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Vazamentos: é (quase) tudo verdade; Trump não fica abalado

Mensagens sigilosas do embaixador britânico nos Estados Unidos criam problemas para ele e nenhum para o presidente em quem senta a língua

Quando você sabe que uma coisa não vai dar em nada? No Reino Unido, é quando a seguinte frase é pronunciada: “O Foreign Office vai investigar”.

Foreign Office é o famoso serviço diplomático britânico, criado em 1782. Como herdeiro da era imperial, cuida mais do que de diplomacia e de cidadãos em apuros no exterior, avançando sobre o terreno da segurança e, principalmente, do comércio.

Como refinada burocracia, cuida também ou acima de tudo de seus próprios interesses. O vice-ministro das Relações Exteriores, por exemplo, é um funcionário púbico de carreira, com estabilidade no cargo independentemente dos governos.

É ele, por exemplo, o chefe do Serviço Diplomático de Sua Majestade. E em linguagem diplomática dizer que “vai investigar” alguma coisa equivale a prorrogar até que a situação esfrie e desapareça de causas naturais.

A “coisa”, nessa história, é o vazamento de mensagens sigilosas em que o embaixador em Washington, o diplomata de carreira Kim Darroch, revela avaliações e opiniões – estas algo distorcidas – sobre Donald Trump.

Se tivesse dito em público o que expressou nos memorandos vazados, seria um caso raríssimo de sincericídio de um funcionário do Foreign Office. Nos memorandos, ele apenas falou o que um bocado de gente diz – gente que abomina Trump ou, mais raramente, que consegue identificar seus muitos defeitos sem excesso de envolvimento emocional.

Trump, avaliou Darroch, num dos memorandos vazados, é “excepcionalmente disfuncional” e “inepto”, sua equipe vive num clima de “briga de faca”, o presidente sofre de insegurança emocional, envolveu-se com “russos suspeitos” e segue uma política “incoerente e caótica” em relação ao Irã.

Com um presidente tão mau, mau, mau, a economia está bombando, o desemprego bate recorde de queda e a guerra comercial com a China não teve os efeitos negativos tão desesperadamente prognosticados pela oposição.

Imaginem se fosse um cara bonzinho, que conhece e respeita os corredores do poder, habilíssimo no trato com políticos e nunca, jamais dado a tuitar sobre tudo e todas as coisas.

Aí, provavelmente não teria sido eleito. Ou ganharia o selo de aprovação de Kim Darroch – internamente, no “snake lair” do Foreign Service, ele é um pouco ridicularizado por ter se formado em zoologia e ainda por cima fora do eixo da elite intelectual e política.

Agora, claro, o establishment ao qual pertence, apesar da história da zoologia, está unido em sua defesa. Estava só fazendo o seu trabalho, dizem. Se é só isso, estava fazendo mal, apesar do sucesso da visita de Trump ao Reino Unido – o teste definitivo para embaixadores, tanto do país visitante quanto do visitado.

PASSADA DE PERNA

Quem vazou os memorandos sigilosos para o Daily Mail, na sua edição dominical, uma operação separada do tabloide que normalmente corre mais atrás de segredos de celebridades e membros da realeza?

A imprensa de esquerda já criou sua conspiração: como o vazamento foi dado a Isabel Oakeshot, detestada por suas ligações com personalidades do Brexit, “só pode” ter sido obra de Nigel Farage.

Só para lembrar: Farage foi precursor do Brexit quando estava no Ukip. Agora, criou o Partido do Brexit, o mais votado na eleição para o Parlamento Europeu.

Quando Trump foi eleito, sugeriu, nada diplomaticamente, que seu amigo Nigel seria um excelente embaixador da rainha em Washington.

Com isso, garantiu a estabilidade no cargo de Kim Darroch. Nenhum governo poderia intervir de maneira tão descarada na indicação de embaixadores estrangeiros.

Hummm. Será que Darroch foi um pouco influenciado em suas avaliações sobre Trump pela tentativa de passada de perna no cargo mais importante do serviço diplomático no exterior?

Será que ele se jactou demais sobre a posição única da embaixada britânica para influenciar – “dar um empurrãozinho” – as opiniões do presidente americano?

Será que Trump estava mesmo “inseguro sobre o protocolo” antes da visita de Estado aos domínios da rainha?

E que americanos da comitiva ficaram deslumbrados com “o melhor ingresso” do mundo?

É possível. Quem não se deslumbra com banquete no Palácio de Buckingham e outros salamaleques que tornam a monarquia o melhor instrumento diplomático do Reino Unido?

Kim Darroch está sentindo o constrangimento a que tantos diplomatas americanos ficaram expostos quando milhares de “telegramas” foram revelados nas grandes ondas de vazamento do Wikileaks de Julian Assange.

O que aconteceu com estes americanos? Nada. Ao contrário, a sofisticação e o nível de informação de seus memorandos sobre diferentes países e líderes demonstraram o ótimo preparo da diplomacia americana. Muitos comentários eram mais ricos, bem informados e elaborados do que as broncas de Darroch.

Para Trump, os segredos expostos do embaixador britânico são mais do mesmo.

Na condição de presidente americano mais vazado de todos os tempos – pessoalmente; em termos de instituições, foi Barack Obama, com as informações subtraídas por Edward Snowden diretamente da fonte do NSA –, ele já está com o coro curtido.

Os incontroláveis vazamentos de mensagens, rascunhos de projetos de leis e até conversas por telefone, na Casa Branca, com outros chefes de Estado, têm três origens.

Os mais óbvios são funcionários de carreira e remanescentes da era Obama, até hoje inconformados com sua vitória na eleição presidencial.

Os ligeiramente menos óbvios são membros da própria equipe de Trump, pelos motivos de sempre: ferrar um colega ou concorrente, vingar-se do presidente e ficar bem na foto com jornalistas, que também são integrantes da classe permanente do establishment.

CASO DA CHUVA DOURADA

Todas as investigações sobre vazamentos exigidas por Trump deram em nada – um exemplo dos limites do poder a que até um presidente americano está submetido.

Existem outros, criados pelos geniais Pais da Pátria justamente para que um poder equilibrasse o outro e nenhum deles caísse na tentação de esquecer que governo é um mal necessário, a ser mantido sob constante controle.

Por isso, é simplesmente ridículo quando Trump é acusado de ser “autoritário” ou até “ditatorial”, na maioria das vezes por gente que não sabe ou finge não saber o que é uma coisa nem outra. Nem que quisesse, conseguiria.

A reação de Trump aos textos de Kim Darroch foi comparativamente contida.

“Não somos grandes fãs desse homem, e ele não serviu bem o Reino Unido, então entendo que posso dizer coisas sobre ele, mas não vou me dar ao trabalho.”

Outras “fontes” comentaram que Darroch ficou numa posição “insustentável”.

Pior, não é a pessoa indicada para negociar um tratado comercial com os Estados Unidos exatamente no momento em que um novo primeiro-ministro, provavelmente Boris Johnson, terá que conduzir à saída de fato da União Europeia.

Ou seja, Darroch em algum momento vai ganhar uma passagem para outra embaixada, bem longe de Washington.

A cada vazamento de ou sobre Trump, a oposição e a classe do comentariado dão seu governo por frito, enfarinhado e acabado.

Os vazamentos, todos, passam. E até a última vez que checamos, Trump continuava presidente.

Algumas das explicações: o Trump das conversas vazadas é exatamente o mesmo das entrevistas espontâneas e do Twitter. Ele vive em estado bruto, não esconde nada.

Mais complicado, para o governo britânico agora em transição, é o caso do dossiê da chuva dourada, a parafilia sexual envolvendo urina.

O dossiê foi encomendado por um escritório de advocacia que prestava serviço ao Partido Democrata, durante a campanha de Hillary Clinton. O serviço foi pego por um ex-repórter investigativo – atividade tão nobre cruelmente arrastada na lama –, Glenn Simpson, dedicado a “investigações” privadas.

Simpson terceirizou o trabalho para Christopher Steele, agente aposentado do MI5 e igualmente transformado em farejador particular. Steele tinha uma vantagem e uma desvantagem: havia sido chefe do MI5 em Moscou, o que lhe dava excelente conhecimento de fontes, mas não podia voltar para lá por causa da ficha já comprometida.

Usou seus contatos para formar um dossiê clássico de campanha eleitoral, com uma técnica conhecida dos profissionais de inteligência: misturar fatos reais “picados” do contexto com “fatos” feriados ou sem nenhuma possibilidade de comprovação.

Seu núcleo consistia em “comprovar” que a inteligência russa tinha informações tão comprometedores sobre Trump – incluindo o tal vídeo envolvendo duas prostitutas praticando a chuva dourada – que poderia submetê-lo a chantagem.

O dossiê era tão fraco que jornais e emissoras antitrumpistas o rejeitaram. Chris Steele e Glenn Simpson usaram todas suas redes de contatos para espalhar o dossiê.

Steele chegou a mostrá-lo para os dois chefes dos serviços britânicos de informações e contraespionagem, o MI5 e o MI6.

Simpson espalhou-o entre altos funcionários do governo Obama no Departamento de Estado e no de Justiça, incluindo FBI. Neste, por incrível coincidência, trabalhava em posto importante o marido de uma colaboradora dele.

O dossiê acabou chegando às mãos até do senador John McCain, um desafeto de Trump.

Com tanta gente boa plantando, o dossiê acabou vindo à tona via Buzzfeed. A imprensa antitrumpista se sentiu liberada para cobrir o caso.

Mesmo sem nenhuma comprovação, Trump continua a viver à “sombra dos russos”.

E a resistir. É como uma espécie de panela de teflon, a metáfora criada para políticos imbatíveis por escândalos, ao contrário: tudo gruda nele, pela predisposição dominante da imprensa americana em acreditar nas piores coisas a seu respeito, mas tudo acaba se dissipando.

Não serão as opiniões nada diplomáticas, e algumas vezes erradas, de um embaixador britânico que vão abalar Donaldo Maximus, como dizem os seguidores mais ardorosos.

Mas não deixará de ser curioso acompanhar as trepidantes investigações do Foreign Office sobre o vazamento do embaixador de língua solta.

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