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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

A Lava-Jato, infelizmente, está ajudando a consolidar uma farsa

Dilma só bate no peito e diz que não há corrupção no seu governo porque operação, de fato, cria essa ilusão

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 10 fev 2017, 08h45 - Publicado em 21 out 2015, 14h01

O recente embate entre o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e a presidente Dilma Rousseff é uma espécie de síntese da farsa que, infelizmente, a Operação Lava Jato está ajudando a consolidar. Sim, a operação que está revelando descalabros inéditos na administração pública; que detectou uma roubalheira de bilhões da Petrobras, que apontou os tentáculos do grupo criminoso no sistema elétrico e no Ministério do Planejamento — e, por tudo isso, merece aplausos —, essa mesma operação criou a ilusão, até agora ao menos, de que tanto a estatal como o governo federal são vítimas de larápios do mundo empresarial e da política.

Voltemos ao embate iniciado no domingo, na Suécia, quando Dilma afirmou que lamentava o fato de o caso Cunha ter sido noticiado na imprensa internacional porque ele era brasileiro, destacando, adicionalmente, que o parlamentar não integra seu governo. O presidente da Câmara reagiu e afirmou que lamentava o fato de o governo brasileiro protagonizar o maior escândalo do mundo. A petista respondeu, para escândalo da verdade, que seu governo não é acusado de corrupção. Cunha, então, arrematou com uma ironiza, dizendo que, até onde sabia, a Petrobras está sob o comando do governo federal.

É impressionante que Dilma faça tal afirmação. Uma das questões mais graves que estão sob investigação é a denúncia feita pelo empresário Ricardo Pessoa, segundo o qual Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma, aplicou-lhe uma delicada extorsão de R$ 10 milhões —  R$ 7,5 milhões teriam sido efetivamente pagos, na forma de doação legal de campanha. Edinho está no governo Dilma e é um dos seus homens fortes.

A forma como se desenvolveu a Operação Lava jato está vendendo ao país, lamento reiterar, uma farsa: um esquema como nunca se viu teria sido montado e operado por empreiteiros, organizados em cartel, e parlamentares que estão longe de constituir a nata do Parlamento brasileiro. Embora os operadores dentro da estatal fossem divididos segundo cotas partidárias; embora estivessem lá para desviar recursos para legenda da base aliada — e claro está que roubaram também para si —; embora o centro nervoso do PT esteja diretamente envolvido no escândalo, apesar de tudo isso, notem, até agora, NÃO EXISTEM PESSOAS DO EXECUTIVO ENROLADAS NO ESQUEMA.

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Adicionalmente, como consequência da mentira de que tudo nasce da cupidez de empresários dispostos a assaltar o estado, já temos uma decisão absurda do Supremo, que decidiu ser inconstitucional o financiamento de campanhas por empresas. No Senado, há o risco de que seja rejeitada emenda aprovada na Câmara que constitucionaliza a contribuição de pessoas jurídicas.

Muito bem! Digamos que a Lava Jato conseguisse mandar para a cadeia todos os políticos que estão na tal lista de Janot. Digamos que todos os empreiteiros investigados sejam severamente punidos. Digamos que a proposta do Ministério Público, com as tais dez medidas contra a impunidade, seja aprovada… Digamos isso tudo! Onde ficamos? No mesmo lugar! Prontos para detectar, daqui a pouco, um novo escândalo. Até porque a proibição das doações de empresas a campanhas será, ela sim, a mãe de todas as corrupções.

Sairemos, podem apostar, da Lava Jato tendo aprendido muito pouco, demonizando, adicionalmente, o capital privado. Enquanto isso, o estado gigante continuará aí, a assaltar os brasileiros e a destruir o nosso futuro.

É um acinte à inteligência, aos fatos e ao bom senso que Dilma diga, depois de tudo, que seu governo não é acusado de corrupção. E, em certa medida, acusado não é mesmo! A Operação Lava Jato criou a ilusão de que o governo e até a presidente são vítimas de homens maus. É uma piada macabra.

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Sim, é claro que muitos acham divertido ver os ricos em cana, de algemas etc. Mas nós temos de ter um compromisso com o futuro. E, por enquanto, o país está condenado a repetir as mesmas misérias morais. Se Dilma se sente à vontade para bater do peito e arrotar a moralidade do seu governo, há algo de profundamente errado nessa narrativa. E não só com Dilma.

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