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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Lula, pintinhos e gambás

Como Lula vai explicar

Por Mary Zaidan Atualizado em 30 jul 2020, 20h10 - Publicado em 11 nov 2018, 08h00

O bicho é pesado como um elefante, tem cor de elefante, patas de elefante, tromba de elefante, mas Lula dirá que é um pássaro. Na quarta-feira, 14, quando volta a depor na 13ª Vara da Justiça Federal do Paraná, o ex-presidente insistirá em que o sítio de Atibaia não é e nunca foi dele – embora tudo, absolutamente tudo, demonstre o contrário.

Assim como no processo do triplex do Guarujá, pelo qual foi condenado a 12 anos e um mês, Lula também é acusado por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do sítio. Mais de R$ 1 milhão desviado da Petrobras teria sido utilizado pela Odebrecht e OAS para adequar o sítio às necessidades do presidente e de sua mulher, Marisa Letícia, morta em fevereiro do ano passado, antes de a denúncia ser oficializada pela força-tarefa da Lava-Jato.

A peça, com 168 páginas, resume boa parte dos achados da operação em diferentes níveis, incluindo propinas para políticos do PT, PP e PMDB. Explica como funcionava o caixa paralelo do governo e os das duas empreiteiras. Cita transações envolvendo os codinomes de Lula – Brahma para Léo Pinheiro da OAS, e Amigo, para Marcelo Odebrecht – e o sofisticado esquema de coleta e distribuição dos ilícitos. E expõe um conjunto de provas de que Lula e sua família eram os únicos a usar o sitio, a dar ordens aos trabalhadores e a decidir por compras e reformas.

Alguns trechos são hilários. E-mails sobre tudo remetidos para a Fundação Lula, incluindo fotos de animais e de pedalinhos. Outros de funcionários públicos que prestavam serviços ao ex relatando ocorrências, a exemplo da notificação de um de seus seguranças: “Botão pânico, foi acertado com o Fábio que seriam 03 (três), sendo duas na casa do PR e uma na casa dele”. Recibos de rotas de pedágios dando conta de que carros de Lula fizeram o percurso São Bernardo-Atibaia-São Bernardo por 270 vezes entre 2011 e 2016.

Como Lula vai explicar a singeleza do e-mail que o caseiro Maradona enviou à Fundação em abril de 2014, dando conta de que “morreu mais um pintinho e caiu dois gambá nas armadilhas”? Mais do que o português ruim, outra mensagem, desta vez dirigida a Fernando Bittar em maio de 2015, aponta quem é o verdadeiro dono: “colocaram a venda aqui um sítio visinho do presidente”.

Bittar, sócio de Fábio Luis Lula da Silva na G4, empresa de games, é um dos proprietários formais do sítio. O outro é Jonas Suassuna, também parceiro de Lulinha na BR4 Participações. Os dois teriam adquirido duas propriedades anexas – os sítios Santa Bárbara e Santa Denise – no mesmo dia, em uma transação formalizada pelo compadre e advogado de Lula, Roberto Teixeira, dois dias antes da vitória de Dilma Rousseff no segundo turno das eleições de 2010.

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As plantas de reforma, incluindo espaços generosos para guardar objetos vindos de Brasília, uma ampla adega, estação de tratamento de água e sauna foram encontradas em uma pasta da ex-primeira-dama dentro do sítio. Nos armários, roupas de Lula e Marisa, cremes de manipulação com nome dela. E nenhum pertence dos proprietários de papel. Nada, nadica.

Como só trata de corrupção relacionada à Petrobras, a Lava-Jato não incluiu no documento um outro mimo: a gigantesca antena que a operadora Oi (também citada em rolos de Lulinha) instalou em 2011 a 300 metros da propriedade. Conhecida pelos vizinhos como a “torre do Lula”, a Estação Rádio Base conectou o sítio ao mundo, mas não fortaleceu o sinal para além dele.

Apresentada pelo MPF em maio de 2017, a denúncia foi aceita pelo juiz Sérgio Moro em agosto deste ano, mas ele preferiu adiar as oitivas dos acusados – além de Lula há outros 12 – devido ao processo eleitoral. Com a saída de Moro para o governo Jair Bolsonaro, a arguição agora será feita pela juíza substituta Gabriela Hardt, tida por colegas como mais dura do aquele por quem Lula e os seus cultivam ojeriza máxima.

Em apenas uma semana, Gabriela negou um pedido de adiamento da audiência feito pela defesa de Lula, já ouviu os Odebrecht – o filho Marcelo e o pai Emilio -, e Pinheiro, da OAS, também réus, que confirmaram a denúncia.

Será a primeira vez que Lula sairá da sede da Polícia Federal de Curitiba, onde está preso desde abril. E, de acordo com o tom que vem sendo mantido por seus advogados, o fará para negar qualquer acusação e repetir ser o homem mais honesto do planeta. Difícil será esconder o elefante.

 

Mary Zaidan é jornalista. E-mail: zaidanmary@gmail.com Twitter: @maryzaidan 

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