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Raphael Montes
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O lado bom do coronavírus

É difícil, mas necessário, extrair ensinamentos da situação atual

Por Raphael Montes - Atualizado em 22 mar 2020, 15h08 - Publicado em 20 mar 2020, 06h00

O coronavírus chegou ao Brasil, e é o único assunto possível nesta semana. Talvez neste mês. Neste ano? É impossível prever o alcance dos danos que a pandemia ainda causará no país e no mundo. Na cultura, os impactos já são enormes: começou com o cancelamento ou adiamento de importantes feiras culturais e de negócios, como a Feira do Livro de Paris, de Londres, a Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, a Art Basel Hong Kong, e de shows e festivais de música, como o Coachella e o Lollapalooza. Agora, cinemas e teatros estão fechados, shows da Broadway foram suspensos, filmagens e lançamentos de filmes e séries estão adiados — até as novelas da Globo foram afetadas. Na Europa, museus e monumentos históricos também não abrem mais. No mercado global, a perda no setor de entretenimento está na casa dos 5 bilhões de dólares.

Especialmente no Brasil, a cultura é uma das áreas que mais sofrerão. Afinal, cinemas, shows e museus pressupõem aglomerações. O esvaziamento dos palcos, livrarias e cinemas vai afetar todo um grupo de trabalhadores já tão vilipendiados pela ausência de políticas públicas e pela guerra ideológica travada pelo atual governo. Tudo isso me preocupa, e muito. Já foi dito que o papel da ficção é justamente colocar “pessoas ordinárias em situações extraordinárias” e ver como se comportam. Daí os filmes-catástrofe e livros como A Peste, de Albert Camus, e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, cujas vendas cresceram exponencialmente diante da pandemia. Antes da realidade, cabe à literatura e às artes visuais projetar atitudes humanas e consequências sociais diante de uma grave crise.

“Podemos sair engrandecidos da pandemia, como seres humanos, como sociedade. Só depende de você”

Em situações-limite, caem as máscaras e revelamos nossa verdadeira face. Agora, de onde escrevo, tenho mesmo a impressão de ter mergulhado em uma ficção que só vem revelando o pior lado de seus personagens. Nos mercados, as prateleiras estão vazias, e as pessoas estão estocando comida, papel higiênico, álcool em gel. Em São Conrado, no Rio, um casal com coronavírus obrigou a doméstica a continuar trabalhando. Muitos confundem quarentena com feriadão, e praias, bares e restaurantes seguem lotados. Igrejas e academias ainda recebem seus fiéis. O egoísmo impera. E a ignorância também.

“Onde está o lado bom?”, você me pergunta. Realmente, há que fazer um esforço para enxergá-lo. Em meio ao caos, torço para que o coronavírus nos sirva de lição — dolorosa, sem dúvida, mas transformadora. Que seja uma chance de valorizarmos os serviços públicos de saúde, e cobrarmos isso dos governantes. Que seja uma oportunidade de exercer a solidariedade e a empatia, pensar no outro, no vulnerável, não só em si mesmo. Na Itália, o lema é: “Jovens, seus avós foram para a guerra. A vocês, só pedimos que fiquem em casa”. A agitação da vida cotidiana — reuniões, festas, prazos — está suspensa. É tempo de se isolar, refletir, buscar o autoconhecimento, aproveitar o silêncio, ler mais, repensar escolhas, imaginar. Lave bem as mãos, não saia de casa, proteja seus pais e seus avós. Cuide-se para cuidar de todos. Cobre dos demais essa responsabilidade. Apesar dos pesares, podemos sair engrandecidos da pandemia, como seres humanos, como sociedade. Só depende de você.

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Publicado em VEJA de 25 de março de 2020, edição nº 2679

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