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Desafio para poucos

Alvim e Regina Duarte não são duas faces de uma mesma moeda

Por Hubert Alquéres - Atualizado em 22 jan 2020, 16h24 - Publicado em 22 jan 2020, 11h00

Em sua guerra contra o marxismo cultural Jair Bolsonaro sempre dobrou a aposta quando se viu emparedado. Exemplo mais emblemático foi a substituição de Ricardo Vélez Rodrigues por Abraham Weintraub. Em todos os embates no interior do governo o presidente pendeu para seu núcleo ideólogico, como aconteceu nas quedas de Gustavo Bebianno e do general Santos Cruz. Essa rotina foi interrompida agora com a degola de Roberto Alvim da Secretaria da Cultura e sua substituição pela atriz Regina Duarte.

Alvim e Regina não são duas faces de uma mesma moeda. Há entre eles diferenças substantivas. A começar pela história de vida da atriz, militante da campanha das diretas em 1984, da eleição de Tancredo Neves em 1985 e em apoio à José Serra para presidente em 2002. Esteve ainda na linha de frente na luta contra a censura, quando o regime militar vetou a novela Roque Santeiro, que anos depois viria protagonizar ao lado de Lima Duarte.

Com o passar do tempo, a atriz, que também desempenhou papel fundamental na luta pelos direitos da mulher no seriado “Malu Mulher”, assumiu uma posição mais conservadora e apoiou a candidatura de Bolsonaro. Isso não a transforma em inimiga da democracia. Muito menos da Cultura. Há menos de dois meses reconheceu a variedade cultural do país como um traço positivoe afirmou em entrevista que “a arte não pode ter ideologia”. Bom sinal.

Conta a seu favor a intenção de pacificar a cultura, dilacerada pela guerra da qual Roberto Alvim foi seu capitão do mato. Por historicamente ter compromisso e ser representativa da área, há uma expectativa positiva diante de sua indicação para o cargo. Seu nome granjeia respeitabilidade e simpatia.

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Não está em questão a coragem de Regina Duarte. O problema é que isto não basta.  A questão é saber se conseguirá imprimir um novo rumo ao setor, que vá além de uma relação menos beligerante com o mundo cultural.

O governo Bolsonaro já deixou claro em palavras e atos que tem um projeto para a cultura, assim como para a educação. Ele parte do princípio de que a pátria está em decadência e que é preciso reconstruí-la por meio de uma guerra contra o “marxismo cultural”. Esse projeto se assemelha muito à “reforma patriótica” recente de Victor Orban, na qual o primeiro ministro da Hungria impôs sua visão do “nacionalismo-cristão” à educação e à cultura.

O eixo cultural de Bolsonaro tem muito em comum com outros projetos totalizantes, nos quais a cultura é erigida a política oficial de Estado. Esta instrumentalização – à serviço de um projeto de poder – aconteceu na Alemanha de Hitler, na União Soviética de Stalin e na Revolução Cultural da China. Todos se propuseram a criar uma “nova cultura” como alternativa à “arte degenerada”. O discurso do presidente de uma pátria e cultura decadentes vai na mesma toada.

Bolsonaro continua querendo uma cultura oficial, nacional, cristã e heróica. Mas se viu acuado, momentaneamente, diante da resiliência dos freios e contrapesos da democracia brasileira, da repercussão internacional e da condenação quase unânime do vídeo no qual Roberto Alvim psicografou Joseph Goebbels. O presidente “sacrificou” Alvim para preservar sua política.

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Terá Regina Duarte força e estatura suficiente para alterar os pilares da política cultural do bolsonarismo?

Difícil crer. É inegável que a atriz tem luz própria. Sérgio Moro, Paulo Guedes, Tereza Cristina e Tarcísio Gomes também têm e muitos acreditavam que este seria um grupo de ministros cujo bom senso e preparo sempre enquadraria o presidente. Como é da lógica da política, o presidente foi quem enquadrou muitas vezes este grupo. O risco é de acontecer o mesmo com a futura secretária da Cultura.

(*) Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, do Conselho Estadual de Educação e da Câmara Brasileira do Livro. Escreve toda 4ª feira no Blog do Noblat.

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