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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Governos em tempos sombrios (por Roberto Brant)

Os números da pandemia

Por Roberto Brant Atualizado em 30 jul 2020, 18h48 - Publicado em 23 jul 2020, 11h00

Já citei aqui um antigo senador americano que dizia que todas as pessoas têm direito à própria opinião, mas não o direito aos próprios fatos. Repito a citação porque nos últimos tempos muita gente faz questão de ter os seus próprios fatos. Isto torna difícil o diálogo e a compreensão das coisas que acontecem.

Na ausência de consenso as grandes questões sociais não se resolvem e os governos não funcionam. O enfrentamento da pandemia é um bom exemplo da diferença que faz a capacidade de os governos alcançarem consensos mínimos diante dos grandes problemas.

No leste da Ásia o vírus chegou primeiro, e de surpresa, quando nada ainda se conhecia dos seus sintomas, de sua evolução e dos tratamentos possíveis. Em todos eles, começando pela China, mas em seguida também em países democráticos como a Coréia do Sul, o Japão, Cingapura e em Taiwan, o surto foi tratado como uma questão sanitária, não política.

Os governos conduziram a reação com base na evidência científica. Aplicaram medidas de isolamento e de distanciamento social, sem grande oposição dos interesses afetados e construíram, com rapidez, a infraestrutura de emergência necessária. O resultado é que em todos eles, com a cooperação da sociedade, a pandemia foi controlada com um número mínimo de mortes e as economias estão em recuperação.

Em alguns países da Europa e das Américas a história foi diferente. Na Itália, nos Estados Unidos e também no Brasil, a primeira reação dos governos foi negar a gravidade da doença, politizando uma questão sanitária.

Em seguida, foi alimentada uma resistência política às medidas de isolamento social, para poupar danos à economia e à popularidade dos governos. O vírus se viu finalmente livre para propagar-se e para matar, depois de sua derrota na Ásia.

Os números da pandemia nesses dois grupos de países falam por si. Até agora na China, com mais de um bilhão de habitantes, o total de infectados é de 86 mil e de mortes, 4.624, conforme dados das autoridades chinesas. Se alguém quiser duvidar desses dados, pode olhar o que se passou com seus vizinhos.

No Japão os infectados somaram 23 mil e as mortes 982; na Coréia do Sul os infectados foram apenas 13 mil e as mortes 289. São países também populosos e com governos democráticos. A doença perdeu para a boa governança e a cooperação da sociedade.

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Enquanto isso, nos Estados Unidos, após meses de seu início, a pandemia continua devastadora. O total de infectados chega a 3,5 milhões e, de mortos, 136 mil. Na semana passada 75 mil novos casos eram registrados por dia, com a média de mil novos óbitos.

No Brasil, apesar de o governo federal negar continuadamente a gravidade do problema e de manter-se há dois meses sem ministro da Saúde, com o ministério entregue a uma maioria de amadores, os casos já ultrapassam os dois milhões e as mortes, 75 mil, com 44 mil novos casos a cada dia.

Com apenas 2,7% da população do mundo, o Brasil já acumula 14% dos casos da doença e 12% de todas as mortes registradas. O vírus é o mesmo, diferentes são os governos.

É claro o que nos tornou diferentes, o Brasil e os Estados Unidos: a má qualidade da governança pública. Governos só conseguem cumprir sua função de governar com a cooperação da maioria da sociedade. Nenhum instrumento legal ou de força é capaz de substituir a concordância dos cidadãos. Os antigos regimes totalitários da Rússia e do leste europeu tinham à sua disposição o máximo da força e do terror, mas fracassaram em todos os campos.

Todos os governos, além dos votos nas urnas, precisam de concordâncias mínimas na sociedade. O lugar em que essas concordâncias podem existir não é no ar infeccionado das redes sociais. Consensos não se formam espontaneamente pois os grupos humanos que constituem uma nação podem ter visões e interesses diferentes. Controlar os maus instintos e conciliar as diferenças em benefício de propósitos comuns é a tarefa suprema dos grandes lideres e da grande política.

Quando os teremos entre nós?

 

 

Roberto Brant foi deputado federal constituinte por Minas Gerais, secretário de Fazenda no governo Hélio Garcia em Minas, ministro da Previdência e Assistência Social do governo de Fernando Henrique Cardoso. Preside atualmente o Instituto CNA. Escreve nos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas. ⠀

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