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Macacos nos mordam: argentinos x brasileiros dá perda total

Chamar os vizinhos de 'macaquitos' é até pouco diante do mal que a Argentina pode fazer a si mesma, e com a ajuda nada santa do papa Francisco

Por Vilma Gryzinski - 19 ago 2019, 07h55

Valham-nos Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Luján. 

Um “assessor próximo” de Alberto Fernández, que já está lambendo os bigodes diante da perspectiva de ser o próximo presidente argentino, disse que um encontro com o papa Francisco foi fundamental para a reaproximação do candidato com Cristina Kirchner.

Era o que faltava para a Argentina: um papa interferindo diretamente na política interna.

Mesmo que seja um papa chamado Jorge Bergoglio, um autodeclarado simpatizante do peronismo no passado e, tudo indica, no presente também.

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A informação, se não for apenas plantação, foi passada por um “assessor próximo” do candidato ao Financial Times nos seguintes termos: “Francisco incentivou a reconciliação de Alberto com Cristina”.

Os dois passaram quase dez anos rompidos, mas voltaram a se aliar para o crime, ops, perdão, para formar uma frente unificada do peronismo. 

Até agora, deu certo, com a manobra de Cristina de colocar seu ex-ministro, com imagem menos agressiva, na cabeça da chapa presidencial, e a vitória de quase 15 pontos sobre o presidente Mauricio Macri nas primárias da semana passada.

A revelação sobre o encontro com o papa obviamente tem o objetivo de reforçar  a mensagem principal, de que Alberto Fernández não vai, de novo, tomar a via dos párias no circuito econômico internacional, quebrar o país e fazer outras loucuras associadas ao cristinismo.

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Toda a construção da moderação só tropeça, estrepitosamente, quando Jair Bolsonaro entra na conversa.

Quem começou foi Bolsonaro, ao dizer, equivocadamente, que o sul do Brasil viraria Roraima se Cristina Kirchner voltasse ao poder – um paralelo com a crise na Venezuela.

Não deveria ter dito isso, inclusive por esperteza: criticar um candidato de outro país só aumenta a possibilidade de que seja eleito, devido ao fator patriotismo ofendido. 

Mas a reação de Alberto Fernández foi de uma virulência tão absurda que não só desmonta qualquer possibilidade da decantada “moderação”, como demonstra sua verdadeira natureza, traiçoeira e falsamente escondida sob a fachada de “professor discreto”.

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“É um racista, um misógino, um violento. O que eu pediria ao presidente Bolsonaro é que deixe Lula livre e se submeta a eleições com Lula em liberdade.”

É claro que Fernández estava explorando o fervor patriótico despertado quando um presidente estrangeiro mete a colher em assuntos internos de outro país. 

É claro que sabe muito bem que não compete a Bolsonaro “deixar Lula livre”.

É claro que queria “echar leña al fuego” e tirar vantagem de eventuais reações.

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E é claro que Bolsonaro não é o tipo que vai ficar calado diante de contraprovocações.

O mais curioso nisso tudo foi a reação de eleitores de Alberto Fernández – ou de qualquer outro candidato que fosse apoiado por Cristina.

Macacos, macaquitos, mais macacos e outros macaquitos, disseram muitos, em conjunto, sobre os brasileiros em geral, usando um epíteto antigo com total ausência de consciência sobre o teor racista do xingamento.

Teoricamente de esquerda, um leitor do Clarín, depois de recorrer à comparação com os simpáticos símios, falou também na condenação eterna do Brasil ao fracasso devido à “africanização”.

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A falta de parâmetros das reações, que nem de longe se compara às muitas tolices ditas por brasileiros sobre argentinos em seções de comentários, é característica da violência verbal, e eventualmente física, do peronismo, em qualquer de suas encarnações – direita, esquerda, centro etc.

Há setenta anos, a Argentina é dividida, de maneira quase incompreensível para estrangeiros, em dois campos. Tudo o que não é “Perón, Perón, Perón”, é o inimigo.

Redes sociais e polarizações contemporâneas só exacerbaram um fenômeno que precede em muito as recentes radicalizações.

Pacto do medo

O Brasil precisa da Argentina e a Argentina precisa do Brasil – sendo esta bastante mais necessitada, o que atiça uma sensação de inferioridade insuportável para egos sensíveis.

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E existem no mundo egos mais sensíveis do que os argentinos?

Nesse abraço inseparável, ditado pelas leis eternas da geopolítica, misturam-se admiração e rejeição.

Admiração muito mais da parte dos brasileiros que se encantam com os escritores prodigiosos – só um, Jorge Luís Borges, já bastaria para justificar toda a existência da Argentina, mas há tantos outros -, a habilidade verbal, os personagens históricos fabulosos, os jogadores espetaculares, a torcida popular nos jogos de polo, os restaurantes muito bons e também os ruins, onde senhores de terno fumam e comem carne desde o início dos tempos.

Sem contar o sorriso meio desconfiado dos turistas que, tendo levantado às seis horas da manhã para pegar todas as cadeiras em volta da piscina, são tratados com a generosidade espontânea dos brasileiros.

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Os argentinos estão preparados para muitas coisas, mas receber manifestações randômicas de afeto não é uma delas.

Esta capacidade de resistência passou por uma semana infernal, daquelas em que o abismo volta a se abrir vertiginosamente, sob os pés da nação inteira.

Um resumo rápido: no domingo 11, a chapa Fernández-Cristina disparou à frente das primárias, fazendo antecipar, com todas as ressalvas. Uma vitória já no primeiro turno, em 27 de outubro.

Os mercados reagiram na “segunda-feira negra”, o peso acelerou rumo ao derretimento, com 30% de desvalorização. A bolsa caiu 38%. As empresas argentinas vieram o dia valendo quase a metade. 

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O risco país foi escalando para perto dos 2 000 pontos, um salto quase suicida

Alberto Fernández disse que era normal e não via motivos para dialogar com Macri.

Diante da possibilidade de repetir vertigens do passado, como os trágicos 12 dias do fim de dezembro de 2001, quando Fernando de la Rúa fugiu da Casa Rosada de helicóptero, depois de renunciar sob caos generalizado, e o país teve ao todo cinco presidentes, Macri cedeu.

E cedeu mais um pouco, e continuou cedendo. Congelou o preço da gasolina, eliminou o imposto agregado sobre alimentos básicos, reduziu o imposto de renda, deu bônus aos funcionários públicos, prorrogou dívidas fiscais e aumentou o salário mínimo.

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Alberto Fernández declarou que “o dólar a 60 pesos está bem”.

Quatro horas depois de repetir que não tinha nada a tratar com Macri, Alberto Fernández se dispôs a falar por telefone com o presidente, contanto que fizesse um apelo público.

Macri fez, pelo WhatsApp.

Os mercados se acalmaram, se é que se pode chamar de calma uma situação pavorosa. O jornal La Nación descreveu a conversa como o “pacto do medo”.

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Balsa da loucura

“É preciso ajudar o presidente”, tripudiou Fernández.

Escolados, os argentinos aumentaram em 40% a compra de produtos básicos.

No sábado, Nicolás Dujovne renunciou como ministro da Fazenda.

Macri recebeu seu psicólogo, com quem faz terapia há décadas – ah, Argentina -, e se pronunciou pelo Twitter à meia-noite.

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Qual a garantia de que o buraco não vá ficar cada vez maior?

A mesma de que os desinformados de sempre, inclusive uns e outros que formalmente estudaram economia, deixem de usar a palavra “neoliberal” em relação às políticas de Macri.

Ou seja, nenhuma.

Como alguém sussurrou em seu ouvido, Fernández percebeu que uma guerra de bravatas contra o Brasil antes mesmo de assumir não era uma boa ideia. 

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Disse que Bolsonaro poderia ficar “tranquilo” pois não vai fechar a economia e o Mercosul é um parceiro fundamental. Bater boca a respeito é uma bobagem.

Ufa.

Em tempo: Alberto Fernández usa bigodão por identificação com o amigo e professor de música Litto Nebbia, integrante de um conjunto que surgiu, como tantos no mundo, imitando os Beatles.

Nebbia, hoje calvo e bigodudo, é um roqueiro cuja música mais famosa, e depressivamente argentina, La Balsa diz: “Quando minha balsa estiver pronta/ Partirei rumo à loucura/ Com minha balsa eu irei/ Naufragar…”.

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Mil macacos nos mordam se um governo em que Alberto Fernández for eleito presidente pela força política de Cristina Kirchner, a vice de todos os pesadelos, com o papa Francisco dizendo amém, não acabar naufragando na loucura.

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