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O gigante americano vai nos salvar ou nem ele dará conta?

A corrida científica para vacinas e tratamentos é vital, mas segurar o desmanche econômico planetário também é urgente e só um país pode fazer isso

Por Vilma Gryzinski - 19 mar 2020, 07h59

Entre as muitas estranhezas dessa nova era, três são notáveis.

Na China, desde ontem zeraram as infecções por coronavírus de origem local (os 34 novos casos registrados vieram de fora).

Na Itália, foi como se dois grandes desastres de avião tivessem acontecido no mesmo dia: 475 mortos de terça para quarta-feira.

O balanço de hoje será na mesma escala e deve ultrapassar, no total, um marco terrível, o dos 3 300 mortos na China.

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Nessa hora de extremos, os países mais afetados estão fechados em suas fronteiras físicas, mas quem consegue ver um pouco além está com os olhos voltados para um lugar: os Estados Unidos.

É só de lá que pode vir a salvação para o cataclisma econômico que acompanha e logo ultrapassará o ritmo do vírus.

O “remédio” para essa crise é dinheiro: zerar juros, bancar a liquidez dos fundos de investimentos, arquivar preocupações com a dívida e abrir os cofres.

A palavra “cofres” é usada no sentido figurado. A dinheirama toda que está sendo derramada não estava escondida em algum lugar secreto. Os governos têm que tomar emprestado e aumentar o endividamento.

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Exatamente como aconteceu na crise de 2008. Com uma diferença fundamental: a derrocada dos mercados, na época, teve causas internas, decorrentes dos riscos enlouquecidos e empréstimos podres assumidos por bancos e outros agentes.

Agora, a causa é externa: uma doença que paralisa o mundo, bombardeia em massa as indústrias mais vulneráveis, da aviação ao entretenimento, e incinera rendimentos de ricos, remediados e pobres.

Steve Mnuchin, o secretário do Tesouro que está fazendo a ponte com a oposição democrata para a aprovação das emergências mais imediatas, impactou um mercado já estado de choque com uma previsão feita a porta fechadas: o corona pode levar o desemprego nos Estados Unidos a 20% se não sair logo mais ajuda para trabalhadores e empresas.

“Não vamos deixar isso acontecer”, recuou depois.

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Será que Mnuchin já teve ou ainda vai ter seu momento Hank Paulson?

Em fevereiro de 2008, Paulson, uma fera do Goldman Sachs transformado em secretário do Tesouro, como Mnuchin, enfrentou o que parecia um teste único em sua geração: salvar o país da beira da insolvência.

Conseguiu negociar um pacote de 168 bilhões de dólares com a oposição democrata, fez uma viagem rápida ao Japão para acertar medidas de emergência, voltou e passou uma entrevista inteira saindo para vomitar no banheiro de seu gabinete. Audivelmente.

Estava com um vírus intestinal que virou metáfora para a crise de 2008. Virou livro e filme.

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O pacotão da época parece um pacotinho comparado ao trilhão de dólares – repetindo, um trilhão – que Donald Trump anunciou, divididos igualmente entre empréstimos de emergência para empresas e dinheiro direto no bolso dos contribuintes.

Não está, evidentemente, na hora de controlar gastos. E pacotes que pareciam excepcionais para estancar a crise na semana passada, nos Estados Unidos e em vários países europeus, nessa se transformaram em curativos.

O Goldman Sachs previu uma contração de 5% na economia americana no próximo trimestre. Uma pesquisa feita entre os dias 13 e 14 indicou que 18% dos domicílios americanos já foram afetados por demissões ou redução nas horas trabalhadas.

A ficha já caiu, e bem caída, para Trump e agora ele está assumindo a posição de um presidente em tempos de guerra. Inclusive com poderes para requisitar linhas de montagem de fábricas para a produção de material médico.

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Falou besteira num passado recente? Falou.

Reavaliou suas posições? Reavaliou.

Vai reagir melhor? Já está reagindo.

Vai ser o suficiente? Ninguém sabe.

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Trump não tem nem remotamente o perfil, por assim dizer, de comandante-chefe, o líder que assume o comando em horas de crises existenciais.

Mas é o que tem para o momento. Um comandante-chefe de cabelo tingido, baixa tolerância a períodos mais longos de concentração e uma relação dos infernos com a oposição.

E um projeto de reeleição em novembro, assunto no qual, ajuizadamente nem está falando mais.

Sem os Estados Unidos e a força de sua economia,a sua rapidez na tomada de decisões, a sua capacidade de pesquisa científica, a moblização da sua fenomenal máquina bélica, estamos todos ferrados.

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Escrevendo no Sunday Times, o comentarista econômico Allister Heath justificou, do ponto de vista de um “libertário que acreditou a vida inteira que o estado deve ser menor”, a necessidade das mais extremas medidas de socorro econômico na Grã-Bretanha.

O argumento é válido em qualquer lugar do mundo.

“Vai custar uma fortuna, mas o fundamento mais importante da prática do conservadorismo fiscal no tempo das vacas gordas é poder gastar muito quando acontece uma crise real”.

“O governo tem um papel, mesmo em tempos normais, de garantir o estado de direito, e precisa assumir a liderança em momentos de grande emergência. Liberais clássicos como Friedrich Hayek e Milton Friedmann endossavam totalmente a o papel do estado em situações de emergência”.

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Pronto, está explicado.

E também a “fortuna” que tudo isso vai custar, principalmente para quem tem ou pode emprestar mais ainda. Já sabemos quem é.

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