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A AIDS e três leitores que respondem àquilo que não escrevi. Ou: Que tal ler direito antes de dar “socos na cara”?

Um dos dramas do nosso tempo, infelizmente, está na pressa com que as pessoas leem um texto e, pior, na pressa maior ainda com que respondem àquilo que julgam ter lido. Três manifestações de leitores sobre texto que escrevi a respeito da AIDS são uma evidência disso. Responderei  porque, à sua maneira, são emblemas de […]

Um dos dramas do nosso tempo, infelizmente, está na pressa com que as pessoas leem um texto e, pior, na pressa maior ainda com que respondem àquilo que julgam ter lido. Três manifestações de leitores sobre texto que escrevi a respeito da AIDS são uma evidência disso. Responderei  porque, à sua maneira, são emblemas de alguns equívocos.

Publiquei um post que traz a fala de Edward Green, uma das maiores autoridades do mundo no estudo da doença. Ele comenta um fato aparentemente contraditório: em comunidades da África, a ampla distribuição de camisinha acabou resultando numa elevação do número de pessoas infectadas pelo vírus. Como isso é possível? Ele explicou: “O que nós vemos de fato é uma associação entre o crescimento do uso da camisinha e um aumento da AIDS. Não sabemos todas as razões. Em parte, isso pode acontecer por causa do que chamamos ‘risco compensação’. Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, frequentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa”.

Pois bem. Recebi algumas grosserias que devem ser ignoradas. Três comentários, no entanto, merecem destaque. Seguem em vermelho. Comento em azul.

Diz a leitora Brenda Pinheiro:
“Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, frequentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa”.
Deixa eu ver se entendi: Se alguém usar airbags em seu carro, estará na verdade correndo MAIS RISCOS de acidente do que aqueles que não usam?? Aviões que utilizam T-CAS na verdade correm MAIS RISCOS de colidirem com outro avião em pleno vôo?? Limpadores de vidraças de edifícios comerciais que utilizam cintos de segurança, na verdade estão correndo MAIS RISCOS do que aqueles que não utilizam nada para se protegerem de uma queda??
REINALDO AZEVEDO: MAIS UM CATÓLICO PRESTANDO UM DESSERVIÇO À HUMANIDADE!!!

Comento
Brenda, Brenda… Agradeço o seu comentário porque ele me ajuda a manter a temperança. É bom que eu aprenda a controlar os meus impulsos. Não, você não entendeu nada. Mas eu explico.

Começo pelo fim. Se eu lhe pedir que faça o elenco dos males do catolicismo, você certamente não conseguiria tartamudear nada além de preconceito e ignorância — no sentido do “não saber”. Não é uma ofensa. Claro, Brenda! Conheço essa ladainha… É bem provável que você começasse a sua porfia pela Idade Média, a Santa Inquisição… Suaves e humanistas foram todos os impérios não católicos, não é?, antes e depois do advento do cristianismo. Se quiser bibliografia, posso quebrar seu galho. O trecho realmente encantador é este: “Mais um católico prestando um desserviço à humanidade”. Ora, pessoas e convicções que prestam “desserviço à humanidade”, suponho, devem ser eliminadas, não é? A causa seria justa. É o que Hitler pensava sobre os judeus, por exemplo.

Agora quanto ao mérito. É evidente que você não entendeu a afirmação de Green. Quanto mais as pessoas se cercam de segurança em operações de risco, Brenda, melhor. Correr, no entanto, riscos deliberados ou fazer mau uso — e é disso que se cuida — desses instrumentos pode induzir efeitos contraproducentes. É uma regra básica da vida, moça! O cinto de segurança pode salvar vidas. Se alguém passa a exercer direção temerária confiando nas virtudes do cinto, a proteção vira fator de risco.

O que se está a dizer, cara Brenda, é que a simples distribuição de preservativos, sem a direção segura (sacou a metáfora?), não resolve o problema. Ou por outra: sem uma mudança de comportamento (e isso não significa deixar de fazer sexo ou discriminar essa ou aquela práticas sexuais), não só não se atinge o objetivo desejado como pode ser contraproducente. O nome da palavra é “educação”. Entregue carros com cinto, airbag e todos os mais modernos dispositivos de segurança a adolescentes que não estejam dispostos a respeitar as leis de trânsito: você estará fabricando uma tragédia. É praticamente certo que haverá mais mortos nesse grupo do que num outro que conduzisse, dentro da prudência, algumas latas velhas.

A questão de fundo, Brenda, é esta: dispositivos de segurança manejados por imprudentes produzem mais desastres do que os menos seguros nas mãos dos mais sóbrios. Não é o instrumento em si que faz a diferença, mas quem os manipula. Entendeu? Nas questões que dizem respeito a comportamento, então, todo cuidado é pouco. Todos os profissionais de saúde que lidam com a área sabem que a distribuição gratuita de pílulas do dia seguinte — um instrumento de segurança — tem estimulado o sexo sem proteção…

Escreve o Fábio:
O raciocínio é equivocado, novamente pela contaminação com argumentos religiosos. A Suécia é um país que não segue dogmas religiosos, tem uma cultura muito liberal em relação ao sexo e a AIDS é uma doença sem qualquer incidência relevante no país. Quer resolver o problema da AIDS na África? Resolva-se o problema da África (socioeconômico). Invista-se em educação, e não na ignorância! Pregações de dogmas religiosos que só contribuem para aumentar ainda mais a ignorância do povo.

Respondo
Eu não usei um só argumento religioso no texto. Como você sabe que sou católico, apela a uma informação que está fora do artigo para tentar desqualificá-lo. Fosse futebol, seria uma canelada, Fábio. Não conheço os números da Suécia e não sei o que quer dizer “cultura liberal em relação a AIDS”. Estamos de acordo numa coisa: invista-se na educação. Mas suponho que não será possível esperar que se resolvam todos os “problemas socioeconômicos e educacionais” da África para pôr em prática uma política de combate à AIDS.

O que se tem, empiricamente testado, é a tal política ABC de Uganda (fidelidade no casamento, abstinência e uso de camisinha) e as outras que, suponho, você chamaria “liberais”, como a ampla distribuição de preservativos. Num caso, houve uma significativa redução do contágio; no outro, uma elevação.

Atenção, Fábio! Não foi a mão de Deus que operou um milagre, viu? Foram os seres humanos mesmo! À medida que houve uma drástica redução no número de parceiros sexuais e na exposição ao risco, caiu a contaminação. A religião, se entrou, foi só emprestando alguns valores que, no fundo, são éticos (não, Fábio, eu não disse que só os religiosos são éticos). Uganda, no que concerne à AIDS, não prova que a solução está com Deus; prova que a resposta está na mudança de comportamento.

O caso mais complicado é o de José Bonifácio, a quem já respondi na área de comentários. Mas ele insiste em me atacar por aquilo que não escrevi. Vamos ver.

Esse post seu e o do Truvara me deixaram realmente chateados com você Reinaldo, gostaria que você me olhasse na cara e me chamasse de promíscuo, eu iria te dar um SOCO na FACE imediatamente.
Sou soropositivo, isso que você está falando é altamente preconceituoso.
eu sou leitor do seu blog, leio todos os dias, mas isso aqui já esta beirando o ridículo, parece que você está apelando para conseguir mais fama nas redes sociais ( como canais apelativos de televisão que mostram bunda para ganhar audiência). me poupe desses seus comentários antiquados e obsoletos.
espero que você nunca mais escreva nada sobre AIDS aqui, por que como jornalista você é um péssimo médico. e Farei questão de vir aqui comentar quando me sentir ofendido por você, não sou promíscuo, e contrai a doença de uma pessoa que também não é. VOCÊ NÃO TEM A DOENÇA, NÃO É ESTUDIOSO SOBRE O ASSUNTO, NÃO DEVE SABER MUITA COISA SOBRE O ASSUNTO ( PELO QUE ESCREVE) E VEM AQUI POSTAR BOBAGENS.
EU TO ENVIANDO SEU BLOG PARA ALGUNS INFECTOLOGISTas QUE EU CONHEÇO.
Que você nunca tenha esse azar, mas e se sua filha numa relação sem proteção pega o vírus? aí ela passa a ser promíscua? e aquela senhora que teve uma relação com um senhor que nem sabia que tinha aids? VELHA PROMÍSCUA!
Reinaldo, você está sendo mais radical que muita gente por aí. não seja preconceituoso, leia mais e se informe,isso que está faltando.
alias, deixe o assunto para médicos, você fala mal do PT muito bem, limite-se a isso.

Respondo
O José Bonifácio leu tão mal e com tanta pressa o que escrevi que errou até no nome do remédio: é “Truvada”, não “Truvara”. O seu primeiro equívoco é achar que, porque é soropositivo, pode me dar lições sobre o assunto. O segundo é achar que, nesse caso, é preciso ser infectologista para pensar com lógica.

Tudo indica que você conhece as formas de contágio, Zé Bonifácio. É evidente que não escolheu ter o vírus, mas, parece, escolheu correr o risco (bem como seu parceiro ou parceira). Não, não estou dizendo um “você que se vire, ninguém mandou…” Ao contrário: espero que tenha todas as condições para se cuidar e se tratar. Tudo indica que você só está contaminado pela conjugação de duas imprudências: a sua e, antes, a da pessoa com quem você se relacionou.

Isso faz de você um “promíscuo”? Não! Eu sei muito bem o que escrevi. Isto:
“As pessoas que trabalham com saúde pública por aqui, e eu conheço algumas, sabem que a AIDS é majoritariamente, sim, uma doença associada ao sexo promíscuo. Tirem da palavra o conteúdo de censura moral. O ponto é outro: chamo de “promíscua” a prática sexual com vários parceiros, sem restrição ou proteção.”

Sim, senhor! Como você define, José Bonifácio, a “prática sexual com vários parceiros, sem restrição ou proteção”? Na África, rapaz, a AIDS é um flagelo, especialmente entre as mulheres, em razão do sexo promíscuo, sim! Você precisa recorrer mais ao dicionário e menos aos punhos. Houaiss pra você: “Promíscuo = constituído de elementos heterogêneos juntados desordenadamente; misturado, mesclado, baralhado”.

Esse negócio de apelar a filha ou filho, José Bonifácio, achando que assim dá um soco do estômago do outro e o cala para sempre, é uma tolice. Não funciona comigo. AS MINHAS FILHAS SABEM QUE, SE FIZEREM SEXO SEM PROTEÇÃO, MESMO COM PESSOAS CONHECIDAS, ESTARÃO EXPOSTAS AO RISCO DA AIDS E DE OUTRAS DOENÇAS. Se o fizerem, não estarão escolhendo ter o vírus, mas estarão escolhendo correr o risco.  Espero que não o façam. A escolha, agora, é delas. Entendeu o ponto?

Quanto ao caso da mulher que contrai a doença na relação com o marido, eu mesmo escrevi a respeito:
“Exceção feita aos casos de contaminação em transfusões ou em decorrência da infidelidade de um dos parceiros (geralmente o homem) no casamento, fato ignorado pelo outro, a contaminação se dá em razão de uma escolha desastrada.” Como você chamaria essa escolha, a sua inclusive? De “acertada”? Acho que não! Não chamei você ou qualquer outro de “promíscuo”. Não saia distribuindo murros na cara à toa, rapaz! O vírus não torna o seu pensamento nem errado nem certo.

Estima-se em 34 milhões os contaminados no mundo. Uma boa parte está na África, onde o flagelo da doença se mistura ao flagelo da pobreza e da ignorância — também já escrevi isso. Mas há milhões de portadores do vírus em países de economia mais avançada (nesse caso, o Brasil já está nessa categoria), aos quais não faltaram informação, advertência e políticas públicas. “Ah, então são culpadas pela sua doença, Reinaldo?” Não! São responsáveis pela escolha que fizeram. Nem por isso devem ser negligenciadas. Ao contrário: merecem ser tratadas com dignidade. Felizmente, nesse particular, no que concerne à questão médica, o Brasil tem feito um trabalho razoável — já foi melhor.

Na área comportamental, no entanto, o trabalho deixa muito a desejar. A AIDS é tratada como se fosse uma fatalidade, uma decorrência natural do fato de fazermos sexo. E não é! Consideradas as exceções aqui expostas, é uma decorrência de um tipo de sexo: o inseguro — em muitos casos, inseguro e promíscuo.

Faça isto mesmo, José Bonifácio: envie meus textos a infectologistas. Vamos ver onde eles apontam as minhas falhas técnicas. Recomendo a você que leia com mais prudência os textos antes de sair por aí a distribuir socos na cara, ainda que à distância.

PS: Nos comentários, sejam respeitosos com os leitores. Não estou batendo boca com eles. Acho que é um trabalho de esclarecimento.

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