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Já que não rolou a paz dos fortes, a dos fracos pode funcionar?

Todos os envolvidos na proposta americana de acordo entre israelenses e palestinos estão em situação precária, incluindo o seu autor, o supergenro Kushner

Equilibrar-se sobre o abismo debaixo de fogo, muitas vezes literal, faz parte da vida de qualquer líder do Oriente Médio, inclusive os de Israel, a única democracia da região.

Mas há algo de único na tempestade perfeita que atormenta todos os que têm algo a fazer, nem que seja contra a vontade, quando Donald Trump apresentar a proposta de acordo de paz que encomendou a seu genro e assessor, Jared Kushner.

Política interna convulsionada, investigações por suspeita de corrupção ou desvio de função, idade avançada e até o sistema de caos permanente criado por Trump para si mesmo, israelenses, palestinos e americanos vivem diferentes estados de precariedade.

Numa tentativa de sabotagem preventiva da proposta que ainda não foi apresentada publicamente, Saeb Erekat, um dos muitos que ambicionam liderar a futura Palestina independente, já foi dizendo que o acordo é inaceitável.

O direito a espernear é compreensível. Em posição de fraqueza permanente, os líderes da Autoridade Palestina, a esfera de influência onde Erekat e similares operam, teriam que aceitar propostas piores do que as que as rejeitadas no passado.

O exemplo mais claro é Jerusalém. Nas negociações feitas no ano 2000, os palestinos teriam sua capital na parte oriental da cidade santa e controle sobre a Esplanada das Mesquitas, venerada como o Monte do Templo pelos judeus religiosos e também secularistas por ser o terreno onde existiram os dois templos bíblicos.

Yasser Arafat rejeitou a proposta porque Israel manteria o controle sobre uma espécie de cinturão em torno da Esplanada, por questão de segurança. Quem conta a história é Bill Clinton, o presidente que não conseguiu a paz permanente que Trump agora ambiciona promover.

Segundo a proposta antecipada por Erekat, o plano Kushner prevê uma capital palestina na periferia de Jerusalém. Pode ser uma jogada para abrir as negociações com o lance mais baixo, mas exemplifica como os palestinos perderam força política, especialmente pelas grandes mudanças ocorridas nos países árabes que bancavam a causa.

Outros pontos importantes são a permanência de algumas áreas na prática anexadas por Israel em troca da devolução de outras e a criação de um corredor unindo Gaza e os territórios da Autoridade Palestina. A questão praticamente insolúvel dos palestinos que fugiram ou foram expulsos para outros países seria discutida posteriormente.

Fazer concessões, segundo as regras básicas da política, é para os fortes. Líderes ou governos fracos têm medo de parecer mais expostos ainda se cederem em pontos importantes ou impopulares.

Mahmoud Abbas, o presidente palestino, não precisa se submeter a inconveniências como eleições regulares, mas certamente teria enorme resistência entre o público interno.

Está com 82 anos e não vai ficar mais jovem. Há vários candidatos à sucessão contando o tempo – um no exílio, outro na cadeia e muitos no seu entorno. Também poderia ter uma doença súbita, se quisermos aderir ao conspiracionismo que até hoje cerca a morte de Arafat.

Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, enfrenta três inquéritos por corrupção. O mais complicado envolve uma grande empresa de telecomunicações, dona de um site jornalístico que se mostrou muito disposto a promover o primeiro-ministro. Por uma incrível coincidência, surgiram projetos de lei amistosos em relação à empresa.

As similaridades com um país que conhecemos muito bem incluem delações premiadas de ex-assessores do primeiro-ministro com potencial devastador.

As esposas dos principais acusados, Netanyahu e milionário Shaul Elovitch, dono da Bezeq, a estatal privatizada de telefonia, também estão sendo investigadas.

“Achei que já tínhamos conversado sobre isso. Não dá para continuar”, diz Sara Netanyahu numa mensagem a Iris Elovitch exigindo a cabeça do diretor de redação do site Walla por alguma coisa de que não havia gostado. A mensagem vazou para a imprensa.

Ex-integrante das forças especiais do exército de Israel com missões de infiltração atrás das linhas inimigas – o que em Israel às vezes significa apenas alguns quilômetros –, Netanyahu também é um especialista em sobrevivência política.

Está a um ano e oito meses de se tornar o primeiro-ministro com mais tempo no cargo, ultrapassando o pai da pátria David Ben Gurion. Continua a ter muito apoio da base de seu partido, o Likud, que perderia apenas um deputado se a eleição fosse hoje. Mas não é e o tempo pode não ser nada favorável a Netanyahu. Se sentirem o cheiro de sangue na água, aliados fiéis virarão infiéis, como é praxe na política.

Mais surreal é a situação de Jared Kushner, ou “Mr. Perfect”, como dizem os inimigos internos, o jovem, bonito e milionário marido de Ivanka Trump.

Encarregado de uma missão dificílima como a paz entre israelenses e palestinos e colocado na posição impossível de genro e assessor de Trump, Kushner caiu na órbita do promotor especial Robert Mueller.

Os encontros com líderes empresariais americanos e estrangeiros que parecem coincidir com empréstimos ao império imobiliário da família Kushner não melhoraram em nada sua situação.

Mas nada se compara ao vazamento segundo o qual Trump pediu a seu ministro da Casa Civil, John Kelly, para convencer a filha e o genro, o casal Javanka, a sair do governo para o qual nunca deveriam ter entrado e voltar para Nova York.

Há dois séculos atrás, as potências europeias se reuniram para discutir a “paz dos fortes”, a ordem que deveria reinar depois da queda de Napoleão. Imperadores, reis, príncipes e diplomatas discutiram questões de alcance estonteante.

Em termos político-territoriais: a configuração dos estados alemães numa nova confederação em lugar do Sacro Império Germânico, a reorganização da Europa Central e da Itália, a remodulação dos escandinavos e uma nova partilha da Polônia. Ramos da casa real de Bourbon assumiam a monarquia restaurada na França, na Espanha e no reino de Nápoles. Navegação fluvial, abolição do tráfico de escravos foram outros temas do Congresso de Viena.

No meio disso tudo, Napoleão fugiu de Elba e voltou para os breves Cem Dias, a aventura encerrada com a derrota em Waterloo.

A paz e a ordem decididas pelos fortes – Grã-Bretanha, Rússia, Prússia e Áustria – duraram até 1914.

Diante do alcance do Congresso de Viena, um acordo entre israelenses e palestinos não parece nada absurdo, especialmente porque tem que ser baseado numa realidade já existente, de aliança tácita de países como Egito e Arábia Saudita com Israel.
Os palestinos merecem ter direitos nacionais, inclusive à dignidade, ainda que seu país não venha como querem. Israel merece o reconhecimento de seus vizinhos mais imediatos.

Trump pode vir a merecer o título deliciosamente irônico de pacificador ambicionado por tantos presidentes americanos antes dele. E Jared Kushner mereceria voltar por cima para Nova York.

Custa sonhar por alguns instantes?

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