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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

“Polícia sem-vergonha/ seu filho também fuma maconha”. Era a turma da marcha. E a borracha cantou no lombo. Por bons motivos, como se lê!

É preciso, de fato, não me conhecer para achar que me intimido com correntes organizadas para pressionar em favor disso ou daquilo. Se concordo, digo “sim”; se discordo, digo “não”. Eu sou contrário à legalização das drogas, todo mundo sabe disso. A tal “marcha” tinha sido proibida pela Justiça, e o dever da polícia era […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 11h55 - Publicado em 23 Maio 2011, 07h45

É preciso, de fato, não me conhecer para achar que me intimido com correntes organizadas para pressionar em favor disso ou daquilo. Se concordo, digo “sim”; se discordo, digo “não”. Eu sou contrário à legalização das drogas, todo mundo sabe disso. A tal “marcha” tinha sido proibida pela Justiça, e o dever da polícia era impedi-la. Está nas leis. Está na Constituição. Escrevi dois posts a respeito que deixaram algumas pessoas revoltadas (aqui e aqui). Querem um terceiro? Pois não!

Os organizadores, tentando dar um truque na ordem legal, anunciaram que converteriam o ato em favor da maconha na defesa da “liberdade de expressão”. Tratava-se de uma farsa destinada a usar o Artigo 5º da Constituição para cometer um crime. Prometeram à Polícia que as imagens que faziam referência à maconha seriam cobertas. Não foram. Prometeram que não haveria a defesa explícita da droga. Mentiram. E aí?

A apologia do uso de drogas é crime. O Parágrafo 2º do Artigo 33 da Lei 11.343 (lei antidrogas) é claríssimo ao caracterizar o delito e prever a pena, a saber:
§ 2o –  Induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga:
Pena – detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa de 100 (cem) a 300 (trezentos) dias-multa.

Muito bem. Não tenho a ilusão de que esses caras leiam dicionário. Se, para eles, leis e Constituição de nada valem, por que dariam bola para o sentido das palavras? De todo modo, está lá no Houaiss:
“Incitar:
Estimular (uma pessoa ou conjunto de pessoas) a (praticar determinada ação); induzir;  dar conselhos; aconselhar; persuadir; provocar (reação); acirrar; despertar; dar ordem; incentivar; açular.

“Instigar
Estimular; induzir; incitar (alguém a cometer um crime); dar conselhos; aconselhar; persuadir; provocar (reação); acirrar, despertar; dar ordem, incentivar.”

Como se nota, são palavras sinônimas de sentido muito claro. Agora vamos ver alguns dos refrãos da “manifestação em favor da liberdade de expressão”:

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1: “Ei, polícia, maconha é uma delícia”;
2: “Polícia sem-vergonha/ seu filho também fuma maconha”;
3: “Legalize já, legalize já/ uma erva natural não pode te prejudicar”;
4: “Dilma Rousseff,/legalize o beck”

“Beck”, segundo entendi, é o cigarro de maconha. Muito bem! Como é mesmo? “Polícia sem-vergonha/ seu filho também fuma maconha”? Não dá, né? E, nessa hora, a borracha ainda não havia cantado, o spray de pimenta ainda não havia sido aspergido, as bombas de gás lacrimogêneo ainda não haviam provocado tantas emoções.

Existe um certo auê por aí porque, obviamente, políticos que têm essa clientela se metem a defender essas pobres vítimas, e a imprensa, como se sabe, é majoritariamente favorável à descriminação das drogas, além de ser tomada por uma cultura contrária à polícia — sem contar que não é segredo para ninguém que a “catchiguria” não chega a ser exatamente a que reúne os maiores adversários das drogas; deve perder para a dos “artistas”, mas por um ou dois “becks”…

“Polícia sem-vergonha/ seu filho também fuma maconha” para a tropa de choque, que estava na rua cumprindo uma determinação legal e constitucional? É chamar pra briga o cassetete longo com vara curta. Gente honesta, que está trabalhando, acostumada a correr riscos, treinada para viver no perigo, não tem de agüentar esses desaforos, não.

A Justiça havia proibido a marcha, a polícia tinha um dever a cumprir, e o que se viu na rua foi uma clara transgressão ao Parágrafo 2º do Artigo 33 da Lei 11.343. A prática dá cana. Dêem-se por satisfeitos esses patriotas por não terem de ficar de um a três anos em cana, com pagamento de multa.

A turma pró-marcha me sataniza na rede? É um favor! Estamos realmente em campos opostos. No que diz respeito às drogas, eu quero é a criação de uma força-tarefa nacional para conter o flagelo do crack e do óxi, seja combatendo o tráfico, seja atendendo às vítimas. Nesse contexto, uma Marcha da Maconha me lembra, sei lá, um daqueles lupanares romanos de péssima freqüência, pouco antes da chegada dos bárbaros.

PS – A PM diz que vai apurar se houve abusos e coisa e tal. Tudo bem! Tendo havido, eu sou contra, embora eu considere que o refrão “Polícia sem-vergonha, seu filho também fuma maconha” vai além da defesa da liberdade de expressão. Os maconheiros prometem um novo protesto no sábado no vão do Masp. Caso se reúnam pacificamente em defesa da liberdade de expressão, excelente! Se repetirem os mesmos refrãos e portarem os mesmos cartazes, aí acho que se trata de transgressão à lei 11.343. Terão de ser reprimidos de novo. Mas não custa considerar: a melhor maneira de fazer um maconheiro queimar o filme é deixá-lo falar, como dizia Paulo Francis sobre os comunistas.

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