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‘Patrulha Canina’, ‘Harry Potter’ e escoteiros: todos a perigo

A saraivada contra reais ou imaginários inimigos da igualdade racial e de gênero avança por terrenos impensáveis e se planta no território surreal

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 12 jun 2020, 09h46 - Publicado em 12 jun 2020, 07h18

Imaginem a seguinte situação: os criadores da Patrulha Canina, o simpático desenho animado que todos os pais de crianças pequenas conhecem, julgaram adequado “emudecer nosso conteúdo para dar acesso a vozes negras de forma a que continuemos a ouvir e aprender”.

Seriam recebidos com reações à altura do ridículo atroz de tal atitude.

Para crédito da humanidade, pelo menos tal como representada no Twitter, foi isso que aconteceu.

“Sem verbas para a polícia” e “Eutanásia para o cão policial” foram alguns dos comentários sarcásticos, referindo-se a Chase, um dos cães da Patrulha que divertem as crianças com suas bem intencionadas operações de resgate.

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Muitos levaram a sério a brincadeira simplesmente porque está dura a vida dos alvos das patrulhas – políticas, não caninas.

De J.K. Rowllng, a venerada autora de Harry Potter, ao filme …E o Vento Levou, passando por seriados de televisão que tenham como personagens policiais bacanas, todos estão com a cabeça a prêmio.

A morte de George Floyd por um policial branco chocou a opinião pública e muitas pessoas comuns sentiram o impulso de se manifestar seu repúdio.

Para militantes mais descolados foi uma oportunidade rara de expandir seus limites. 

Hoje, ninguém precisa ter uma carteirinha do Black Lives Matter, um bem organizado e financiado grupo americano, para aderir aos protestos – e intimidar empresas ou autoridades locais.

Antecipando-se a possíveis ataques, a HBO retirou …E o Vento Levou, certamente pressupondo que o público é suficientemente burro para levar ao pé da letra os personagens negros caricaturais e a exaltação dos estados confederados durante a Guerra Civil Americana.

O filme é de 1939.

Ofensas reais ou imaginárias movem os novos iconoclastas, os derrubadores de estátuas que ameaçam boicotes ou agressões a quem apareça ou defenda os integrantes da “lista branca”.

Autoridades acovardadas saem correndo assim que surge mais um nome na lista. 

Correm para defender o patrimônio urbano ou argumentar racionalmente por sua derrubada?

Não, por medo mesmo.

Assim aconteceu com a estátua de Robert Baden-Powell, o fundador do escotismo, no começo do século XX.

Bastou ser acusado de racista e defensor do nazismo – pelo menos, não de pederastia – e o conselho municipal de Poole já retirou a estátua, para “sua proteção”.

É verdade que a situação poderia acabar em briga entre simpatizantes do Black Lives Matter e senhores idosos, adeptos do escotismo na infância, inconformados com as ameaças ao monumento em homenagem ao criador do movimento.

Churchill? Memorial aos mortos de guerra em Londres?

Simplesmente encaixotados.

Joanne Rowling, o nome real da escritora, entrou numa briga paralela exatamente nesse momento de surto, uma espécie de mistura de Maio de 1968 e Revolução Cultural (lembrando que os estudantes franceses da época tinham como referência justamente a China maoísta onde reinava o terror vermelho).

Não é uma briga nova, para a escritora, mas foi exacerbada pelo clima intoxicante do momento.

Por motivos que descreveu num longo comentário, ela é contra a abertura de casas de refúgio para mulheres agredidas a homens que declaram ser do sexo feminino, o que se torna possível com legislações específicas.

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As varinhas mágicas voltaram-se todas com a escritora, sempre simpática a causas progressistas e autodeclarada amiga e militante da causa trans.

Os principais atores da série no cinema entraram no linchamento virtual da escritora.

Os intérpretes de Harry Potter, Daniel Radcliffe, e a de Hermione, Emma Watson, fizeram longos pronunciamentos repetindo obsessivamente que todas as pessoas que declaram ser mulheres, são mulheres.

E ninguém pode nem pensar em argumentar que cromossomas XX, menstruação, potencial de gerar crianças e menos capacidade de autodefesa contra abusadores têm qualquer coisa a ver com isso.

Joanne Rowling invocou dois argumentos para sua posição: apanhou do primeiro marido, o português Jorge Arantes, um fato já conhecido, e sofreu um ataque sexual não especificado na juventude.

Efeito entre os “conscientizados”, a melhor, embora longa, palavra para traduzir “woke”: zero.

O imperativo moral, social e civilizatório de combater o racismo foi substituído, especialmente na Inglaterra, por um arremedo de perseguições mesquinhas e anti-históricas.

Depois que a estátua de Edward Colston, um benfeitor escravagista do século XVII, foi jogada no rio, moradores de uma rua com o nome dele cobriram a placa com plástico.

O túmulo de um comediante que se pintava de preto, uma prática hoje merecidamente execrada, também foi envolto em sacos plásticos para não ser vandalizado.

Todos os paralelos históricos com a onda de furor atual já foram feitos.

A atual “ocupação” de um pedaço do centro de Seattle – com grande potencial de encrenca – lembra a Comuna de Paris.

Fora Revolução Cultura chinesa, já mencionada.

Aqui vai mais um: a estranha época de Savonarola, o frei dominicano que dominou a Florença do Renascimento com ideias cada vez mais radicais e puritanas.

A expressão “fogueira das vaidades” vem da fogueira literal em que a população fiorentina, de boa ou má vontade, incinerou estátuas nuas, livros indecentes, mesas de jogo, baralhos, espelhos, máscaras de carnaval e tudo mais que lembrasse prazer ou diversão.

Curiosamente, foram queimados livros de Bocage, cheios de cenas libertinas e também referências à peste bubônica, mais letal do que o novo coronavírus.

Savonarola usava crianças de rua para espionar prazeres ocultos, uma tática retratada pelo personagem Lorde Varys, o eunuco da série Game of Thrones.

Pelos padrões vigentes no momento, a série provavelmente iria para a fogueira.

Foi esse o destino final de Savonarola e os outros dois freis que o acompanhavam, executados em 1498 a mando do papa Alexandre VI,  o primeiro do clã Borgia.

A ironia é que o papa era mesmo formidavelmente corrupto, em todos os sentidos, como denunciava Savonarola.

Da mesma forma que o racismo deve ser denunciado em todas as suas manifestações, com a diferença que os simpatizantes do Black Lives Matter levam uma causa justa a exageros absurdos de patrulhamento.

A Primavera de 2020 está pegando fogo e tem o componente adicional, ao contrário de 1968, de uma crise econômica cujas dimensões avassaladoras ainda estão se desenhando. De Covid-19 nem se fala mais.

A lista das estátuas condenadas no Reino Unido já tem 93 nomes.

Nos Estados Unidos, em tempo recorde, George Washington e Thomas Jefferson já tiveram suas cabeças de pedra colocadas a prêmio.

“I’m fired up”, diria Marshall, o dálmata bombeiro de Patrulha Canina, o personagem mais popular do desenho.

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