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Paulo Cezar Caju Por Paulo Cezar Caju O papo reto do craque que joga contra o lugar-comum

Evaristo de Macedo, o ‘herói imaginário’ que tive o prazer de conhecer

Uma das grandes felicidades que o futebol me proporcionou foi a de conhecer pessoalmente o craque do Flamengo, Barcelona, Real Madrid e da minha infância

Por Paulo Cezar Caju - Atualizado em 22 jun 2020, 20h15 - Publicado em 22 jun 2020, 20h11

Vi Pelé jogar. Garrincha, Cruyff, Maradona também. É fácil se fascinar por esses personagens quando somos testemunhas de suas obras-primas. Ninguém te contou, você viu, jogou contra ou a favor, ou assistiu pela tevê ou da arquibancada. Mas o que me encanta de verdade é quando os ídolos são construídos em nossos imaginários baseados em relatos e leituras. Evaristo de Macedo, o aniversariante do dia (completou 87 anos nesta segunda 22), foi um desses.

Nunca vi Evaristo jogar, mas as histórias sobre ele eram fantásticas. Marinho, meu pai, sempre falava com amigos sobre seus feitos e de quando iniciou a carreira no Madureira. Sob o comando do paraguaio Fleitas Solich, o Flamengo foi tricampeão carioca, 1953/54/55, e o nome de Evaristo era o mais comentado nas rodas: “Imaginem esse homem junto de Pelé”. Evaristo fez 103 gols em 190 jogos pelo Flamengo. É gol pra chuchu!!! Realmente seria mágico ver Pelé e Evaristo juntos, mas o Barcelona desfez esse sonho e o contratou.

Evaristo de Macedo, ídolo do Barcelona Barcelona/Divulgação

Na seleção brasileira, não jogou muitas vezes e mesmo assim ostenta um recorde: é o único jogador a marcar cinco gols no mesmo jogo com a camisa verde e amarela, em 1957: Brasil 9 x 0 Colômbia. Ver Evaristo e o Rei juntos, na Copa de 58, seria mágico, mas o clube espanhol não o liberou. Também pudera, Evaristo fez chover na Espanha! Conseguiu ser ídolo de Barcelona e Real Madrid, rivais históricos. Pelo Barça, ganhou dois espanhóis e duas Copas da UEFA e está entre os três maiores artilheiros do Barcelona. Pelo Real, três espanhóis seguidos, 1963/64/65.

Mas o destino é imprevisível e sabem em quais circunstâncias vi, pela primeira vez, meu “herói imaginário”? Aos 17 anos, em minha estreia como profissional, pelo Botafogo, no Maracanã, contra o América, decisão da Taça Guanabara de 1967. Meu técnico, Zagallo. O do América, Evaristo. Resultado final: Botafogo 3×2, três gols meus. E como imaginar que Zagallo me convocaria para a Copa de 1970 e seríamos tricampeões mundiais?

A partir desse jogo comecei a acompanhar a carreira de Evaristo como técnico. Por pouco, muito foi pouco, não foi o treinador da seleção brasileira, na Copa de 1986. A imprensa paulista batia de frente com ele. Pelo que me lembro, exigiam a convocação de Sócrates e ele resistia. Entrou Telê. Quem garante que Evaristo não seria campeão? Nessa mesma Copa, Evaristo treinou a seleção do Iraque.

Evaristo Macedo foi técnico da Seleção Brasileira em 1985 Rodolpho Machado/Placar

Mas foi campeão brasileiro pelo Bahia, em 88, e pelo Grêmio, na Copa do Brasil, em 97. É considerado o maior técnico da história do Santa Cruz, rodou o Brasil, o mundo, papou títulos por onde passou e é um dos grandes contadores de histórias do futebol. Em uma delas barrou Cláudio Adão, no Bahia, que ficou na bronca e prometeu forra. Tempo depois, em Ipanema, Evaristo olha para frente e vê Claudio Adão vindo em sua direção. Mudou de calçada rápido, afinal encarar Cláudio Adão não seria bom negócio, mas tudo terminou em boas gargalhadas.

Uma das grandes felicidades que o futebol me proporcionou foi a de conhecer pessoalmente um “ herói imaginário” da minha infância, Evaristo de Macedo, uma lenda em carne, osso e um coração gigante. Mudando o assunto, assisti ao jogo do Real Madrid ontem e fui obrigado a ouvir o comentarista falando de “leitura de jogo”. Até quando? Futebol não se lê, se joga!

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