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O que a Argentina conseguiu com 166 dias de ‘quareterna’?

O mais longo isolamento do mundo produziu um número comparativamente menor de vítimas e uma catástrofe para uma economia já encrencada

Por Vilma Gryzinski - 2 set 2020, 08h39

Se a Suécia será estudada no futuro como um caso único de país de economia avançada que enfrentou o coronavírus na raça, sem lockdown compulsório, a Argentina será analisada pelo extremo oposto, uma paralisação tão longa que criou um neologismo com a junção das palavras quarentena e eterna.

O veredicto sobre a “quareterna” não deverá ser muito animador. Na realidade, deverá ser apavorante.

Com mais de 8.700 casos fatais, o país tem um número baixo de vítimas, principalmente se comparado ao país com o qual os argentinos se medem o tempo todo, o Brasil.

São 193 mortes por milhão de habitantes, contra 572 no Brasil.

Tudo mais é um abismo sem fim.

Aprovado no começo por ter tomado a iniciativa de, prematuramente, no dia 20 de março, trancar a população dentro de casa, Alberto Fernández, o atual gerente do caos, agora não tem como sair da armadilha. Uma rápida e parcial reabertura precisou ser revertida.

Tendo defendido tão veementemente a paralisação, o presidente precisa ter certezas razoáveis de que a epidemia está em refluxo para que o imenso sacrifício nacional não seja em vão.

Mas a epidemia não está refluindo e a catástrofe econômica impressiona até mesmo os habituados aos cataclismos seriais argentinos.

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Dezenas de milhares de pequenas e médias empresas foram varridas do mapa – 22% entre as que fecharam as portas em Buenos Aires não vão reabrir. No total nacional, são 42 mil negócios quebrados.

Multinacionais estão deixando o país, inclusive com destino ao Brasil.

A contração do PIB, que foi de 26,4% no primeiro mês de lockdown, vai bater no mínimo em 12% ao ano. 

A inflação embica para 55% ao ano e o Banco Central manda imprimir dinheiro 24 horas por dia, inclusive para cobrir o Ingresso Familiar de Emergência, o ‘coronavoucher’ equivalente a 140 dólares que está mantendo o país à tona.

No primeiro dia do ano, o dólar estava a 50 pesos – uma barbaridade que havia sugado as economias dos argentinos e selado o destino inglório de Mauricio Macri nas urnas. Hoje, bate em 75 e, como sempre, o céu é o limite.

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Os argentinos que queiram ou possam viajar têm direito a comprar 200 dólares. Com a sobretaxa de 30%, a cotação é de 101 pesos.

Visitantes estrangeiros são unânimes em lamentar a tristeza de ver os cafés, bares e restaurantes, as veias pulsantes da linda e alquebrada Buenos Aires, deixarem de infundir vida na cidade tão incrivelmente resistente a tantas crises.

A boa notícia foi que o governo conseguiu um acordo para o pagamento da dívida devida a credores privados. Agora, vai começar a negociar a parte do FMI.

A Argentina coleciona nove calotes da dívida, o que lhe valeu um recorde de quarentenas financeiras, os períodos que ficou como pária nos mercados internacionais.

O acordo da dívida mereceu uma comemoração na Casa Rosada, propiciando o primeiro encontro público entre o presidente e sua poderosa vice, Cristina Kirchner, desde o início da “quareterna”.

O isolamento não significou, absolutamente, um breque num dos projetos mais ambiciosos de Cristina e suas hostes: mudar a estrutura do Poder Judiciário e coalhar de aliados todos os postos possíveis, incluindo o Supremo Tribunal com número ampliado de juízes.

A reforma, contestada por um raro protesto de rua no mês passado, garante a Cristina imunidade eterna em seus oito processos por corrupção, lavagem de dinheiro e outros clássicos do gênero, mesmo que venha a perder a que desfruta como vice-presidente.

Um projeto de tais dimensões não impediu que Cristina pensasse em minúcias particulares. Ela está movendo uma ação para não pagar imposto de renda sobre as duas pensões que recebe, como ex-presidente e como viúva de ex-presidente.

Ser sugados de canudinho até a última gota é o destino eterno dos argentinos, seja qual for o desastre do momento.

Em maio, ainda se achando o máximo, Alberto Fernández criticou o modelo sueco pelo número de mortos e os resultados negativos na economia, comparando-o ao desempenho da Noruega.

“Num caso, houve muitos mortos e. no outro, muito menos. O que teve menos mortos foi o mais duro na quarentena. Mas quando olhamos para a economia, foi igual para ambos”.

“Parece que os que têm menos propensão a cuidar da vida tampouco têm bons resultados econômicos”, disse.

Escapou-lhe a ironia cruel de ver um líder argentino querer se ombrear com a Suécia — e sair ganhando.

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