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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

A classe dos estúpidos é internacional! Ou: “Ave, Obama, os que vão morrer o saúdam!”

A estupidez até  pode encontrar um terreno fertilíssimo no Brasil e, às vezes, chegar a altitudes inigualáveis. Mas não é uma exclusividade nossa, não! Os idiotas estão soltos e, como lembrou um ex-ministro, perderam completamente a modéstia. Mohamed Morsi, presidente do Egito, teve uma ideia para conter os protestos populares, que entram pelo quinto dia: […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 18 fev 2017, 09h24 - Publicado em 29 jan 2013, 06h35

A estupidez até  pode encontrar um terreno fertilíssimo no Brasil e, às vezes, chegar a altitudes inigualáveis. Mas não é uma exclusividade nossa, não! Os idiotas estão soltos e, como lembrou um ex-ministro, perderam completamente a modéstia.

Mohamed Morsi, presidente do Egito, teve uma ideia para conter os protestos populares, que entram pelo quinto dia: Lei Marcial — instrumento a que recorreu o agora encarcerado e quase morto Hosni Mubarak. Nesses cinco dias, já são 58 os mortos em várias cidades do país. O Ocidente assiste atônito e mudo. Quem é que está na rua agora? Os traídos de sempre das “revoluções islâmicas”: as facções laicas e realmente democráticas que acreditam poder, porque mais racionais e informadas, dar um truque na truculência religiosa. É incrível! EUA e Europa caíram, em 2011 e 2012, na mesma conversa de 1979, com a revolução iraniana. Até o comportamento do democrata da hora que ocupa a Casa Branca foi o mesmo: Jimmy Carter, certamente o mais patético presidente da história americana, puxou o tapete do xá Reza Pahlevi e entregou o Irã a Khomeini. Alguns meses depois, o barbudo de olhar maligno estava matando e esfolando. Barack Obama puxou o tapete de Mubarak e de outros ditadores e entregou o Egito à Irmandade Muçulmana e o Norte da África aos terroristas. Uma obra que vai ficar para a história. E ele o fez com o auxílio luxuoso de um conservador que havia virado socialite, Nicolas Sarkozy, então presidente da França, que perdera o eixo, e de outro conservador meio burrinho, David Cameron, primeiro-ministro britânico.

George W. Bush, o odiado “jorjibúsxi”, diz-se, achava que podia sair por aí derrubando ditadores inimigos. Uma coisa realmente muito feia de fazer e que lhe rendeu o repúdio dos politicamente corretos mundo afora, especialmente no Brasil. Essas mesmas mentalidades, no entanto, acham que os americanos cumprem uma missão civilizadora e civilizatória quando saem por aí derrubando ditadores… amigos. É um jeito de ver o mundo, com o qual não concordo num caso e noutro. A Irmandade Muçulmana, obviamente, deu um passa-moleque nos seus “aliados” ocidentais, e os terroristas levaram a melhor na Líbia — e isso quer dizer levar a melhor em todo o Norte da África.

Mas é muito pequena a possibilidade de ler o óbvio na imprensa brasileira ou estrangeira. O Estadão traz nesta terça um texto estupefaciente, escrito por Jocelyne Cesari, publicado no Washington Post. Ela é pesquisadora sênior do programa “Islam in the West”, do Centro Berkley, da Universidade Harvard.

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Contra os fatos, contra as evidências, dona Jocelyne vê “a firme marcha dos movimentos islâmicos rumo à democracia”. Mas aí ela se sentiu na obrigação de adjetivar um pouco essa democracia. E escreveu esta maravilha: “Entretanto, isso não significa que as transições em curso levarão necessariamente a democracias liberais no estilo ocidental. O mais provável é que estejamos testemunhando a ascensão de democracias iliberais, nas quais o respeito aos resultados eleitorais não significa automaticamente o fim da discriminação com base no gênero ou na religião entre os cidadãos”.

Parece um pensamento original, mas é pistolagem intelectual. Como esses vigaristas se encantaram com a dita Primavera Árabe, assegurando o seu caráter democrático — estupidez na qual este blog nunca caiu —, faz-se necessário agora inventar uma categoria em que encaixar aquele troço. Surge, assim, a “democracia iliberal”, que se resumirá, então, ao “respeito aos resultados eleitorais”. Por esse critério, a Venezuela e o Irã são democracias — “iliberais”, por certo! Como “democracias iliberais” eram alguns fascismos europeus.

Segundo Jocelyne, o verdadeiro teste para esse novo modelo democrático será a persistência do “sistema eleitoral”. Duvido que esta senhora não tenha lido Gramsci. Tendo lido, é mesmo uma farsante. Na hipótese de que não tenha, é uma ignorante essencial. Modelos autoritários, islâmicos ou não, recorrem cada vez mais a eleições para se legitimar. Perceberam que isso é mais eficiente do que as armas. Por intermédio de leis votadas em Parlamentos sob o controle de “partidos populares” ou de “partidos religiosos”, estabelecem as condições da devida desigualdade da disputa. A nova Constituição votada no Egito dá aos religiosos a última palavra até sobre sentenças judiciais. Nas eleições egípcias, membros da Irmandade Muçulmana acompanhavam os eleitores até a urna. E não havia o que fazer — e não haverá.

Jocelyne sente a incontornável necessidade de inventar uma democracia diferenciada para poder justificar as brutalidades do novo regime. Reparem nas consequências práticas de sua tese. Os cinquenta e oito cadáveres, então, que se contam no Egito em cinco dias já são cadáveres da democracia — “iliberal”, é bem verdade, mas democracia ainda assim, segundo esse pensamento. Os mortos de Mubarak eram expressão da truculência. Os mortos de Morsi são consequência do poder popular.

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Sigamos ainda para onde aponta o nariz de dona Jocelyne. Notem que ela é pesquisadora sênior do programa “Islã no Ocidente”. Isso quer dizer que esta senhora vê, certamente, com bons olhos a força crescente dos companheiros de turbante na Europa, por exemplo. Se democracia é democracia, ainda que “iliberal”, é de supor que também os ocidentais acabem, vamos dizer assim, se contaminando com esses novos valores. Se, daqui a 50 anos, a França estiver de burca — e se for isso o que querem as urnas —, fazer o quê?

Esta senhora desidrata a democracia de seu conteúdo e de sua história e a converte num mero sistema de escolha de governantes. Nas democracias iliberais, as maiorias se impõem pelo voto e, se preciso, esmagam as minorias. Nega-se, assim, o fundamento que fez da democracia ocidental um regime realmente acima de qualquer outro que o mundo tenha tentado: o seu valor negativo — vale dizer: a proteção às minorias.

Apontei aqui outro dia que nenhum lobby era tão eficiente e poderoso em escala planetária como o lobby islâmico (na imprensa paulistana, só o do Supercoxinha é mais forte). Eis aí.

É certo que nem tudo é treva e se pode ler ainda o que presta. Na edição de VEJA da semana passada, Mario Sábino, correspondente em Paris, escreveu sobre a necessária intervenção francesa no Mali (em azul):

(…)
Aplaudida pelos aliados, a França, no momento, está como a Estátua da Liberdade: sozinha, com a tocha na mão. Afora as palavras de solidariedade e algum apoio logístico, as nações amigas relutam em formar uma coalizão semelhante àquela que derrubou o ditador líbio Muamar Kadafi na Líbia, em 2011. A crise econômica levou a que todos cortassem na bucha dos canhões e ninguém parece disponível para lutar na África depois da aventura na Líbia, em que a geopolítica deu lugar ao geoproselitismo.
A encrenca no Mali é consequência direta do que ocorreu na Líbia. Ou, em outras palavras, Hollande está limpando o lixo que seu predecessor, Nicolas Sarkozy, deixou que se esparramasse, ao começar uma guerra contra Kadafi na qual o resto do Ocidente embarcou. Na última década, o ditador, um dos mais sanguinários e pitorescos de que se tem notícia mesmo para os largos padrões africanos, conseguiu segurar, a bom preço pago pela Europa, a ação de terroristas islâmicos e os anseios irredentistas dos tuaregues, povo seminômade que se espalha no miolo formado por Argélia, Mali, Níger, Chade, Burkina Faso, Nigéria e, claro, Líbia. Com a queda de Kadafi e a  “primavera árabe” no Magreb, que destituiu tiranos na essência laicos por tiranos muçulmanos só na aparência moderados, os terroristas viram-se à vontade para agir na região adjacente do Sahel — a faixa de terra que se interpõe entre o deserto magrebino (o Saara) e o sul equatorial, com populações já predominantemente negras.
(…)

Volto
Na mosca! A bobagem que as potências ocidentais fizeram e ainda fazem em relação à dita “Primavera Árabe”, segundo a lógica dos fatos, era e é praticamente autodemonstrável. É a marcha da “democracia iliberal”… No caso da Líbia, aí houve a mistura explosiva dos bons sentimentos com a irracionalidade. Obama, Sarkozy e Cameron não viram mal nenhum em que a Otan, ao menos naquele empreendimento, se juntasse aos jihadistas.

Pois é… Dona Jocelyne, a tal, à sua maneira torta, ajuda-nos a entender o mundo. Os autoritários resolveram adotar o método ocidental — as eleições —, mas dispensando os seus valores. Trata-se de um bom modo de eternizar ditaduras. Já os ocidentais à moda Jocelyne fizeram o contrário: começam a admirar os valores dos autoritários. Nessa toada, adivinhem quem  está condenado à derrota.

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Repito para o presidente dos EUA a saudação que se fazia aos Césares: “Ave, Obama, os que vão morrer o saúdam!”.

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