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Cartas na mesa (por José Paulo)

Pai Arraia

Por José Paulo Cavalcanti Filho - Atualizado em 31 jul 2020, 12h01 - Publicado em 31 jul 2020, 12h00

A história se repete mesmo. Razão para Maquiavel (O Príncipe), mais que Marx (18 Brumário), para quem seria sempre farsa. Prova é que esse ficar em casa, por conta da pandemia de agora, já aconteceu antes. O personagem, que comprova essa repetição, é Miguel Arraes. Tirando os da família, conheci poucas pessoas que o chamavam assim, de Miguel. Como Severino Farias, fazendeiro de algodão em Surubim, pai de Antônio Farias (marido de Geralda). Carlos Duarte, velho comunista que sobreviveu, na Ditadura, vendendo selos Olho-de-Boi da sua coleção. Waldir Chimenes, casado com uma prima de Arraes (dona Ivone).

Miguelzinho Batista, gigante com pouco mais de metro e meio de altura, seu fiel ajudante de ordens. E Zadock Castelo Branco, um jornalista excêntrico que ainda tinha o desplante de dar tapinhas na sua barriga enquanto dizia “pessedista velho, com uma tinturazinha marxista”. Para o resto da humanidade foi, sempre, dr. Arraes. Ou Pai Arraia, na boca de seu povo. Gente simples que, naquele tempo, invocava sua proteção para tudo. E até chá caseiro fazia, com seus santinhos de eleição, para curar males variados – resfriados, saudades, barrigas d’água, dores nas juntas, remorsos.

Esse caso, que agora conto, começa em 1964. Quando dr. Arraes é cassado pela Redentora. Preso em Fernando de Noronha, liberta-se apenas em maio de 1965. Seu advogado, Sobral Pinto, sugere que melhor seria o exilio. E, em 17/06/1985, acaba em Argel, a Princesa da África Francesa. Por mãos do Presidente Ben Bella – um exótico ex-jogador de futebol que chegou a estatizar os salões de barbeiro do país. Dia seguinte à chegada, um golpe militar colocou, na chefia do governo, Houari Boumédiène – até então, seu Ministro da Defesa. Mas nada mudou, para Arraes. A casa de dois pavimentos que ocupava, no Bd. Franklin Roosevelt, era parte dos domínios do Palais d’Eté. Vizinha de muro com o próprio Palácio do Governo. Havia um permanente clima de conspiração, entre os exilados brasileiros.

Dr. Arraes, segundo se dizia, comandava um Movimento Popular de Libertação – que teria 200 mil homens em armas, no Brasil, prontos para entrar em ação. Sem prova disso, até hoje. Enquanto o Coronel Jefferson Cardim morreria esperando apoio, de Fidel, para invadir a Amazônia. Quando era grande a saudade, vestia farda e passeava, todo paramentado, pelo kasbah de Argel.

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Mas o melhor, naquele tempo, era mesmo o bom e velho biriba de quase toda noite. No Bd. Telemly. Em duas mesas de apartamentos com salas contíguas. Num, moravam o Deputado Federal cassado Maurílio (e Ana Angélica) Ferreira Lima e o engenheiro Aécio (e Walkíria) Gomes de Matos. Hoje, na Revista Será?. No outro, o arquiteto Lopes (e dona Mimi). Portugueses, naturalizados brasileiros, que trabalhavam na construção da Universidade de Constantine. Às bordas do Saara argelino. Muita gente aparecia, por lá. Como o arquiteto Oscar Niemeyer, grande especialista no jogo. Tanto que implantou um sistema esquisito, de contagem de pontos, conhecido como “Regra Niemeyer”.

Noite de 04.11.69. Walkíria descarta um 3 de copas. Dr. Arraes era respeitado, na mesa, por ganhar mais que perder. Foi sempre assim, na vida. Próximo a jogar, põe a mão na carta. Mas o rádio interrompe seu gesto. Anunciando o assassinato, em São Paulo, de Carlos Marighella. Todos ficam paralisados. Dr. Arraes eleva seu olhar, até fixar um ponto impreciso da parede. E, com voz embargada com que (se supõe) são ditas as frases históricas, sentencia: “Devemos voltar à Pátria, para comandar a guerrilha revolucionária que vai redimir o povo brasileiro”.

Silêncio sepulcral. E o jogo parado. Passados alguns segundos Maurílio, sem se preocupar com essas palavras, vira-se para ele e diz: “Acabou?,  Arraes. Então joga!”. A vida então seguiu, naquele quase fim de mundo, em sua trilha perversa de ilusões perdidas e esperanças vãs. “E o universo/ Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança”, palavras de Pessoa (Álvaro de Campos, na Tabacaria). O povo brasileiro poderia esperar um pouquinho mais. Dr. Arraes pega o 3 de copas. Olha, sorrateiro, para os adversários. Ri baixinho. E diz “Bati”.

 

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José Paulo Cavalcanti Filho – jp@jpc.com.br  

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