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Raphael Montes

O alienado

Uma modesta proposta de ficção para a quarentena

Por Raphael Montes - Atualizado em 17 abr 2020, 09h45 - Publicado em 17 abr 2020, 06h00

As crônicas brasileiras dizem que em tempos recentes viveu cá um certo empresário e homem de negócios, o Sr. Hambúrguer, sujeito de lógica inescrutável e porte atlético. Primeiro com desconfiança, depois com preocupação, nosso herói acompanhou a escalada do vírus comunista que cruzava o mundo para vir atrapalhá-lo logo ali, em seus inadiáveis negócios. Diariamente, a imprensa trazia números alarmantes, mas o Sr. Hambúrguer, dotado de conhecimento empírico e autoconfiança agigantada, enxergava as mentiras, as conspirações e preferia seguir as mensagens recebidas nos seus grupos de “zapzap”, fonte ilibada de notícias.

Não havia razão para crer na OMS, no velhote pontífice do Vaticano ou na velhota do Reino Unido. Só podiam estar loucos os que insistiam em quarentena, que mandavam fechar o comércio e ficar em casa os consumidores. Só podiam estar loucos os prefeitos e governadores que falavam em lockdown e os empresários que obedeciam! Era absurdo, exagero! Deus criou as coisas para ser como são. O Brasil funcionava por mecanismos próprios.

“A imprensa trazia dados alarmantes, mas o Sr. Hambúrguer só enxergava mentiras e conspirações”

Já não bastavam a cotação do dólar e a fortuna que ele vinha perdendo em ações? Falavam em dignidade… Mas onde ficava a dignidade dele, forçado a passar os dias em sua cobertura? Pior, defendiam a ideia de que ele deveria arcar com o salário dos que fritavam hambúrgueres, anotavam pedidos e limpavam mesas em seu estabelecimento. Ele não tinha caixa para tanto! Havia gastado tudo na casa da praia, na casa da serra e em novos investimentos. Nem por um instante o Sr. Hambúrguer fraquejou. Não daria ouvidos a disparates. Como não acreditava que o mundo dá voltas — afinal a Terra é plana —, resolveu tomar as próprias medidas. Numa manhã, reuniu os funcionários e informou que abririam normalmente. Surpresos, mas temendo a demissão, o gerente, os cozinheiros e os garçons trabalharam. No fim do expediente, o Sr. Hambúrguer avisou que ninguém voltaria para casa. Ficariam ali, dormiriam na despensa. Para ajudar no convencimento, mostrou sua espingarda recém-adquirida. Depois de tanto fazer arminha com as mãos, comprara uma de verdade.

Os funcionários da noite chegaram e estranharam a presença dos demais, mas logo souberam que também ficariam ali, trabalhando sem parar, para o bem de todos. Apesar de tais atitudes, o terror se acentuou. O movimento rareava, os consumidores estavam em casa. Foi então que, impelido pela mais boa intenção, o Sr. Hambúrguer proibiu os clientes de abandonar a lanchonete. Quem entrasse ali ficaria até a situação voltar ao normal. Enquanto isso, deveria consumir sem parar. Mais hambúrguer e batata frita e refrigerante. Os clientes dormiam no chão, nas mesas ou nas cadeiras.

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Um senhor rebelde que havia passado só para um lanche com a netinha e já estava ali fazia três dias avançou contra o Sr. Hambúrguer. Munido de argumentos vãos como saúde, democracia e liberdade, o senhor tentou criar uma revolução. Não restou alternativa ao Sr. Hambúrguer senão atirar no sujeito diante de todos. Mais tarde, com calma, o empresário explicou que o falecido passava dos 80 anos. Não fazia mal deixar para trás. A Hamburgueria não podia parar. O Brasil não pode parar!

Publicado em VEJA de 22 de abril de 2020, edição nº 2683

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