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Lula trabalha para sr o anti-Bolsonaro (por Helena Chagas)

Farejou a direção do vento

Por Helena Chagas Atualizado em 11 mar 2021, 01h34 - Publicado em 11 mar 2021, 11h00

O ex-presidente Lula foi guindado à condição de principal adversário de Jair Bolsonaro para 2022 mal o ministro Edson Fachin anunciou a anulação de suas condenações – e antes mesmo de proferir uma só palavra a esse respeito. No pronunciamento-entrevista de ontem, apareceu com cara de candidato, pinta de candidato, discurso de candidato. Em sua melhor forma, acenou ao centro, disse que está disposto ao diálogo com todos, inclusive setores conservadores, e virou a página das mágoas pelos 580 dias de cadeia e outros sofrimentos. Mas Lula recusou a condição explícita de candidato, insistindo em deixar o tema eleitoral para depois. Focou naquilo que hoje mais aflige os brasileiros: a pandemia, a vacina, as mortes, o desemprego que deixa as pessoas com fome e, claro, a incompetência de Jair Bolsonaro.

Segundo o ex-presidente, o importante é que as forças progressistas percorram o país para ouvir o povo e discutir solução para os problemas. Ele deixou muita gente se perguntando por que não aproveitou o momento de vitória para assumir, ou ao menos admitir, que disputará, sim, a presidência contra Bolsonaro?

Porque Lula farejou a direção do vento, que não sopra a favor de candidaturas nesse momento. Sabe que é um escárnio com a dor e o sofrimento da população ver as principais lideranças políticas do país voltarem suas energias para disputas políticas e eleitorais, enquanto morrem quase duas mil pessoas de covid-19 por dia. Percebe que é um desrespeito pisar em palanques, ainda que simbólicos ou virtuais, quando a vacinação anda a passos lentos porque não há doses para todo mundo

Acima de tudo, a estratégia claramente escolhida por Lula é, nesse primeiro momento de “não-candidatura”, ser o contraponto de Bolsonaro – o presidente que há tempos está em campanha e sai pelo país a inaugurar obras e festejar com simpatizantes, pouco ligando para a pandemia, a vacina, as UTIs, etc. De máscara, passando álcool gel e se solidarizando com os cidadãos contaminados e os que perderam seus parentes, o ex-presidente trabalha para preencher um vazio deixado por aquele que é, de direito, o chefe da nação.

Quem conhece o governo sabe que serão inúmeros os outros temas em que Lula terá argumentos para construir sua imagem do anti-Bolsonaro, a começar pelo desemprego e pelo retorno da fome. O baixo valor do novo auxílio emergencial também vai para a lista. Quem conhece o presidente candidato, sabe que ele não vai resistir a provocações. Ontem mesmo, logo após a entrevista de Lula, Bolsonaro fez solenidade no Planalto, de máscara, para sancionar a lei que viabiliza a compra das vacinas da Pfizer e da Janssen. E discursou defendendo a compra dos imunizantes. Vai lutar no território em que se vê ameaçado, e se isso resultar em benefícios para o país, Lula já terá cumprido um papel importante.

Está aberta a temporada. Tudo indica que a presidência da República será daquele, em 2022, conseguir preencher o vácuo de liderança e a sensação de orfandade que tomou conta do Brasil.

Helena Chagas é jornalista

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