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Geopolítica do lítio: por que a China afaga o Afeganistão dos talibãs

O mineral estratégico define movimentos no grande xadrez da corrida pelos recursos que moverão o mundo num futuro que já está aqui

Por Vilma Gryzinski 21 set 2021, 07h34

A China tem 35% das reservas mundiais de lítio e 93 “giga-fábricas” que produzem baterias de lítio-íon, o “petróleo do futuro” que alimenta praticamente tudo, de celulares a notebooks, de câmeras a carros elétricos. Os Estados Unidos têm quatro dessas fábricas.

Só estes números já dão uma ideia de como a competição por um recurso vital está pendendo para o lado chinês.

A recente e chocante guinada no Afeganistão impressionou o mundo com a ascensão avassaladora do Talibã e o vexame da retirada às pressas dos Estados Unidos, mas o verdadeiro xadrez geopolítico estava com o foco concentrado no que existe debaixo da terra e não acima dela.

O Afeganistão é o décimo-sexto país mais pobre do mundo, mas tem reservas de terras raras avaliadas em 1 trilhão de dólares – um “detalhe” que certamente não passou despercebido à China. 

Estas reservas incluem possivelmente o maior depósito de lítio do mundo. Para comparar: o imenso Brasil saltou recentemente de 0,5% para 8% das reservas mundiais, o que nos deixa em boa posição, mas ainda longe do pódio. O maior produtor do lítio do mundo é o Chile, também campeão de outra fera da condutividade, o cobre.

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Cultivando contatos com os ultrafundamentalistas desde que ficou claro que os Estados Unidos cairiam fora do Afeganistão e os homens de turbante retomariam o país inteiro, a China ganhou uma posição de incontestável vantagem estratégica.

Como os novos talibãs querem fazer negócios, em vez de se dedicarem exclusivamente à implantação de uma teocracia islamista nos moldes do século VI, como fizeram da primeira vez que conquistaram o poder, as portas estão abertas para uma associação mutuamente vantajosa.

Com o Afeganistão no bolso, a vantagem da China aumenta notavelmente. Tão carente de vários recursos vitais, a China tem uma prodigiosa riqueza em matéria de terras raras: 70% da produção global. Fornece 80% das importações americanas desse recurso estratégico, o que faz de seu grande adversário um potencial refém – já houve até um precedente, em 2010, quando o Japão foi deixado de castigo, temporariamente, por causa de um incidente diplomático.

A corrida pela energia renovável só aumenta o valor estratégico das terras raras e dos minerais usados para produzir energia. Depois da China, Brasil e Vietnã empatam em segundo lugar no mundo, com reservas avaliadas em 22 milhões de toneladas.

Quem souber aproveitar seus recursos fica bem aparelhado para a corrida tecnológica – o grafeno já está na linha para substituir o lítio – e um lugar decente no xadrez estratégico. Quem não souber, fará companhia ao Afeganistão, um puxadinho atrasado da superpotência chinesa.

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