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Natalzão: candidata Elizabeth Warren ganha apoio de Obama

É tudo na moita, por enquanto, mas é claro que manobras do ex-presidente pesam muito - e também significam uma pé no traseiro de Joe Biden

Por Vilma Gryzinski - 25 dez 2019, 11h09

A “plantação” de assessores não identificados frutificou na imprensa americana: o ex-presidente Barack Obama está falando com os ricões que habitualmente irrigam as campanhas políticas do Partido Democrata para “dar todo apoio” a Elizabeth Warren, “se ela ganhar a indicação”.

A última condicional é para amenizar a dor do pontapé no traseiro de Joe Biden.

Como vice-presidente de Obama e, por enquanto, candidato mais cotado a ganhar a candidatura, é claro que Biden esperava ardentemente o apoio do político mais popular do partido (56% de opiniões positivas).

Triste ilusão.

Oficialmente, a posição de Obama é de esperar que o nome vencedor seja chancelado depois das primárias.

Extraoficialmente, acha o mesmo que muitos analistas políticos: Biden é muito velho e demonstra isso e desperta entusiasmo zero, mesmo que os eleitores democratas o considerem o mais elegível.

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Os negócios de seu filho na Ucrânia têm nepotismo escrito de A a Z, com uma ironia embutida: quanto mais fazem os democratas para complicar Trump no motivo alegado para seu impeachment, mais o sobrenome Biden aparece em circunstâncias suspeita.

Ao 77 anos, controlado pela assessoria para não falar muito incidir em besteiras, corre o risco de ser esmagado por um trator chamado Donald Trump.

Elizabeth Warren é uma candidata de risco mais alto – e, portanto, de prêmio maior se superar as resistências.

Que não são poucas.

A maior delas é que parece uma Hillary Clinton piorada: mais estridente, mais esquerdista, mais disposta a ir contra as estruturas tradicionais do partido, mais professoral no pior sentido.

Nada disso é muito promissor em termos eleitorais, inclusive junto ao pessoal do dinheiro.

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E não é pouco dinheiro.

A campanha pela reeleição de Obama, em 2012, custou 400 milhões de dólares. Hillary levantou a estarrecedora quantia de 1,2 bilhão (Trump ganhou com pouco mais do que a metade, 646 milhões).

Warren, ex-professora de direito de Harvard, ex-descendente de indígenas (uma bobagem que tentou explorar a vida toda até ser desmentida pelo DNA), e ex-integrante do Conselho de Defesa do Consumidor no governo Obama, diz que não quer o dinheiro dos milionários que movem montanhas presidenciais..

E os milionários também não se entusiasmam com ela e sua receita intervencionista: mais regulamentação, mais regulamentação, mais regulamentação. E mais impostos, claro.

Sem contar a promessa de briga com os gigantes do mundo digital, os donos dos monopólios mais ricos do mundo, na esmagadora maioria ultraliberais, no sentido americano, mas assustados com o machado de guerra empunhado por Liz Warren (seus adeptos começaram a chamá-la por um apelido que nunca teve para criar uma imagem menos elitista)

Por isso Obama está amaciando os grandes doadores democratas, todos para sempre apaixonados pelo ex-presidente, altamente capaz de conciliar retórica mais à esquerda a uma extrema facilidade em circular entre as maiores fortunas do mundo.

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O pré-candidato favorito, no momento, dos grandes doadores  do setor financeiro – Wall Street, para os íntimos – é Peter Buttigieg.

Nas pesquisas, ele aparece em quarto lugar, mas faz sucesso pelas pelas posições um pouco mais centristas entre pré-candidatos que se movimentaram todos para a esquerda, alguns com posições francamente malucas e eleitoralmente suicidas, incluindo abertura de fronteiras e de prisões.

Com seu sobrenome impronunciável (de origem maltesa), pouca idade (37 anos) e apelo ao politicamente correto (é casado com outro homem), o prefeito Pete, como a campanha tenta vendê-lo, levou patadas de Elizabeth Warren no último debate entre os pré-candidatos.

Como a purista que rejeita o dinheiro grosso, ela tentou ironizá-lo por ter ido a um evento, digamos, de arrecadação de doações numa espetacular vinícola do Napa Valley.

Previsivelmente, a adega do casal de anfitriões, Kathryn e Craig Hall, tem padrões californianos de suntuosidade.

“O prefeito recentemente levantou fundos numa adega cavada na rocha cheia de cristais onde foi servido um vinho de 900 dólares”, esfaqueou Warren.

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A referência aos  “cristais”  vem de um lustre gigantesco, com uma cascata de vidros polidos Swarowski.

Buttgieg defendeu-se pregando a união de todos, inclusive dos donos de adegas milionárias, para derrotar Trump.

A senadora Warren tem um ponto a favor: a maioria dos americanos acha indevido o enorme poder do dinheiro nas eleições.

O próprio Trump foi eleito por encarnar um rebelde alheio ao sistema, capaz de bancar a campanha com dinheiro próprio.

Não é exatamente verdade: depois que ganhou a candidatura, o que parecia inacreditável na época, o dinheiro dos republicanos milionários foi em grande parte redirecionado para ele.

Trump em nenhum momento escondeu ou disfarçou que pretendia incentivar o crescimento da economia e a criação de empregos exatamente da maneira como está fazendo: desregulamentação, desburocratização e alívio fiscal para as empresas,  o modo clássico do liberalismo econômico para distribuir os benefícios do capitalismo (em outros pontos, como equilíbrio fiscal, ele não tem nada, nadinha de liberal ortodoxo).

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Elizabeth Warren prega exatamente o oposto. Também não esconde suas posições.

Se for candidata, o que ainda está longe de acontecer, propiciaria um formidável embate de ideias com Trump.

Para não falar na pancadaria, evidentemente retórica, uma arte na qual está se revelando, embora ainda muito longe do padrão Trump de trolagem.

Um presidente sob impeachment, com economia forte e imagem ainda resistindo, apesar de todas as loucuras e truculências verbais, contra uma candidata que praticamente encarna o esquerdismo reinante no mundo acadêmico.

Isso, sim, seria guerra cultural.

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