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Inglaterra: falta gasolina e sobram empregos de motorista de caminhão

Crise de abastecimento causada pela escassez de caminhoneiros cria oportunidades inesperadas; nos Estados Unidos, é caça ao funcionário

Por Vilma Gryzinski 27 set 2021, 09h27

Socos, chutes, cusparadas e palavrões. As cenas nas filas para abastecimento nos postos de gasolina na Inglaterra não são bonitas – nem completamente estranhas aos brasileiros.

Com o pânico do desabastecimento se espalhando, o inevitável aconteceu e 90% dos postos já tinham fechado no domingo, com os estoques esgotados.

Não falta combustível, mas faltam motoristas para transportá-lo até os postos e o governo demorou para reagir. Aprovou vistos de emergência para motoristas de países da União Europeia, mas nem de longe conseguirá suprir os 100 mil postos necessários para retomar a normalidade.

Boris Johnson deveria ter sido mais esperto, sabendo muito bem que desabastecimento ou aumento de preços dos combustíveis é o tipo de coisa que derruba governos. Ou no mínimo provoca reações furiosas.

Há dois anos, um helicóptero presidencial chegou a ficar ligado na área de decolagem do Palácio do Eliseu quando os coletes amarelos quase marcharam sobre o elegante palacete para exigir a cabeça de Emmanuel Macron – metaforicamente, ou talvez nem tanto; nunca se sabe com os franceses. A onda de protestos dos coletes amarelos começou por causa da criação de uma taxa “ecológica” adicional sobre os combustíveis. A população das cidades menores, que depende em tudo do carro, explodiu em fúria.

A falta de motoristas de veículos de carga pesada no Reino Unido tem uma multiplicidade de causas. Vai desde o Brexit, que tirou do mercado caminhoneiros da União Europeia aborrecidos com o aumento do tempo e da burocracia fronteiriça, até a pandemia. No ano passado, deveriam ter sido feitos 70 mil exames para a habilitação de motoristas de veículos pesados. Foram feitos  menos de 40 mil.

A falta de profissionais está provocando o fechamento de empresas de transporte menores e o governo estuda abrir os cofres para dar ao setor empréstimos em condições privilegiadas.

Num sinal de desespero, o governo também cogita convocar integrantes das Forças Armadas para reforçar o continente de motoristas.

Ironicamente, num país pós-pandemia totalmente normalizado, o trabalho remoto estava voltando pela pura impossibilidade de ir ao local de trabalho.

Em compensação, nunca foi tão bom ser um profissional do ramo. A escassez de mão de obra aumentou a remuneração e há ofertas na casa das 70 mil libras por ano – mais de 450 mil reais, que tal?

Além do salário equivalente ao oferecido a um advogado com formação de primeira linha, os caminhoneiros ainda podem receber um “Golden Hello”, um bônus de duas mil libras só por assinarem o contrato de dois anos.

O Daily Mail reportou como caminhoneiros estão sendo “caçados” por head hunters que frequentam as áreas de alimentação em postos de rodovias.

“Nunca vi isso acontecer na minha área. É mais do que ganha o meu chefe”, disse ao jornal um motorista identificado apenas como Barney, que recebeu uma proposta de trabalhar no abastecimento a supermercados por 27 libras por hora nos dias úteis e 54 libras aos domingos – em reais, quase oito vezes mais.

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Motoristas ganhando mais do que executivos podem vir a ser um fenômeno de se espalhe pela Europa, onde a falta de caminhoneiros  é igualmente uma realidade do mercado.

Nos Estados Unidos, a pandemia também está provocando reviravoltas sem precedentes. Receber para ficar em casa e reavaliar o estilo de vida são dois fenômenos que se combinaram para tirar muita gente do mercado e aumentar incrivelmente a oferta de postos de trabalho.

Segundo a revista Forbes, há empresas oferecendo até 100 mil dólares – leram certo, 100 mil – como bônus na hora da contratação de profissionais altamente qualificados.

Segundo uma pesquisa de ofertas de postos de trabalho com pagamento de bonificação de entrada, houve um aumento de 454% nesse tipo de iniciativa entre agosto do ano passado e este.

Nada surpreendentemente, as melhores ofertas são para profissionais da área da saúde – os tais 100 mil dólares foram oferecidos por um plano de saúde para neurologistas com especialização no tratamento de esclerose múltipla. Um bônus similar foi oferecido a dentistas.

A Raytheon, gigante da indústria bélica, estava oferecendo 50 mil dólares a programadores de alto desempenho, com acesso a controles de segurança de nível máximo.

Outros profissionais relacionados pela Forbes com oferta de bônus para assinar contratos: técnicos automotivos, cuidadores de animais, barbeiros, cabeleireiros e cosmetólogos. Um hospital veterinário estava colocando 60 mil dólares na mesa por um profissional do ramo.

A Walmart, maior empresa de varejo do mundo, ofereceu em julho cobrir os custos das mensalidades de cursos universitários e livros para seus funcionários – um programa de um bilhão de dólares em cinco anos.

Além de atrair, as empresas americanas estão preocupadas em não perder funcionários. No mercado financeiro, os benefícios incluem aumentos de salários, de bônus por desempenho, de dias de folga e até as superbicicletas estacionárias da marca Peloton, um sonho de consumo dos fanáticos por exercícios. Na gigantesca Apollo Global Management, os “bônus de retenção” estavam entre 100 mil e 200 mil dólares.

Comparativamente, parece modestíssimo o bônus de 50 dólares oferecido por um McDonald’s da Flórida a quem simplesmente comparecesse para fazer uma entrevista de trabalho – mas o significado simbólico é enorme.

O aquecimento das remunerações também alimenta a tendência inflacionária registrada em vários países como subproduto dos incentivos em massa dados para contrabalançar os efeitos econômicos malignos da pandemia.

No Reino Unido, a inflação está em 4%, o suficiente para tocar alarmes em todos os setores da economia, onde décadas de estabilidade e até de algo perigosamente parecido com recessão fizeram esquecer, mas não apagar completamente da memória, os 25% de inflação que ajudaram a eleger Margaret Thatcher em 1979.

A oposição hoje é do Partido Trabalhista, que não precisa fazer nada para subir nas pesquisas exceto ver os preços subindo e a gasolina sumindo.

Boris Johnson que se cuide.

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