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Os idosos da Noruega morreram por causa da vacina ou por ser velhos?

A questão é explosiva por envolver desconfiança e teorias conspiratórias que podem prejudicar a imunização em massa, única arma contra o coronavírus

Por Vilma Gryzinski 22 jan 2021, 08h31

Uma charge no inglês Telegraph mostra um grupo de idosos felizes da vida depois de receber a vacina contra o novo coronavírus: “Agora podemos morrer de outras causas”.

Humor é assim mesmo, não pode seguir as regras de respeito fundamentais em outras interações sociais.

O caso dos 33 idosos que morreram depois de ser vacinados em clínicas de repouso que estavam no topo do cronograma de vacinação na Noruega reproduz, na vida real e sem nenhuma graça, a questão mostrada pela charge.

As mortes aconteceram porque os pacientes, todos com mais de 80 anos, sofreram um efeito direto da vacina da Pfizer ou porque tinham complicações consideráveis de saúde e iriam morrer de qualquer maneira?

Dos 33 casos, 13 foram estudados a fundo até agora e causaram um ajuste de orientação: os médicos diretamente responsáveis pelos pacientes devem levar em conta os benefícios da imunidade proporcionada pela vacina contrabalançados por eventuais efeitos, como febre e diarreia, que podem ser letais em pacientes já extremamente fragilizados.

“Eram todas pessoas muito idosas, frágeis e com doenças graves”, disse a diretora do Instituto Nacional de Saúde Pública, Camilla Stoltenberg.

“Não é impossível que parte dos que estão na lista da vacinação sejam tão frágeis que não valha a pena porque seu estado pode potencialmente se deteriorar por causa de efeitos secundários”.

“O mais importante é lembrar que 45 pessoas morrem todos os dias em instituições médicas na Noruega. Portanto, não foi estabelecido se houve mortalidade excedente ou relação com as vacinas”.

Não é preciso nem dizer que o excesso de cautela nas palavras da diretora indica a preocupação com uma culpabilização das vacinas que extravase os limites dos casos registrados.

A Noruega não é o tipo de país onde proliferem teorias conspiratórias ou o movimento antivacinas. Teve um dos resultados menos desfavoráveis do mundo ocidental na pandemia: 544 mortes, ou 40 por milhão de habitantes (foram mais de 10 mil na vizinha e mais relaxada Suécia, ou 327 por milhão).

A agência de vigilância sanitária da Noruega também investigou as mortes dos idosos e concluiu que reações consideradas normais às vacinas baseadas no RNA mensageiro, como a da Pfizer, podem ter tido alguma influência.

“Existe uma possibilidade de que reações adversas que não são perigosas em pacientes mais novos e em melhores condições de saúde, e que não são incomuns em vacinas, possam ter agravado doenças já existentes em pacientes idosos”,  disse o diretor da agência, Steinar Madsen.

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“Pedimos aos médicos que continuem a vacinação, mas façam uma avaliação adicional no caso de pessoas muito doentes com morbidades que possam ser agravadas”.

Na Alemanha, o Instituto Paul Erlich também está investigando dez mortes ocorridas logo depois da vacinação – mas não dá detalhes.

A agência reguladora do Reino Unido ainda está preparando sua análises de efeitos adversos ou efeitos adversos de interesse especial, prometendo o resultado para o futuro próximo. 

Nos Estados Unidos, o país com mais vacinação no mundo, houve 29 casos de anafilaxia. Desses, 21 ocorridos na semana final de dezembro foram estudados em detalhes – a idade média era 40 anos e 90% eram mulheres. Dezessete tinham histórico de reações alérgicas a medicamentos ou alimentos, sendo que sete já haviam tido anafilaxia.

Num total de 1,9 milhão de doses, a incidência da reação imunológica foi de 11,1 por milhão. Bem acima do índice de 1,3 por milhão de doses no caso da vacina contra a gripe.

Também está sendo investigada a morte do médico Gregory Michael, ginecologista de 58 anos, que teve uma reação raríssima dezesseis dias depois de ser vacinado, na Flórida, com o imunizante da Pfizer.

Ele morreu de hemorragia cerebral causada por trombocitopenia imune aguda, uma doença que interfere na coagulação do sangue.

As vacinas são uma das maiores conquistas da humanidade em matéria de saúde e muitos de nós só estão aqui para promovê-las, ou criticá-las, graças a elas.

Reconhecer e louvar seus efeitos não significa ignorar os casos, mesmo que em quantidades minúsculas, de reações adversas graves. O mais conhecido ocorreu por um erro de fabricação num lote de vacinas contra a poliomielite nos Estados Unidos, em 1955.

Inoculadas com o vírus vivo, 40 mil pessoas tiveram a doença, 51 ficaram paralíticas e cinco morreram. Entre as pessoas contaminadas por vítimas do erro, houve 113 casos de paralisia e mais cinco mortes.

Muitos dos casos submetidos o sistema de eventos adversos pós-vacinação não têm comprovada a conexão com a vacinação, mas ajudam a ecoar as preocupações sobre a segurança das vacinas – obviamente levadas ao paroxismo num caso como o da atual pandemia.

Praticamente todos os países do mundo colocaram os profissionais de saúde e os mais idosos no alto da lista de prioridade de vacinação, por motivos éticos e pragmáticos: os mais expostos devem ser os primeiros, inclusive para aliviar a ocupação de hospitais sob risco de não dar conta da explosão de pacientes em estado grave.

Os especialistas também sabiam que a morte de pacientes vacinados, inevitável diante da idade e do estado dos primeiros da fila, poderia funcionar como argumento para os movimentos antivacinação, mas a alternativa seria pior: privar os mais idosos e mais necessitados da única arma efetiva para acabar com o vírus, não só para os indivíduos como para as sociedades.

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