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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Cidades seguras: ovos e serpentes da nova era (por Felipe Sampaio)

Fragilização da democracia, desmoralização das instituições

Por Felipe Sampaio Atualizado em 18 jan 2021, 02h04 - Publicado em 18 jan 2021, 11h00

Quando Bergman e Dino De Laurentis se uniram para realizar ‘O Ovo da Serpente’, possivelmente imaginaram oferecer um manifesto de alerta aplicável a todos os povos e épocas.

Queriam demonstrar, em 1977, que toda cobra que algum dia picou a sociedade nasceu de um ovo chocado pacientemente por grupos de interesse, com a tolerância ignorante das pessoas e instituições.

O filme ilustra tais perversões sociais situando o drama na Alemanha pré-nazista dos anos 1920. A seita política nacional-socialista era, então, uma mistura de embrião e caricatura de réptil – com comportamento colérico e estética extravagante.

Nas sociedades é assim. Retrocessos sucedem avanços em ciclos históricos com intensidade e duração variáveis. Cada lugar e cada momento carregando seus próprios fatores e efeitos.

No Brasil, onde a grande maioria da população vive em cidades, é de se esperar que tenhamos nossas espécies urbanas de ofídios subculturais, em estado de gestação latente, cujos ovos começam a eclodir assim que alguém aciona suas incubadoras.

Quando isso acontece, é como abrir as gaiolas de um Butantan ideológico. Todo tipo de valores e atitudes peçonhentos ganha as ruas e, como as serpentes, hipnotizam algumas pessoas e envenenam outras.

Os cidadãos e cidadãs em geral são presas fáceis da sedução e das picadas letais dessas ideias rastejantes que se apresentam sob as mais diferentes camuflagens.

Algumas cobertas por escamas conhecidas, como os neonazistas, skinheads, supremacistas brancos, armamentistas, patriotas e machistas. Outras, mais inventivas, autoproclamam-se tribalistas masculinos, filhos da luz, mensageiros da quinta dimensão, irmãos galáticos e outras figurações tragicômicas.

Todas rompendo as cascas de seus ovos e escorregando disfarçadamente entre grupos nas redes sociais, fantasiadas de pseudo-naturalismo, terraplanismo, falso espiritualismo ou qualquer filosofância quântica.

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Fica difícil saber quem nasceu primeiro, o ovo ou a serpente. Todos, porém, no final das contas, revelam-se racistas, moralistas, misóginos, homofóbicos, fascistas, oportunistas e, não raro, estelionatários.

Como toda serpente ideológica com discurso extremista, seja de caráter político, religioso, ou mesmo esotérico, seus ovos preferidos acabam sendo os dourados. As serpentes dos ovos de ouro atuais usam as redes sociais para faturarem alto com o patrocínio publicitário, obtido com o engajamento de seguidores nas plataformas digitais.

Muitas vezes, pedem aos leitores doações para a causa, enquanto os convocam para formarem correntes de energia e manifestações em apoio aos ‘guias da nova era’, como ocorrido no Capitólio norte-americano.

Incitam a aversão aos culpados de sempre pela ‘decadência humana’, como cientistas, ambientalistas, gays, comunistas, negros, políticos, mulheres e o Papa Francisco.

O resultado desse balaio de cobras é a fragilização da democracia, a desmoralização das instituições, o aumento da violência, as agressões de gênero e raça, a mediocrização do convívio e a degradação do desenvolvimento humano.

Entre ovos e serpentes, mais uma vez os prefeitos têm papel fundamental, ao implementarem a linha de frente das políticas de prevenção da violência, segurança cidadã, cultura de paz, direitos humanos, proteção às mulheres, justiça restaurativa, solução pacífica de conflitos, apoio à primeira infância, urbanismo social, convivência e redução de desigualdades urbanas.

A oferta municipal de serviços, infraestrutura e espaços públicos de qualidade, baseados em uma governança participativa sistêmica, preserva a confiança da população no Estado democrático e favorece a coesão social, por meio do exercício do pleno direito à cidade.

Sempre que o Estado, inclusive (ou principalmente) o nível municipal, se omite de sua missão fundante de prevenir e corrigir as desigualdades decorrentes dos desequilíbrios normais da economia, toda sorte de jararacas, cascavéis e surucucus se alvoroçam para substituí-lo.

Felipe Sampaio escreve no Capital Político. Ele é colaborador do projeto Centro de Soberania Clima e Desenvolvimento Sustentável; Ex-Secretário Executivo de Segurança Urbana do Recife (2019-2020); chefe da Assessoria de Relações Institucionais do Ministério da Segurança Pública (2018);e Chefe da Assessoria de Projetos do Ministério da Defesa (2016 – 2018); Assessor Especial do Ministro da Reforma Agrária no governo Fernando Henrique Cardoso; consultor em desenvolvimento sustentável, regional e em programas governamentais e multilaterais, em Ongs e empresas; palestrante e autor de publicações em fóruns no Brasil e no exterior.

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