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Não dá para sair de fininho da intervenção no Rio

A poucos meses do encerramento formal, o governo Temer já morreu - e para ele o fracasso da intervenção no Rio é apenas mais um.

Por Helena Chagas 16 ago 2018, 14h00

Entre os cada vez mais raros defensores da intervenção federal na segurança do Rio, há quem diga que a situação estaria pior se a medida não tivesse sido decretada. Como em todas as versões situadas no futuro do pretérito, jamais saberemos. O certo é que, seis meses depois, continua tudo muito ruim, e brutal a insegurança da população, entre balas perdidas e achadas. Sob esse ponto de vista, a intervenção militar no Rio acabou sendo exatamente o que se imaginava: uma jogada de marketing fracassada, que serviu politicamente para que o Planalto não expusesse a falta de votos para aprovar a reforma da Previdência e falhou redondamente no propósito de usar o tema da segurança para contornar sua impopularidade.

E agora? Agora, salve-se quem puder. A poucos meses do encerramento formal, o governo Temer já morreu – e para ele o fracasso da intervenção no Rio é apenas mais um. Outros personagens do governo e das instituições envolvidas na operação, porém, lutam para livrar as próprias caras das consequências do passo errado, de preferência jogando a responsabilidade no colo do vizinho.

Não deve ter outro sentido, por exemplo, o oferecimento do ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, para federalizar agora, cinco meses depois, as investigações sobre a execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes. Na verdade, a Policia Federal, que o ministro diz querer colocar no comando da investigação, já está no caso desde o início, com a Polícia Civil do Rio, sob a supervisão das forças militares da intervenção.

Por isso, tanto o Exército quanto a Polícia estranharam – e recusaram – a oferta, evidentemente uma esperteza do antes de tudo político Raul Jungmann. A elucidação desse crime é emblemática, e poderia até, quem sabe, salvar aos 45 minutos do segundo tempo a imagem da intervenção no Rio. Só que, até agora, nada. Ao oferecer publicamente ajuda à Polícia Civil e aos interventores militares, Jungmann se coloca fora da situação, como se não tivesse nada a com isso, ou com o que (não) aconteceu até agora.

Mais: se o crime continuar sem solução, a responsabilidade aparente é de quem, além de não resolver, ainda recusou a ajuda da PF – muito embora, como se sabe, a federalização vá fazer pouca diferença, pois as forças já estão trabalhando juntas. Ao mesmo tempo, se porventura chegarem aos assassinos de Marielle – que parecem ser ou estar ligados a altas figuras da política do Rio -, sempre se poderá dizer que foi também uma vitória da intervenção decretada pelo governo federal.

O episódio deixou um clima de mal-estar entre as autoridades que cuidam da intervenção no Rio. Os militares, que lá chegaram de surpresa, no improviso e sem vontade de assumir a missão, perceberam que vão acabar pagando a conta por uma jogada engendrada pelos políticos – que agora tentam sair de fininho…

 

Helena Chagas é jornalista desde 1983. Exerceu funções de repórter, colunista e direção em O Globo, Estado de S.Paulo, SBT e TV Brasil. Foi ministra chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (2011-2014). Hoje é consultora de comunicação

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