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Uribe mostrou a força dos argumentos contra acordo de paz na Colômbia

Contra quase unanimidade universal, ex-presidente fez o que parecia impossível e deixou adversários sem espaço para recuar

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 dez 2016, 11h21 - Publicado em 3 out 2016, 16h09
uribe

Antagonista da esquerda populista e mestre em sobrevivência: Uribe convenceu a maioria

Odiar Álvaro Uribe foi uma escolha errada dos defensores do acordo de paz com as FARC. Dizer que ele só fez campanha pela rejeição porque é um invejoso ressentido, que apoiaria o acordo se fosse obra sua, não funcionou. Chamar os colombianos que eram contra de ignorantes e desinformados talvez tenha contribuído para o resultado oposto.

Com a rejeição do acordo, em plebiscito, restou pouco terreno para o obrigatório recuo estratégico. Continuam a ter peso e importância as razões políticas e éticas em favor do entendimento com os guerrilheiros que assolaram o país muitos anos depois do fim de qualquer ilusão sobre a luta armada da extrema esquerda. Mas o que seus defensores equivocados na argumentação vão fazer agora?

Reconhecer que Uribe é tão poderoso que, sozinho, venceu o papa, os irmãos Castro, Barack Obama, toda a intelectualidade, toda a imprensa,  a maioria esmagadora dos políticos, a esquerda, o centro e quase toda a direita do mundo inteiro,  os outros presidentes latino-americanos e, acima de tudo, o próprio presidente colombiano, Juan Manuel Santos?

Continuar a dizer que a maioria dos colombianos que foi votar optou por um “conceito de vida vingativo, envenenado e miserável”, nas palavras de John Carlin, correspondente inglês do jornal El País, autor de reportagens apaixonadas – e cegas pela paixão – em favor do acordo?

Simplesmente colocar a culpa nas pesquisas de opinião, escandalosamente erradas? Ou até nos pesquisados, que esconderam o “voto envergonhado” e, no segredo da urna, escolheram renegar um acordo que consideraram errado, injusto, leniente e indicador da fraqueza não dos guerrilheiros, com suas muitas derrotas no campo militar, mas de um presidente disposto a muitas concessões?

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Contestar a estratégia da campanha pelo acordo e mesmo o teor do tratado rejeitado não significa ignorar a vitória quase inacreditável de Uribe. Único antagonista da geração de líderes latino-americanos da esquerda populista com seus nomes de duas sílabas – Chávez, Lula, Evo -, o ex-presidente também pode ser o único sobrevivente da turma.

Não faltaram promotores do tipo que os encrencados de hoje chamam de “torquemadas”, ex-assessores presos e a tentação suprema da mudança constitucional para permitir a reeleição na carreira do ex-presidente. Frio, austero e “jesuitíco” no estilo, Uribe recuperou popularidade e explorou os pontos fracos do acordo encabeçado por  Juan Manuel Santos, seu ex-ministro da Defesa, a quem empurrou para a presidência e com quem rompeu no clássico embate entre criador e criatura.

O escritor e apresentador peruano Jaime Bally, evidentemente simpático a Uribe, resumiu os argumentos contra o acordo dizendo que, com ele, as FARC conseguiram “uma vitória política nada desprezível: absoluta impunidade, pois só por confessar seus delitos mais atrozes não irão par aa cadeia ou terão levíssimas penas de serviço comunitário, sem privação significativa de liberdade; dez cadeiras no Congresso, ainda que o povo não os eleja (cinco no Senado, cinco na Câmara de Deputados); recompensa econômica paga pela democracia colombiana para deixar de delinqüir, mais de trinta rádios para propalar suas ideias ultrapassadas e fazer campanha política”.

E tem mais: também ganharam “o status de cidadãos  ilustres, admiráveis, candidatos ao Prêmio Nobel da Paz junto com seu aliado e benfeitor, o presidente Santos, rei do travestismo politico.”

Todos esses argumentos podem ser contestados – e foram, durante a campanha do plebiscito. Mas a maioria dos colombianos preferiu acreditar neles. Uribe ganhou, Santos perdeu e a “renegociação” é inevitável. É impossível dizer se as FARC retomarão a luta armada, mas não existe decisão errada que o grupo guerrilheiro não tenha tomado antes.

Só para lembrar: o pai de Uribe foi assassinado pela guerrilha durante uma tentativa de sequestro. Centenas de milhares de colombianos foram vítimas do grupo. Sobreviventes e familiares das vítimas manifestaram-se livremente contra e a favor do acordo.

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