfação. Também apela à inteligência.

Então não pode haver um grande artista popular sem cultivo intelectual? A resposta não é simples. Pode e não pode. Mas explico o paradoxo. O grande achado na arte popular costuma ser a reprodução, quase sempre acidental, de um valor cultivado pelas elites intelectuais. Estas apreciam, e não vai demérito nenhum nisto, menos a “verdade” que chega do povo do que o valor influente entre seus iguais. Vamos de Cartola:
Queixo-me às rosas,/
Mas que bobagem!/
As rosas não falam./
Simplesmente as rosas exalam/
o perfume que roubam de ti.

Cartola tinha ouvido, claro!, daí as assonâncias nas paroxítonas: “bobagem/ falam/ exalam” (a rima final tem menos importância no ritmo do que aquela repetição). Mas, parece, o encantador da letra está mesmo na desmetaforização à moda Alberto Caeiro, que Cartola, é bem provável, desconhecia (ao menos quando a compôs):
Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

As rosas não falam, e as flores não sentem. É a desconstrução do clichê, do senso comum e da literatice que chama a atenção do esteta tanto num texto como no outro, muito mais do que os sentimentos que evocam. Ama-se em Cartola um valor que pertence às elites cultivadas e chega a parecer espantoso que tenha sido um homem do povo a realizar tal feito. Mesmo a valorização por que passou o lixo estético do rap nos segundos cadernos e nos programas “inclusivos” da TV aberta — penso, Deus do céu!, em Regina Casé (aquela que foi estatizada pela CEF…) — tem muito pouco a ver com as verdades soberbas do povo — até porque povo não é categoria de pensamento, não é categoria política, não é categoria estética, não é categoria sociológica, não é categoria ética… A rigor, o povo é uma abstração, não existe como coisa em si. Existem as pessoas, estas sim! Convertê-las em “povo” corresponde a lhes surrupiar uma identidade em nome de um conceito que pode confortar apenas o pensador de plantão. Adiante! O que se valoriza no rap?

A rima? O ritmo? A melodia? A língua cultivada? O quê? A resposta é uma só: quase invariavelmente, o que se aprecia naquela “coisa” é o simulacro de luta de classes, a luta contra a injustiça, a verdade eterna dos oprimidos — ou que nome se queria emprestar ao troço. Eis aí: esse é um valor “popular”? Uma pinoia! Quem atribui virtudes redentoras a esses apelos são intelectuais (subintelectuais, quase sempre) de classe média e das elites. Gente pobre e honesta, com raras exceções, dá valor ao trabalho, ao estudo, à luta para subir na vida. Povo gosta de competição. Quem fala em luta e cooperação entre iguais é submarxista do miolo mole, que, no mais das vezes, já veio ao mundo com o traseiro voltado para a lua… 

Mas retomo
Sinto que me distanciei um tantinho da questão, me empolguei com aspectos particulares do debate. Retomo o fio. Artistas não têm de ser tomados como pensadores. Até porque se pode ser ou injusto com a obra ou irresponsável com o pensamento. A visão política de Ezra Pound era detestável, mas não a sua poesia. Céline e Wagner eram antissemitas asquerosos, mas importam a literatura de um e a música do outro. Fernando Pessoa era uma besta política e se mostra, a cada dia, um poeta maior. Todos esses entrariam na cota dos “reacionários”. Máximo Gorki era um pulha de esquerda, mas um bom escritor. A ideologia supervalorizou a obra de Gabriel García Márquez e puniu estupidamente o imenso Jorge Luis Borges.

Cada um deles, como artista, deve valer apenas por aquilo que produziu no domínio de sua obra. E nenhum deles deve ser visto como uma referência de leitura de mundo. Eram poetas, prosadores, músicos etc. Sei o quanto apanhei quando afirmei que Niemeyer era metade gênio (o arquiteto) e metade idiota (o ser político). Só corrijo uma coisa: era um inteiro gênio e um inteiro idiota. Foi uma gritaria dos diabos. Nota: tomei pancada tanto de quem achava que ele era gênio nos dois domínios como de quem o considera idiota (e autoritário) em ambos. O que eu fazia ali? Atrevia-me, diante do morto, a lembrar todas as coisas estúpidas que  já havia afirmado em política: da defesa dos crimes de Stálin ao apoio às Farc, Niemeyer viveu o bastante para endossar as piores barbaridades. Mas eu admiro profundamente a sua obra. Mais do que atacá-lo, eu, de fato, estava reivindicando que o domínio da estética fosse preservado de sua ética política capenga — para dizer o mínimo. Os furiosos partiram, com estupidez impressionante, para cima de mim.

Caetano Veloso, Roberto Carlos, Chico Buarque, Milton Nascimento… À sua maneira (Roberto bem menos), foram tomados como “pensadores” do Brasil. E eles são apenas cantores, compositores… É até possível que nem se deem conta do tamanho de sua irresponsabilidade.

Para encerrar
Um tonto afirmou, imaginem só!, que tentei “censurar” (o sentido das palavras anda cada vez mais esvaziado) o discurso de Luiz Ruffato em Frankfurt. Não poderia nem que quisesse. Já foi feito, os ecos já estão em toda parte. Errado! Eu disse que não gostei. Eu o considerei demagógico, desinformado e fora do lugar. Convidaram um escritor para falar e se ouviu a voz, malgrado as suas intenções, de um político equivocado. O problema principal do discurso de Ruffato é que a política saiu rebaixada porque ele não tem um domínio competente do assunto, e a literatura, que é a sua área, perdeu uma chance de se firmar como fala autônoma. A minha restrição nada tem a ver com o viés, se de direita, se de esquerda. Há coisas que não são nem uma coisa nem outra; são apenas erradas e inúteis. De resto, um dos maiores autores de todos os tempos, Paulo (o apóstolo), já disse a coisa definitiva: há o tempo de falar como menino e o tempo de falar como gente grande.

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