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O homem de seis trilhões de dólares: nem o céu é o limite para Biden

Em cem dias de governo, o novo presidente já liberou ou prometeu liberar quantias tão alucinantes que não têm paralelo histórico

Por Vilma Gryzinski 30 abr 2021, 08h36

Todo político gosta de gastar dinheiro público, seja para garantir um lugar nos livros de história ou uma fatia majoritária nas urnas (sim, sabemos que “dinheiro público” não dá em árvores).

Mas Joe Biden está gastando como nenhum outro político. No seu discurso ao Congresso, ele introduziu mais um programa de investimentos cavalares, batizado de Plano para as Famílias Americanas, no total de 1,8 trilhão de dólares.

Soma-se ao plano emergencial da pandemia de 1,9 trilhão, já aprovado e funcionando, e ao proposto programa de investimentos em infraestrutura – designação vaga que na prática inclui vastos gastos sociais – de 2,3 trilhões.

Só para comparar, o New Deal de Franklin Roosevelt, que vigorou durante seis anos a partir de 1933, envolveu cerca de 650 bilhões de dólares em valores atualizados.

O que aconteceu com o Joe Biden moderado que circulou durante quase cinquenta anos no meio político, como senador e vice-presidente, sem agitar as águas nem fazer nada parecido com rompantes revolucionários?

Já tem gente evocando John Maynard Keynes e a frase que talvez não tenha dito, talvez tenha: “Quando os fatos mudam, eu mudo minhas ideias. E o senhor faz o quê?”.

O venerado lorde Keynes possivelmente ficaria de queixo caído com a extensão da gastança. Santo patrono da intervenção do governo (em casos emergenciais), o mais chique dos economistas parece um amador perto do que está acontecendo em Washington.

Menos do que um surto de hiperkeynesianismo, a política de Biden está mais para Moderna Teoria Econômica, uma ficção segundo a qual governos que controlam a própria moeda podem gastar infinitamente.

Já houve muita gente que tentou emplacar esta teoria, mesmo sem saber que ela existia, e as catástrofes supervenientes acabaram convencendo até os mais cínicos a pelo menos fingir que se preocupam com a responsabilidade fiscal.

Agora, surge um presidente americano que parece dizer “Às favas com a prudência”. E às favas com qualquer pretensão de fingir, nem que fosse só para americano ver, trabalhar com o Partido Republicano em temas suprapartidários.

Até Mitt Romney, o único senador republicano que votou pelo impeachment de Donald Trump, já percebeu que o Joe Biden que hoje ocupa a Casa Branca está mais para o lado de Bernie Sanders, o senador socialista mais feliz do que pinto no lixo com seu novo companheiro de projetos.

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“O presidente diz que quer união, mas é impossível unir a América se você só apela para a ala liberal de seu próprio partido”, tuitou Romney.

Na condição de membro mais rico do Senado – 250 milhões de dólares -, Romney está na lista dos que vão pagar a conta da gastança em escala estratosférica. 

Aumentar os impostos das empresas e das pessoas físicas com renda acima de 400 mil dólares por ano, além de garfar os rendimentos financeiros e engessar a contabilidade criativa, é a forma que Biden diz ideal para bancar os gastos sociais sem aumentar catastroficamente uma dívida já gigantesca, a maior da história – as contas ainda estão sob suspeição.

Muitas das propostas de Biden, como financiar o maternal para crianças pequenas, aumentar as licenças maternidade e ampliar a rede de universidades públicas, já vigoram há muito tempo nos países onde a social-democracia, em aliança com as forças mais conservadoras, implantou o estado de bem estar social, com a diferença que levaram muitas décadas de aplicação gradual. 

Joe Biden quer os Estados Unidos da Escandinávia, uma piadinha que já começa a ser feita, para ontem.

Outras propostas feitas pelo presidente são novas, como o vasto e caríssimo programa de transformação de residências em unidades de baixa emissão de gases de efeito estufa.

É claro que tudo que acontece nos Estados Unidos não só influencia o resto do mundo – e delineia a perspectiva de que, com tanto dinheiro na praça, aumente a inflação na maior economia do planeta – como também desperta imitadores.

“Para onde vai a América, o mundo vai atrás”, anotou o comentarista britânico Sam Brodbeck, especulando que os aumentos de impostos da nova era Biden podem ser copiados pelo ministro da Economia, Rishi Sunak, às voltas com os mesmos problemas de metade do planeta: como bancar os programas emergenciais de combate aos efeitos da pandemia sem arrombar as contas.

Detalhe: a Argentina já impôs um imposto único sobre fortunas específico para os efeitos do coronavírus e não existe pior exemplo no mundo do que o argentino de como administrar uma economia.

O endividamento gargantuesco promovido por Biden oferece a desculpa perfeita para os que não querem ser comparados à Argentina. Se os americanos podem, por que não podemos também, perguntam-se ministros da Economia de todo o planeta.

Preparem os bolsos. Não é segredo para ninguém que os impostos para os que têm mais sempre acabam reverberando entre os que têm menos.

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