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O que é uma mulher? Até ‘mãe’ de Harry Potter leva pancada

A escritora JK Rowling, politicamente corretíssima, se dá mal ao defender que sexo é sexo, uma blasfêmia para os radicais da seita transexual

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 23 dez 2019, 08h37 - Publicado em 23 dez 2019, 07h30

O fato de que um homem se declare mulher, e vice-versa, transforma-o automaticamente em mulher, com todos as suas características?

A biologia pode ser simplesmente apagada, em nome do desejo de apagar injustiças passadas e, mais do que respeitar e aceitar aqueles que vivem em corpos trocados, mudar a realidade dos fatos?

Nem é preciso dizer como estas perguntas são explosivas.

A mais recente chamuscada pela fúria fanática como que a palavra transfobia passou a ser distribuída foi JK Rowling, a escritora mais rica do mundo (fortuna calculada em 770 milhões de dólares, mesmo depois de doações na casa dos 150 milhões, principalmente a causas políticas e sociais mais à esquerda).

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Ser de uma generosidade tão espetacular, politicamente corretíssima  e, acima de tudo, a adorada criadora de Harry Potter não contou em nada na hora de entrar na lista negra dos radicais do  movimento transgênero ou transexual.

O motivo? Rowling escreveu em sua rede social, com 14 milhões de seguidores, uma manifestação de apoio à tributarista Maya Forstater.

O caso de Forstater é juridicamente interessante e socialmente assustador.

Ela foi demitida por justa causa de uma instituição chamada Center for Global Development, dedicada a políticas de combate à pobreza.

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Numa série de tuítes, havia manifestado críticas ao conceito que consagra a supremacia da identidade de gênero. “Homens não podem se transformar em mulheres”, dizia um deles.

Contestou a demissão na justiça trabalhista, defendendo o direito de acreditar que só existem dois sexos biológicos.

Perdeu. O juiz considerou sua opinião é “incompatível com a dignidade humana e os direitos fundamentais de outros”.

Entrou aí JK Rowling, com o seguinte tuíte:

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“Vistam-se conforme sua vontade. Chamem-se como quiserem. Durmam com todos os adultos que consentirem e aceitarem. Vivam sua vida em paz e segurança. Mas tirar o emprego de mulheres por declararem que sexo é real?”.

O mundo, naturalmente, caiu.

Dizer que sexo é sexo, no sentido biológico e não no da identidade de gênero, virou uma blasfêmia.

Mesmo que quem o diga seja alguém como JK Rowling,  conhecida defensora das causas LGBGTQ, que se divertiu enormemente em anunciar que o venerado Albus Dumbledore, o diretor de Hogwarts, era gay.

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Isso no passado distante, coisa de poucos anos.

A Inglaterra hoje, mais do que os Estados Unidos, é o país onde a questão transexual mais provoca embates.

Originaram-se lá, inclusive, um movimento de mulheres conservadoras que se insurgem contra a equalização forçada e também de uma pequena ala ultrafeminista para a qual as mulheres saem perdendo nessa história.

Nos Estados Unidos, seria impensável que  mulheres fossem investigadas e interrogadas pela polícia, ou demitidas por justa causa, como no caso de Maya Forstater, por uma manifestação de opinião como dizer que “homens não podem se transformar em mulher”.

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É possível estabelecer uma diferença entre mulheres e mulheres trans, sem incidir em preconceito ou ignorância sobre as dificuldades e a discriminação enfrentadas pelas pessoas com disforia de gênero?

A questão não é apenas conceitual. Na prática, implica em muitas decisões.

Mulheres trans podem competir, como se houvesse igualdade de condições, com mulheres biológicas nos esportes?

Devem ser recolhidas em instituições penitenciárias femininas? E nos abrigos para mulheres agredidas? Nos quartos de hospital? Saunas e vestiários?

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A sociedade responde a novas questões, geralmente, de forma conservadora.

No caso da disforia de gênero parece ter acontecido o contrário. Embalados pela força e os recursos dos movimentos gay, os trans chegaram com mais aparelhados para o debate.

Tão aparelhados e veementes que  os LBG podem, também, estar se separando dos T.

É uma tendência que já desponta no horizonte, unindo, inesperadamente, conservadores (dos dois sexos), homossexuais e as tais feministas que contestam a igualdade com os trans, chamadas pela sigla em inglês, TERF.

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A ideia em comum é que identidade de gênero não pode ser um substituto pleno e incontestável para o sexo biológico.

Sem contar que existem gays totalmente refratários à ideia de que são transfóbicos se não aceitarem parcerias amorosas com mulheres que se identificam como homens – mas, mesmo com injeções de hormônio e outras transformações,  não têm os corpos masculinos, com todos se balangandãs,  tão apreciados pela categoria.

Da mesma forma, lésbicas gostam de mulheres, para se relacionar, namorar, fazer sexo ou tudo isso junto. Uma mulher trans, com pênis, dificilmente pode ser objeto de seu desejo, por mais que a militância proclame o contrário.

“Gays, lésbicas e bissexuais têm uma coisa muito óbvia em comum: atração pelo mesmo sexo”, escreveu no site Quillette o comentarista Brad Polumbo.

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“Ser gay é entender que o sexo é estabelecido no nascimento. A atração sexual que sinto é, da mesma forma, baseada em fatores que vão além do meu controle“.

“A transexualidade é um conceito diferente. Enquanto a homossexualidade leva a diferenças óbvias de comportamento na vida real, a transexualidade oferece uma redefinição de categoria sobre o que significa ser homem e ser mulher.”

“Nos últimos anos, ativistas transgêneros têm exigido que sexo e gênero sejam amalgamados e que a própria ideia de diferenças biológicas inatas seja empurrada para trás. Na ponta mais extrema, existem agora atleta e acadêmicos que defendem a sério que ser homem não significa ter uma vantagem competitiva física sobre a mulher”.

Onde entra JK Rowling nisso tudo?

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Como escritora e integrante da espécie humana, ela certamente entende os problemas de pessoas fora da norma.

Também já viveu experiências que são únicas do universo feminino: casou por paixão fulminante com um jornalista português quando dava aulas de inglês no Porto.

Foi expulsa de casa (e provavelmente agredida) por ele. Voltou com uma filhinha para a Inglaterra, com zero dinheiro. Foi morar com a irmã e acabou de escrever o primeiro livro da série Harry Potter em cafés.

Assinou-os, a conselho da editora, com as iniciais JK, de Joanne Katherine – este segundo nome inventado -, justamente para simular um gênero menos evidente.

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Quando estourou e o dinheiro começou a jorrar, transformou-se em um perfeito estereótipo de feminilidade.

Implantes nos seios, intervenções estéticas no rosto, unhas vermelhas, saltos altíssimos, cabelos loiríssimos (ou ruivíssimos)  e joias grandiosas hoje fazem seu estilo.

Nenhum de seus romances policiais, com o pseudônimo de Robert Galbraith, chega perto do sucesso da série fantástica.

Um dos problemas é que ela quer dar lições de moral politicamente corretas no leitor, uma chateação insuportável.

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É possível que se retrate sobre o caso envolvendo Maya Forstater. Ou comece a “compensar”. A última foi que o megavilão Lorde Voldemort é um “nacionalista”, palavra que virou ofensa na esquerda.

Pior ainda, na Grã-Bretanha, é sinônimo dos partidários do Brexit. Para a escritora, como para todo o mundo artístico e intelectual “progressista”, só os mais e ignorantes votaram pela saída da União Europeia.

Para não mencionar a última eleição, quando o Partido Trabalhista, que ela apoiou com doações milionárias, quebrou a cara espetacularmente.

Mas o assunto vai continuar a rolar.

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Humoristas ultratransgressores como Dave Chapelle e Rick Gervais já perceberam o potencial do tema.

Sobre o caso JK Rowling, Rick Gervais ironizou: “Estas mulheres biológicas horrorosas jamais poderão entender como deve ser para vocês se tornar uma encantadora dama tão tarde na vida.”

“Acham naturais seus privilégios de mulherzinha. Vencer competições esportivas femininas e ter seus próprios banheiros. Bem, agora basta”.

É claro que Gervais quer provocar. E é claro que conseguiu. Já estão pedindo boicote a ele.

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